Arautos do Evangelho: Que conclusões se podem tirar, dessa canonização, para o futuro da Igreja? 

Pe. Luís Kondor: A conclusão mais importante talvez seja o que foi dito pelo Concílio Vaticano II: “Todos os batizados são chamados à santidade”. Sem exceção. Até mesmo as crianças. 

AE: Três rústicos pastorzinhos escolhidos para transmitir ao mundo uma mensagem…

Pe. LK: As aparições do Anjo e de Nossa Senhora a estas crianças têm detalhes desconhecidos para muita gente.

Por exemplo, dizem os livros que Lúcia via, ouvia e falava com Nossa Senhora; Jacinta via e ouvia, mas não falava, e Francisco só via. Contudo, não é bem assim.

Francisco também ouviu o que o Anjo e Nossa Senhora disseram, mas não entendeu o significado daquelas palavras. O mesmo aconteceu, por vezes, à Jacinta. Narro, a este propósito, dois casos pitorescos.

Nossa Senhora disse que a Rússia espalharia os seus erros pelo mundo inteiro. Segundo contou recentemente a Irmã Lúcia em minha presença, um dia o Francisco, com a sua “grande sabedoria”, veio dizer-lhe: “Ó Lúcia, já sei o que quer dizer Rússia. É que o tio Joaquim tem uma mula chamada Russa…”

Jacinta, conversando mais tarde com um sacerdote em Lisboa, disse: “Padre, o mal que leva as pessoas ao inferno é o pecado da carne. Então, acho que toda a minha família vai para o Céu. Nós quase nunca comemos carne, só peixe!” 

AE: Isto pode dificultar aos católicos acreditarem na Mensagem de Fátima?

Pe. LK: Pelo contrário. Sem terem percebido grandes verdades, estas crianças transmitiram-nos algo muito profundo. Segundo os professores da Universidade Gregoriana, esta é a maior prova da sobrenaturalidade de toda a mensagem de Nossa Senhora e do Anjo.

Um professor de teologia de Santarém, grande divulgador das aparições de Lourdes, declarou-se decidido a denunciar “a grande impostura” de Fátima. Foi conversar com os três pequenos videntes e, diante de tanta sinceridade, converteu-se. 

AE: Por que um só processo de canonização para os dois? 

Pe. LK: No início, demos entrada em dois processos de beatificação separados. Foi escrito um livro para cada um. A Santa Sé exigia um milagre para cada um. No entanto, os dois ficaram tão ligados na sua missão, que hoje a gente os considera como se fossem um só. Pois ninguém pode falar na Jacinta sem pensar no Francisco, e vice-versa. 

AE: Quando se reza a um, reza-se aos dois…

Pe. LK: Há três anos e meio, esteve aqui em Fátima um casal de portugueses residentes na Suíça, para pedir a cura do filho que havia nascido com diabetes e ainda não tinha um ano de idade.

A aldeia inteira pediu pelo menino, rezando ora à Jacinta, ora ao Francisco. Não havia diferença. Ao pedir o milagre, faziam-no através dos dois. O menino foi curado no dia 13 de Maio de 2000, dia da beatificação dos pastorzinhos.

Agora é necessário comprovar o milagre. O médico pediatra declara que a cura não tem explicação. Toda a documentação já foi entregue na Congregação para a Causa dos Santos, em Roma.

AE: Há muitos casos como este?

Pe. LK: No final de dezembro de 2003, o mesmo casal voltou a Fátima, junto com a equipe de uma TV alemã, para fazer uma reportagem sobre esse milagre.

Curiosamente, entrou em seguida uma médica de Torres Novas, vinda de Peniche, para contar um milagre ocorrido com a sua sobrinha de 8 anos, obtido também por intercessão de Francisco e Jacinta. Mas isto é diá­rio, são pelo menos cinco casos de milagres por dia. 

AE: Sinal de grande fama de santidade!

Pe. LK: Registramos, desde 1º de janeiro até 31 de dezembro de 1989, todas as cartas que narravam graças recebidas. Tivemos, num ano, mil casos, em todo o mundo. Em Roma, ficaram impressionados, pois isso nunca tinha acontecido.

Aqui se vê que o mais importante não é o milagre, mas sim a fama de santidade atingível na Igreja.

Por exemplo, foi escrito aos bispos do mundo inteiro e 300 responderam que em sua diocese há pessoas com devoção aos pastorinhos.

Mas todas estas comunicações de graças não são mais necessárias. Para a canonização, basta apenas mais um milagre. O Papa aceitou que um só será suficiente para canonizar os dois.

AE: Qual a virtude principal de cada um deles?

Pe. LK: Cada qual tem o seu carisma. Jacinta foi uma menina que se dedicou à oração e teve uma caridade muito grande, com uma vida de sacrifícios para salvar os pecadores, para evitar que as almas caiam no inferno. Por exemplo, ela sofreu pelo Santo Padre explicitamente, e os outros não. 

Francisco não queria sequer pensar no inferno, muito menos nos demônios. Certa vez, quando estava em meditação, pois era um autêntico místico, viu-se lutando contra o diabo.Ele pôs-se a rezar e pensou na tristeza que o pecado provoca em Deus, Nosso Senhor.

Ele, por exemplo, sentia a realidade do pecado com uma profundidade inteiramente mística. Em momentos de contemplação, costumava falar com Jesus. Por aí se vê a grandeza da alma de Francisco.

Quanto a Lúcia, Nossa Senhora disse: “Eu venho buscar o Francisco e a Jacinta primeiro. Tu ficarás mais tempo para difundir a devoção ao Imaculado Coração de Maria”. Mas, ela nunca imaginaria chegar aos 96 anos… 

AE: O que devemos esperar com a canonização dos pastorzinhos?

PLK: Essa canonização será um convite a todos para assimilarem o que eles fizeram durante toda a sua vida, tanto interior como exteriormente, para se tornarem autênticos santos, amando Jesus, Nossa Senhora e a Santa Eucaristia.

O Papa quer que a luz dos pastorzinhos brilhe nas famílias novamente unidas e que aprendamos a rezar como eles. Os três pastorzinhos tinham o costume, por exemplo, de acordar vá­rias vezes durante a noite para rezar a oração ensinada pelo Anjo.

AE: Pode demorar muito ainda a canonização?

Quando em 1935 trouxeram o caixão de Jacinta, a Irmã Lúcia afirmou estar convencida de que Deus lhe concederia a auréola da santidade, pois foi ela quem recebeu as maiores graças e correspondeu com heroísmo, tanto no espírito de oração, como de sacrifício, pela conversão dos pecadores.

Estas palavras da Irmã Lúcia estão próximas de se realizarem. Em muitos lugares – como em Alverca, na região metropolitana de Lisboa mesmo, ou em Varsóvia, na Polônia, entre outros – estão sendo edificadas igrejas em honra dos pastorzinhos.

Esperemos que, à luz desta canonização, sejam cada vez mais atendidos os pedidos feitos por Nossa Senhora em Fátima, para chegar finalmente o dia bendito de seu triunfo sobre os corações e o mundo.