“Calai-vos, calai-vos!”, dizia São Paulo da Cruz ao tocar com a extremidade do seu bastão nas flores que ia encontrando pelos caminhos, pois elas tanto lhe “falavam” de Deus e de suas maravilhas que ele, tomado por forte emoção, pedia-lhes que se “calassem”.
Em outra ocasião, deixando a estrada que percorria, entrou numa trilha que o levaria ao convento onde falecera o grande São Tomás de Aquino; subitamente se pôs a dizer ao seu acompanhante: “Oh! não ouves essas árvores e folhas clamarem: amai a Deus! Amai a Deus!”
É muito próprio dos santos e das almas inocentes ouvir a natureza falar de Deus, pois vivem numa “clave” onde percebem com extrema facilidade o alto valor simbólico que o Criador colocou em toda a sua obra.
Nosso Senhor mesmo nos ensinou, nas suas maravilhosas parábolas, a considerar o simbolismo da criação, para mais facilmente chegarmos a Ele.
Quem não se recorda do Evangelho ao olhar os lírios do campo? Não estão eles sempre a nos admoestar: “homens de pouca fé, não vos preocupeis com o que haveis de vestir; não fiamos, nem tecemos, no entanto nem Salomão em sua glória jamais se vestiu como um de nós”.
O Eclesiástico, na sua magnífica linguagem simbólica, assim nos exorta às boas obras: “desabrochai como uma roseira plantada à beira das águas […] dai flores como o lírio, exalai perfume e estendei uma graciosa folhagem” (Eclo 39, 17-19).
O mesmo livro, para exaltar Josias, um dos poucos reis de Judá fiéis a Deus, poeticamente assim nos fala: “a memória de Josias é como uma composição de aromas preparada pelo perfumista.
Em toda a boca, sua lembrança é doce como o mel e como uma melodia num festim regado de vinho” (Eclo 49, 1-2).
Isaías, para cantar a felicidade dos tempos messiânicos, recorre também ao simbolismo das flores: “o deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai alegrar-se e florir, como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria” (Is 35, 1-2).
Mas não só as flores nos falam de Deus; o universo inteiro está continuamente a nos pedir que o compreendamos, que o ouçamos, que o leiamos, que o sintamos e o percebamos com nossa inteligência e com nossos sentidos, pois ele está sempre a cantar que Deus existe, que Deus nos ama, que Deus é a verdade, é a bondade, é a beleza.
Falta para a humanidade um curso de alfabetização do qual ninguém fala e que não é dado em nenhuma escola: aprender a ler nesse imenso livro que é o Universo, impresso pelo próprio Deus para que O conhecêssemos e O amássemos.
Capítulo por capítulo, linha por linha, palavra por palavra, letra por letra, esse livro foi composto por Ele, usando como tinta o infinito amor com o qual Ele nos quer.
Não foi apenas a Si mesmo que Deus quis simbolizar na obra da criação. No seu imenso amor Àquela que é por Ele a mais amada de todas as suas criaturas, Deus quis também representá-La na sua obra.
O Pequeno Ofício da Imaculada Conceição assim canta a glória de Maria: “Ele próprio a criou no Espírito Santo. E a representou maravilhosamente em todas as suas obras”.
Que o Divino Artista, na sua imensa misericórdia, envie-nos a sua graça para nos dar inteligência para entender, vontade para querer ver, sentidos para perceber a sua presença e a de sua Santíssima Mãe em toda a esplêndida ordem do Universo no qual vivemos e do qual fazemos parte, para melhor amá-Los, servi-Los e glorificá-Los, preparando-nos assim para a contemplação das maravilhas celestes e a visão sem fim de Deus face a face.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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