A vida interior é fundamental para os sacerdotes

Pergunta: Nós, sacerdotes, jovens e idosos, sofremos a escassez de vocações ao sacerdócio. Por este motivo, por vezes desanimamos. Vendo as numerosas coisas para fazer, sentimos a tentação de privilegiar o fazer, descuidando o ser, e isto inevitavelmente reflete-se sobre a vida espiritual. Santo Padre, que nos pode dizer a este respeito? Eu já sou idoso… mas estes jovens irmãos podem ter esperança?

Bento XVI: […] No que se refere à vida interior, diria que ela é fundamental para o nosso serviço de sacerdotes. O tempo que nos reservamos para a oração não é um tempo subtraído à nossa responsabilidade pastoral, mas é “trabalho” pastoral, é rezar também pelos outros.

No Comum dos Pastores lê-se como característica do bom Pastor que multum oravit pro fratribus.

Isto é próprio do Pastor, que seja homem de oração, que esteja diante do Senhor rezando pelos outros, substituindo também os outros, que talvez não saibam rezar, não queiram rezar, não encontrem tempo para rezar.

Assim, evidencia-se que esse diálogo com Deus é uma obra pastoral!

Por conseguinte, diria que a Igreja nos dá, quase nos impõe, mas sempre como uma boa Mãe, que tenhamos tempo livre para Deus, com as duas práticas que fazem parte dos nossos deveres: celebrar a Santa Missa e recitar o Breviário.

Mas, mais do que recitar, realizá-lo como escuta da Palavra que o Senhor nos oferece na Liturgia das Horas.

É necessário interiorizar esta Palavra, ouvir depois o comentário dos Padres da Igreja ou também do Concílio, na segunda Leitura do Ofício das Leituras, e rezar com esta grande invocação que são os Salmos, com os quais somos inseridos na oração de todos os tempos.

Reza conosco, e nós rezamos com ele, o povo da Antiga Aliança. Rezamos com o Senhor, o qual é o verdadeiro sujeito dos Salmos. Rezamos com a Igreja de todos os tempos.

Diria que esse tempo dedicado à Liturgia das Horas é um tempo precioso. A Igreja dá-nos essa liberdade, esse espaço livre de vida com Deus, que é também vida para os outros. […]

“É a vida de Cristo que vence na sua Igreja”

A sua segunda pergunta foi: temos esperança para esta Diocese, para esta porção do povo de Deus que é a Diocese de Albano, e para a Igreja?

Respondo sem hesitações: sim! Naturalmente, temos esperança: a Igreja é viva!

Temos dois mil anos de história da Igreja, com tantos sofrimentos, também com tantos fracassos: pensemos na Igreja na Ásia Menor, a grande e florescente Igreja da África do Norte, que com a invasão muçulmana desapareceu.

Por conseguinte, porções de Igreja podem realmente desaparecer, como diz São João no Apocalipse, ou o Senhor através de João: “Virei ter contigo e tirarei o castiçal do seu lugar, se não te arrependeres” (2, 5).

Mas, por outro lado, vemos como entre tantas crises a Igreja ressuscitou com uma nova juventude, com um novo vigor.

No século da Reforma, a Igreja Católica parecia realmente ter terminado. Parecia que essa nova corrente triunfava, que afirmava: agora a Igreja de Roma terminou.

E vemos que com os grandes Santos, como Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, Carlos Borromeu e outros, a Igreja ressurgiu. Encontra no Concílio de Trento uma nova atualização e uma revitalização da sua doutrina. E revive com grande vitalidade.

Vemos o tempo do Iluminismo, no qual Voltaire disse: finalmente terminou esta antiga Igreja, a humanidade vive! E, ao contrário, o que acontece?

A Igreja renova-se. O século XIX torna-se o século dos grandes Santos, de uma nova vitalidade para tantas Congregações religiosas, e a Fé é mais forte que todas as correntes que vão e voltam.

Aconteceu o mesmo no século passado. Certa vez Hitler disse: “A Providência chamou a mim, um católico, para pôr fim ao catolicismo. Só um católico pode destruir o catolicismo”. Ele estava convencido de possuir todos os meios para destruir finalmente o catolicismo.

De igual modo, a grande corrente marxista tinha a certeza de realizar a revisão científica do mundo e de abrir as portas ao futuro: a Igreja chegou ao fim, terminou! Mas, a Igreja é mais forte, segundo as palavras de Cristo. É a vida de Cristo que vence na sua Igreja.

Mesmo em tempos difíceis, quando faltam vocações, a Palavra do Senhor permanece eternamente. E quem, como diz o próprio Senhor, constrói a sua vida sobre esta “rocha” da Palavra de Cristo, constrói bem.

Por isso, podemos ter confiança. Vemos também no nosso tempo novas iniciativas de Fé. Vemos que na África a Igreja, apesar dos numerosos problemas, possui um encorajante vigor de vocações.

E assim, com todas as diversidades do panorama histórico de hoje, vemos – e não só, cremos – que as palavras do Senhor são espírito de vida, são palavras de vida eterna.

São Pedro disse, como ouvimos no domingo passado no Evangelho (Jo 6, 69): “Tu tens palavras de vida eterna, e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus”.

E ao ver a Igreja de hoje, ao ver, com todos os sofrimentos, a vitalidade da Igreja, podemos dizer também nós: acreditamos e sabemos que tu nos dás as palavras de vida eterna, e portanto uma esperança que não falha.

A Liturgia não pode ser um espetáculo teatral

Pergunta: Nós, como sacerdotes, somos chamados a realizar uma liturgia “séria, simples e bela”. Santo Padre, pode ajudar-nos a compreender como se pode traduzir tudo isto na ars celebrandi?

Bento XVI: Ars celebrandi: também neste aspecto, diria que existem diversas dimensões. A primeira é que a celebratio é oração e diálogo com Deus: Deus conosco e nós com Deus. Portanto, a primeira exigência para uma boa celebração é que o sacerdote entre realmente nesse diálogo.

Anunciando a Palavra, sente-se ele mesmo em diálogo com Deus. É ouvinte da Palavra e anunciador da Palavra, no sentido de que se torna instrumento do Senhor e procura compreender essa Palavra de Deus que depois ele deve transmitir ao povo.

É um diálogo com Deus, porque os textos da Santa Missa não são textos teatrais ou algo semelhante, mas são orações, graças às quais, juntamente com a assembleia, falo com Deus. Portanto, entrar nesse diálogo é importante.

São Bento, na sua “Regra”, diz aos monges, falando da recitação dos Salmos: Mens concordet voci. A vox, as palavras precedem a nossa mente. Normalmente não é assim: primeiro temos que pensar, e depois o pensamento torna-se palavra.

A Sagrada Liturgia dá-nos as palavras; nós devemos entrar nessas palavras, encontrar a concórdia com essa realidade que nos precede.

Além disto, devemos também aprender a compreender a estrutura da Liturgia e a razão pela qual ela está articulada dessa forma. A Liturgia cresceu em dois milênios e também depois da reforma não se tornou algo elaborado apenas por alguns liturgistas.

Ela permanece sempre continuação desse crescimento permanente da adoração e do anúncio. Assim, é muito importante, para podermos nos sintonizar bem, compreender essa estrutura que cresceu no tempo e entrar com a nossa mens na vox da Igreja.

Na medida em que interiorizamos essa estrutura, compreendemos essa estrutura, assimilamos as palavras da Liturgia, podemos entrar nessa consonância interior, e assim não só falar com Deus como pessoas individualmente, mas entrar no “nós” da Igreja que reza.

Desta forma, transformamos também o nosso “eu” entrando no “nós” da Igreja, enriquecendo, alargando esse “eu”, rezando com a Igreja, com as palavras da Igreja, estando realmente em diálogo com Deus.

Esta é a primeira condição: nós próprios devemos interiorizar a estrutura, as palavras da Liturgia, a Palavra de Deus. Assim o nosso celebrar torna-se realmente um celebrar “com” a Igreja: o nosso coração alarga-se e nós não fazemos simplesmente algo, mas estamos “com” a Igreja em diálogo com Deus.

Parece-me que as pessoas sabem perceber se nós estamos verdadeiramente em diálogo com Deus, com elas, e, por assim dizer, atraímos os outros nessa nossa oração comum, atraímos os outros para a comunhão com os filhos de Deus; ou se, ao contrário, fazemos apenas algo de aparente.

O elemento fundamental da verdadeira ars celebrandi é essa consonância, essa concórdia entre o que dizemos com os lábios e o que pensamos com o coração.

O Sursum corda, que é uma antiquíssima palavra da Liturgia, deveria ser já antes do Prefácio, antes da Liturgia, o “caminho” do nosso falar e pensar.

Devemos elevar ao Senhor o nosso coração, não só como uma resposta ritual, mas como expressão de quanto acontece nesse coração que se eleva e, na elevação, atrai também os outros.

Em outras palavras, a ars celebrandi não pretende convidar para uma espécie de teatro, de espetáculo, mas para uma interioridade que se faz sentir e se torna aceitável e evidente para o povo que assiste.

se as pessoas virem que ela não é uma ars aparente, espetacular – não somos atores! – mas sim expressão do caminho do nosso coração, que atrai também o seu coração, é que a Liturgia então torna-se bela, torna-se comunhão de todos os presentes com o Senhor.

Naturalmente, sob esta condição fundamental, expressa nas palavras de São Bento, Mens concordet voci – o coração esteja realmente elevado, elevado para o Senhor – devem associar-se também coisas exteriores.

Devemos aprender a pronunciar bem as palavras. Algumas vezes, quando eu ainda era professor na minha terra, os jovens liam a Sagrada Escritura. E liam-na como se lê o texto de um poeta que não se compreendeu.

Naturalmente, para aprender a pronunciar bem, primeiro é preciso compreender o texto na sua dramaticidade, no seu presente. O mesmo é válido para o Prefácio. E para a Oração Eucarística.

Para os fiéis, é difícil seguir um texto tão longo como o da nossa Oração Eucarística. Por isso, surgem sempre essas novas “invenções”.

Mas com orações eucarísticas sempre novas não se responde ao problema. O problema é que este é um momento que convida também os outros ao silêncio com Deus e a rezar com Deus.

Portanto, só se a Oração Eucarística for bem pronunciada, mesmo com os devidos momentos de silêncio, se for pronunciada com interioridade mas também com a arte de falar, as coisas podem correr melhor.

Isto dá origem a que a recitação da Oração Eucarística exige um momento de atenção particular para ser pronunciada de tal modo que envolva os outros.

Penso que devemos também encontrar ocasiões, quer na catequese, quer nas homilias, quer noutros momentos, para explicar bem ao povo de Deus esta Oração Eucarística.

Isso, para que ele possa acompanhar os seus grandes momentos: a narração e as palavras da instituição, a oração pelos vivos e pelos mortos, o agradecimento ao Senhor, a epiclese, para envolver realmente a comunidade nessa oração.

Portanto, as palavras devem ser bem pronunciadas. Depois deve haver uma preparação adequada. Os meninos de coro devem saber o que fazer, os leitores devem saber realmente como pronunciar. E o coro, o canto, sejam preparados; o altar seja bem ornamentado.

Tudo isso faz parte – mesmo tratando-se de muitas coisas práticas – da ars celebrandi. Mas, para concluir, o elemento fundamental é essa arte de entrar em comunhão com o Senhor, que nós preparamos com toda a nossa vida de sacerdotes.

 

Excertos do Encontro com os sacerdotes da Diocese de Albano.