O problema central hoje para a Fé e para a Igreja é o avanço da indiferença religiosa, da secularização, o esmagamento da transcendência.
A missão dos consagrados deveria estar em função desse problema, ou seja, deveria orientar-se para enfrentar uma realidade que ameaça fazer com que a Fé se torne irrelevante nas sociedades avançadas.
A gravidade da situação nos obriga a repensar toda a organização, a identidade e as formas da vida religiosa.
De modo que esta volte a ser, como foi em outros tempos, a vanguarda da evangelização e o rosto mais visível da dimensão religiosa da Igreja, a fim de possibilitar uma recuperação do significado da transcendência.
Nem todos estão de acordo em que o ambiente secularizado seja um problema
É um desafio que talvez nem todos compartilhem. Nem todos estão de acordo em que o ambiente secularizado seja um problema, ou uma ameaça para a Fé.
Há quem pense, ainda hoje, que o Cristianismo pode sobreviver num mundo não religioso, porque, como dizem, a Fé cristã “não é uma religião”.
Há uma considerável demora, numa parte da Igreja, na hora de perceber o perigo. Muitos clérigos e pastores atuam como se ainda vivessem numa sociedade cristã. Ainda não entraram numa mentalidade de “evangelização” de um mundo no qual o Cristianismo é minoritário.
É certo que a secularização constitui uma verdadeira crise ou ameaça para a Fé Cristã em geral, e para a vida consagrada em particular.
Vejamos: quando cada vez menos gente vai à Missa, quando cada vez mais gente confessa não crer em tal ou tal verdade fundamental da Fé, quando diminui o número dos Batismos.
Quando há uma redução drástica das vocações e se vendem menos publicações religiosas, quando a legislação dos estados se afasta cada vez mais dos princípios cristãos, estamos diante do fenômeno da secularização, ou seja, do retrocesso da dimensão religiosa.
Qual é nossa tarefa ante a secularização?
O perigo da secularização interna
Em primeiro lugar, um Instituto religioso que assume como prioridade frear a secularização deve começar por sua própria casa e combater as formas sutis de “secularização interna” que se infiltraram em nosso ambiente.
Não podemos negá-lo: a secularização invadiu também numerosos âmbitos da vida consagrada, e aqui vem a propósito a frase evangélica: “Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor?” (Mt 5, 13).
Se os consagrados se secularizam, quem manterá abertos os espaços da transcendência?
Os indicadores da secularização num Instituto religioso se verificam em uma linguagem que perde conteúdo religioso; a redução do tempo de oração e dos atos religiosos em comum; a perda da visibilidade da consagração, tanto pessoal como coletiva.
Também a orientação para atividades sociais, com a convicção de que a catequese e a administração dos Sacramentos são menos relevantes que a ação social e humanitária; a concepção da missão mais como agentes de progresso social do que como representantes da esperança escatológica.
São essas as formas mais visíveis de secularização interna. Para combatê-las é preciso incrementar a oração comum, a visibilidade como consagrados, o uso de uma linguagem com mais referências religiosas, a orientação preferentemente religiosa das atividades.
Ou melhor, onde essas atividades são ambivalentes, como no caso do ensino, acentuar a dimensão religiosa e pastoral, uma teologia que ponha em destaque a transcendência, uma separação mais clara entre o ambiente dos consagrados e o dos leigos: não é bom derrubar a “clausura” tradicional que delimita esses dois estados.
A mobilização diante da indiferença religiosa
Outro problema que se coloca é o da mobilização diante da indiferença religiosa. Entendo por mobilização a orientação de um grupo social ao focalizar sua atividade a partir de uma missão, de uma tarefa a cumprir, de um antagonismo a enfrentar.
Também aqui há o perigo de que a missão, o empenho, degenere em formas de secularização interna, deslocando a missão do âmbito religioso para o âmbito civil: não é factível a substituição de uma missão religiosa e eclesial por outra meramente secular, como é “a causa da justiça”.
Em cada época os consagrados souberam responder às necessidades espirituais de seus contemporâneos. Para São Francisco e os franciscanos, tratava-se de, pela penitência, combater a vida de pecado que afetava a muitos.
Para São Domingos e os seus, tratava-se de, pela pregação, vencer os movimentos heréticos; para Santo Inácio e os jesuítas, frear o avanço do protestantismo; para as Congregações que surgiram depois da Revolução Francesa, trata-se de restaurar os ideais de uma sociedade cristã.
Também hoje se apresenta um desafio que requer a mobilização das forças da Igreja: combater o avanço da indiferença religiosa, da secularização, da perda do senso da transcendência e da esperança escatológica.
A importância de uma boa preparação teológica
O problema da secularização abre várias frentes, assim, a confrontação deve ser assumida a partir de várias perspectivas. Uma delas, na qual insiste o Papa Bento XVI, é a teológica, ou a chamada a repensar a Fé à luz da crise atual, e em relação com a razão positivista.
A evolução dos consagrados, depois do Concílio, se caracterizou por um certo anti-intelectualismo. Uma clave para fazer frente à ameaça da secularização é cultivar um conhecimento mais exigente e profundo da teologia e de sua capacidade de dialogar com a razão moderna.
Em suma, uma boa dotação intelectual é um requisito para a mobilização. Essa dotação é importante para os que devem defrontar-se com um ambiente muito mais exigente, sob o ponto de vista intelectual, daquele que conheceram nossos predecessores.
Não podemos limitar-nos apenas ao valor do testemunho. Uma vez que nosso testemunho é e será sempre limitado, o papel da investigação teológica resulta importante para impugnar certos desafios que a cultura atual nos lança.