Bastariam estas sábias palavras do novo Papa para mostrar o acerto dos Cardeais que o elegeram para Supremo Pastor do rebanho de Cristo.

Como se comentou naqueles breves dias em que a Cátedra de Pedro permaneceu sem ocupante, os Cardeais ficaram impressionados pelo modo de o então Cardeal Ratzinger conduzir os assuntos eclesiásticos.

E o Sacro Colégio soube ser rápido e vigilante, não deixando o timão da barca de Pedro sem piloto. Ainda ressoavam pelo orbe terrestre as palavras “morreu o Papa”, quando passamos a ouvir os ecos da proclamação Habemus Papam!

No amor a Cristo está a força do Papa

A atitude do então Cardeal Ratzinger durante a Missa dos funerais de João Paulo II, no dia 8 de abril, causou uma primeira impressão favorável não só entre os Cardeais, mas também entre todos aqueles que o viram, ou presentes na Praça de São Pedro, ou colados às telas de televisão em todos os recantos da terra.

Vislumbrava-se uma certa aura em torno dele, como vários comentaristas assinalaram na ocasião. Talvez fosse já um sopro do Espírito Santo para mostrar ao mundo quem seria o próximo Papa.

Especialmente notadas foram as palavras de sua homilia, na qual, referindo-se ao chamado de Cristo a João Paulo II, mostrou como, para ele, no cerne do Papado está uma renúncia radical e um amor sem limites a Cristo, cabeça da Igreja:

“Segue-me!” Em outubro de 1978, o Cardeal Wojtyla ouviu de novo a voz do Senhor. Renova-se o diálogo com Pedro, narrado no Evangelho desta celebração: “Simão, Filho de João, tu Me amas? Apascenta as minhas ovelhas!”

À pergunta do Senhor: “Karol, tu Me amas?”, o Arcebispo de Cracóvia respondeu do fundo do seu coração: “Senhor, tu sabes tudo, sabes que te amo”.

O amor de Cristo foi a força dominante do nosso amado Santo Padre; quem o viu rezar, quem o ouviu pregar, bem o sabe.

E assim, graças a este profundo enraizamento em Cristo, pôde carregar um peso que vai além das forças meramente humanas: ser pastor do rebanho de Cristo, da sua Igreja universal.

Devemos ter uma fé adulta

Entretanto, segundo grande parte dos analistas, o que parece ter decidido a eleição de Bento XVI foi sua homilia na Missa do dia 18, na abertura do Conclave, quando ele tratou com coragem e discernimento dos males que a Igreja tem de enfrentar em nosso tempo.

Comentando a carta de São Paulo aos Efésios, o então Cardeal Ratzinger afirmou ver “a maturação da Fé e o conhecimento do Filho de Deus como condição e conteúdo da unidade no Corpo de Cristo”.

No que consiste essa maturação da Fé? Que jornada devemos encetar em direção à “maturidade de Cristo?” Devemos ser adultos na Fé, foi a resposta do futuro Papa.

Não podemos permanecer menores de idade, tendo uma fé apenas infantil. E no que consiste ter uma fé infantil? – perguntou ele.

E, tomando as palavras de São Paulo, respondeu que ter uma fé infantil significa “ser batidos pelas ondas e levados por qualquer vento de doutrina” (Ef 4, 14).

“Uma descrição muito atual!” – exclamou Joseph Ratzinger.

Continuando sua penetrante e ponderada análise do grande problema de nossos dias, ele afirmou sem rodeios:

Quantos ventos de doutrina conhecemos nas últimas décadas, quantas correntes ideológicas, quantos caminhos de pensamento!

O pequeno barco do pensamento de muitos cristãos tem sido com frequência – batido por essas ondas – jogado de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, e até à libertinagem; do coletivismo ao radical individualismo; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e assim por diante.

A cada dia surgem novas seitas, e o que São Paulo diz sobre o engano humano e a astúcia que procura seduzir o povo para o erro (cf. Ef 4, 14) torna-se realidade.

Ditadura do relativismo

Indo ainda mais a fundo no seu diagnóstico sobre os males de nosso tempo, Joseph Ratzinger apontou, quiçá, o supremo embuste do mundo presente:

Hoje em dia, ter uma fé baseada no Credo da Igreja é frequentemente rotulado de fundamentalismo, ao passo que o relativismo, quer dizer, deixar-se levar para cá e para lá, e levar-se por qualquer vento de doutrina, parece ser a única atitude à altura dos tempos modernos.

E o futuro Papa denunciou então o grande perigo para a Igreja: “Estamos construindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e cujo último objetivo consiste unicamente no próprio ego e nos próprios desejos”.

No fim de sua homilia, podia ele afirmar sem hesitação, e sem receio de ser contestado:

Uma fé adulta não é uma fé que segue as tendências da moda e a última novidade; uma fé madura está profundamente enraizada na amizade com Cristo.

Esta amizade é que nos abre para tudo o que é bom e nos dá um critério pelo qual podemos distinguir entre o verdadeiro e o falso, entre o engano e a verdade.

Um só rebanho e um só Pastor

Na primeira mensagem após sua eleição, ao fim da Missa do dia 20, na Capela Sistina, o Santo Padre Bento XVI mostrou como, desde que ficou público o súbito agravamento da saúde de João Paulo II, vivemos “um tempo extraordinário de graça”.

Isso podia-se observar na “onda de fé, de amor e de espiritual solidariedade, que teve o ponto mais alto nas suas solenes exéquias”.

O novo Papa constatava, assim, essa alvissareira novidade que assinalamos em nosso Editorial: graças excepcionais derramadas em abundância sobre o mundo. E ele continuava a falar desse fenômeno, dizendo:

Os funerais de João Paulo II foram uma experiência verdadeiramente extraordinária na qual se sentiu de certa forma o poder de Deus que, através da sua Igreja, deseja formar, de todos os povos, uma grande família, mediante a força unificadora da Verdade e do Amor.

Expressando-se desse modo, Bento XVI estava indicando uma das tarefas que considera prioritárias para seu pontificado: conseguir refazer aquela união entre os cristãos que existiu um dia, trazendo para o rebanho da Igreja de Cristo todas as ovelhas que dela devem fazer parte. 

Retomou ele o tema na homilia do dia 24, quando comentou o simbolismo do pallium, feito de lã de cordeiro. Lembrou a parábola da ovelha desgarrada, socorrida pela solicitude do pastor, que vai ao seu encalço mesmo à custa de muito sofrimento.

Bento XVI exprimiu seu desejo de seguir nas vias do Bom Pastor, pedindo-nos:

Rezem por mim, para que eu possa aprender a amar cada vez mais o Senhor. Rezem por mim, para que eu aprenda a amar esse rebanho cada vez mais, em outras palavras, vós, a Santa Igreja, cada um de vós e todos vós juntos. Rezem por mim para que eu não fuja de medo dos lobos.

Em seguida traçou em poucas palavras, com clareza, o programa de um ecumenismo autêntico e bem definido para seu pontificado, ao repetir com Jesus: “Tenho outras ovelhas que não são deste rebanho; devo também trazê-las, e elas ouvirão a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).

Fazer resplandecer aos olhos do mundo a luz de Cristo

Muito comovido, na homilia da Missa de 20 de abril, Bento XVI referiu-se àquele episódio no qual Jesus constituiu o Papado:

Nestas horas penso de novo em tudo o que aconteceu na região de Cesaria de Filipe, há dois mil anos. Parece que ouço as palavras de Pedro: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo, e a solene afirmação do Senhor: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja […] dar-te-ei as chaves do Reino do Céu.

Podemos medir o que ia na alma do Santo Padre, percorrendo suas vibrantes palavras na mesma homilia:

Tu és o Cristo! Tu és Pedro! Parece-me reviver a mesma cena evangélica; eu, Sucessor de Pedro, repito com estremecimento as palavras vibrantes do pescador da Galileia e ouço novamente com íntima emoção a promessa tranquilizante do divino Mestre.

Se é enorme o peso da responsabilidade que recai sobre os meus pobres ombros, é certamente desmedido o poder divino com o qual posso contar.

E o Santo Padre, numa demonstração de inteira e serena consciência de sua missão universal, sabendo que os olhos de bilhões de pessoas no mundo inteiro se voltam agora para ele, expressou-se sem ambiguidade:

O Senhor quis-me para seu Vigário, quis-me pedra sobre a qual todos possam apoiar-se com segurança. Peço-Lhe que auxilie a pobreza das minhas forças, para que eu seja corajoso e fiel Pastor do seu rebanho, sempre dócil às inspirações do seu Espírito.

O Papa Bento XVI tinha ainda frescas na memória as imagens daquela imponente manifestação quando da morte e dos funerais de João Paulo II, e recordou como

em volta dos seus despojos mortais, colocados na terra nua, reuniram-se os Chefes das Nações, pessoas de todas as camadas sociais, e sobretudo jovens, num inesquecível abraço de afeto e de admiração.

E sua conclusão – da qual todo católico participa de alma inteira –, em termos densos de esperança e de certeza na força da Santa Igreja Católica, foi expressa do seguinte modo:

Pareceu a muitos que aquela intensa participação, amplificada até os confins do planeta pelos meios de comunicação social, fosse como um pedido de ajuda dirigido ao Papa pela humanidade de hoje que, perturbada por incertezas e temores, se interroga sobre o seu futuro.

E eis que vemos o Santo Padre, como o Bom Pastor, disposto a sacrificar-se e a ajudar todas as suas ovelhas, desgarradas ou fiéis, de modo a que possam atravessar as borrascas que marcam o início do terceiro milênio.

Ciente do que o mundo inteiro espera dele, e, mais do que tudo, do que Cristo espera dele, Bento XVI, na mesma Missa do dia 20, condensou em poucas linhas o cerne de seu programa:

A Igreja de hoje deve reavivar em si mesma a consciência da tarefa de repropor ao mundo a voz d’Aquele que disse: Eu sou a luz do mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.

Ao empreender o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua tarefa é fazer resplandecer aos olhos dos homens e das mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua própria, mas a verdadeira luz de Cristo.

Rezem por mim, para que eu possa aprender a amar cada vez mais o Senhor. Rezem por mim, para que eu aprenda a amar esse rebanho cada vez mais”.

 

Homilia da Santa Missa pelo início do Ministério, 24/04/2005.