A pergunta acima surpreendeu e… deixou embaraçado um amigo meu, homem, entretanto, de vasta cultura. Acontece que nem sempre é fácil dar resposta adequada a uma questão levantada assim, à queima-roupa, por uma criança!
Esta, em concreto, presta-se a elevadas cogitações.
Realmente, parece ilógica a atitude de olhar para o alto ao dirigir-se a um Ser onipresente. Alguns lugares, porém, nos fazem lembrar de Deus mais facilmente do que outros.
Por exemplo, Ele é o Criador da noite e das trevas. Ambas têm seu papel na ordem do universo, inclusive em benefício do homem, para que este possa melhor dormir e refazer suas forças. Mas a ninguém ocorre invocá-Lo como o “Senhor da Escuridão”.
Tal título melhor caberia ao demônio, embora este de nada seja dono. E a ninguém ocorreria rezar ao Criador do universo dizendo: “Ó Vós que habitais os pântanos e abismos…” Uma tal prece soaria como demência.
Em sentido contrário, apraz aos ouvidos, e sobretudo ao coração, ouvir o Rei Salmista cantar: “Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna?” (Sl 67, 17).
Ou então: “O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas” (Sl 75, 5).
Como explicar esse sentimento de repulsa, num caso, e de agrado, no outro?
As montanhas, elevando-se muito acima da planície onde se desenrolam os afazeres rotineiros dos homens, apontam incessantemente para o céu, parecendo fazer a todos uma salutar advertência: “Tendo embora os pés no chão, deveis ter a mente e o coração voltados para aquilo que é sobrenatural, para as verdades eternas”.
Pensando nisso, entendemos melhor a razão pela qual o próprio Cristo Jesus costumava subir aos cumes para orar ou para assinalar algumas de suas ações.
Assim, é do Monte das Oliveiras que reboa em todos os séculos a pungente súplica: “Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice!” (Mt 26, 39).
E quando viu chegada a hora de, entre seus discípulos, escolher os doze Apóstolos, Ele “subiu ao monte e chamou os que quis” (Mc 3, 13). Para fazer refulgir aos olhos de Pedro, Tiago e João o brilho de sua divindade, o Mestre “conduziu-os a uma alta montanha” (Mt 17, 1), o Tabor, lugar da Transfiguração.
Também Deus Pai, para Se revelar a Moisés pela primeira vez, o fez subir “a montanha de Deus, Horeb” (Ex 3, 1), onde lhe apareceu na sarça ardente.
Muito mais grandiosa foi a manifestação de seu poder quando convocou Moisés ao alto do Monte Sinai para lhe entregar as Tábuas da Lei:
O Senhor disse a Moisés: “Sobe para Mim no monte. Ficarás ali para que Eu te dê as tábuas de pedra” […] Moisés subiu ao monte. A nuvem cobriu o monte e a glória do Senhor repousou sobre o Monte Sinai, que ficou envolvido na nuvem durante seis dias (Ex 24, 12.16).
E assim, são muito numerosas as passagens das Escrituras onde a figura de Deus é associada a tudo quanto é alto e elevado. O mesmo se vê nas obras dos Padres da Igreja, dos doutores e dos teólogos.
Por outro lado, em muitas passagens das Escrituras se vê que o abismo é o local próprio a Satanás.1 E referindo-se a ele, o Divino Redentor não o vê “subir”, mas, muito pelo contrário: “Eu mesmo vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10, 18).
Portanto, é natural que o homem eleve os olhos, a mente e o coração, quando vai se dirigir a Deus.
E a Santa Igreja bem reconhece essa necessidade, pois determina que, na Missa, o celebrante a isso conclame os fiéis por meio da consagrada frase: “Corações ao alto”, ao que todos respondem: “O nosso coração está em Deus”.