Proveniente da Região do Vêneto, Frei Gatti está a serviço direto do Santo Padre, tendo a missão particular de atender no confessionário os peregrinos “pro Gallica Natione”, isto é, os provenientes de países francófonos.
No verão de cada ano, ele viaja a Paris, onde é também confessor e pregador na Basílica do Sagrado Coração de Montmartre.
Arautos do Evangelho: O que é a Penitenciaria Apostólica?
Frei Liberale Gatti: É um tribunal apostólico que tem competência no foro interno, isto é, sobre tudo quanto diz respeito à consciência dos fiéis, seja para a absolvição de certos pecados reservados à Santa Sé, seja para dispensas também a ela reservadas.
A Penitenciaria Apostólica se ocupa também da concessão das indulgências. Recentemente, por exemplo, foi concedida uma indulgência especial para o Ano da Eucaristia.
O responsável pela Penitenciaria Apostólica é um Cardeal, chamado de Penitenciário Maior, nomeado pelo Papa. Nós, confessores, somos “penitenciários menores”.
AE: Por que esse título de “penitenciários apostólicos”?
Frei Gatti: O nome penitenciário deriva do ministério a nós confiado, o de ministrar o Sacramento da Penitência ou da Reconciliação (também chamado da Confissão), ou seja, com sabedoria e caridade acolhedora, fazer as almas pecadoras se encontrarem com a misericórdia de Deus e com sua Palavra.
O Sacramento da Penitência é destinado a apagar os pecados pessoais cometidos depois do Batismo, antes de tudo os mortais, e também os veniais.
São penitenciários “apostólicos” porque são nomeados pelo Papa e estão diretamente a serviço da Santa Sé. Podem atender Confissão em qualquer parte do mundo.
AE: Como um sacerdote se torna penitenciário apostólico?
Frei Gatti: Os sacerdotes penitenciários são escolhidos pelo Superior Geral de sua respectiva Ordem religiosa entre os membros que têm uma certa experiência de atender confissões em igrejas importantes.
E que também possuem uma doutrina moral e canônica adequada pelo menos ao comportamento humano nos casos comuns, unida à prudência pastoral e à humildade.
O Superior Geral apresenta o candidato à Penitenciaria Apostólica, que o submete a um exame de teologia moral e de direito, perante uma comissão composta pelo Cardeal, o Regente, um teólogo e um canonista.
Uma vez aprovado, o novo penitenciário faz um juramento nas mãos do Cardeal Penitenciário, de confessar sempre segundo a doutrina do magistério ordinário e extraordinário da Igreja.
Cada penitenciário deve conhecer pelo menos duas línguas. Na Basílica de São Pedro confessa-se em italiano, francês, alemão, espanhol, português, inglês, húngaro, maltês, croata, esloveno, russo, polonês, ucraniano, e também em chinês!
AE: O que é o “Colégio” dos Penitenciários?
Frei Gatti: O “Colégio” é um grupo de penitenciários menores incumbidos das Confissões em uma das quatro basílicas patriarcais romanas, e que vivem em comunidade sob a direção de um superior ou reitor.
O Papa São Pio V estabeleceu, entre 1568 e 1569, três colégios: o Colégio Vaticano, para a Basílica de São Pedro, confiado aos jesuítas; o Colégio Lateranense, para a Basílica de São João, confiado aos franciscanos (Frades Menores); e o Colégio Liberiano, para a de Santa Maria Maior, confiado aos dominicanos.
O Papa Clemente XIV, pelo breve Miserator Dominus, de 10 agosto de 1774, colocou em São Pedro, no lugar dos jesuítas, os franciscanos conventuais. Em 1933 o Papa Pio XI instituiu o Colégio Ostiense, para São Paulo Extramuros, confiando-o aos beneditinos.
AE: O senhor falou de “pecados reservados”. Do que se trata?
Frei Gatti: Trata-se de alguns pecados gravíssimos que, infelizmente, ofendem gravemente a Deus e à Igreja.
Por exemplo, quem profana a Eucaristia, levando hóstias consagradas para jogar em lugares imundos, ou para usar em atos sacrílegos, como a celebração de “missa negra”. Ou então quem comete um ato de violência física contra a pessoa do Papa.
Aos pecados reservados é aplicada uma excomunhão cuja absolvição é reservada ao Papa.
O penitenciário que recebe a confissão de tais pecados não pode absolvê-los, mas deve escrever, mantendo em segredo o nome do pecador, ao Cardeal Penitenciário, e esperar a resposta e a indicação da penitência a cumprir como expiação.
Existem graus nas “reservas”. Por exemplo, a excomunhão aplicada a quem provoca um aborto, ou a quem fraudulentamente grava ou divulga nos meios de comunicação social aquilo que foi dito durante uma Confissão. O penitenciário menor tem a faculdade de absolver dessas excomunhões.
AE: Então, para obter essa absolvição, é preciso vir a Roma…
Frei Gatti: A Igreja é mãe, e não pode se esquecer de seus filhos pecadores que vivem longe: no Congo, no Brasil, na Nova Zelândia…
Assim, em cada Igreja Catedral pode-se encontrar o confessionário do “Cônego Penitenciário”, ao qual todo fiel pode dirigir-se sem necessidade de vir pessoalmente a Roma. Caberá ao “Cônego Penitenciário” consultar a Penitenciaria Apostólica, conforme cada caso concreto.
Existem outras possibilidades, sempre tendo em vista o bem das almas, sobretudo se o penitente se encontra em perigo de morte. Mas não interessa entrar aqui em detalhes.
Permito-me, contudo, contar um pequeno caso pessoal. Quando eu era menino, minha paróquia era a Catedral de Treviso. Certo dia eu li, num dos confessionários, esta inscrição: “Cônego Penitenciário”.
Fugi assustado, pensando: “Que padre ruim, que põe um cartaz avisando que dará penitências e castigos! Nunca me confessarei com ele”!
AE: O que procura e o que encontra o peregrino no penitenciário?
Frei Gatti: Procura o homem de Deus que se encontra junto ao túmulo de São Pedro, o lugar onde o primeiro Papa sofreu o martírio e no qual é glorificado.
Muitos penitentes me fazem a confidência emocionada de que vieram confessar-se aqui, para “ver Pedro”. Alguns têm a impressão de confessar-se com o próprio Papa.
Procuram também o homem de Deus ao qual podem, com a liberdade do anonimato, confessar os pecados que não ousariam revelar ao sacerdote da sua própria paróquia.
O peregrino deve encontrar no penitenciário a sabedoria, a doçura e uma inesgotável paciência. Pois toda pessoa – qualquer que seja seu comportamento, mesmo se não pode ser aprovado – deseja ser respeitada e amada.
E devemos recordar o que diz São Paulo: “Irmãos, se alguém for apanhado em alguma falta, cabe a vós, que sois animados pelo Espírito, corrigi-lo com mansidão. E sê vigilante, para não caíres também na mesma culpa” (Gl 6,1).
AE: Portanto, encontra-se também uma grande alegria nesse ministério?
Frei Gatti: Certamente. Existe a alegria de constatar como “o Onipotente faz grandes coisas”.
Sente-se grande alegria quando vêm aqueles que dizem: “Eu pensei, e pensei bem. Vejo que escolhi o caminho errado e estou transviado. Decidi firmemente mudar de vida a partir de hoje, aconteça o que acontecer”.
Ou então quando vem um penitente que diz:
Entrei na Basílica com meu grupo de turistas, sem a intenção de me confessar, porque não o faço há muitos anos. Vi, porém, os confessionários, vi as pessoas que se confessavam. Uma voz interior me convidava: por que você não vai também? E assim eu me decidi. O que pode haver de mais belo do que eu ser um desses penitentes que recuperam a paz com Deus e consigo mesmos?
Outros vêm à Confissão atraídos pela beleza da arte, da arquitetura, da liturgia, dos cantos da Capela Sistina.
A percepção da beleza se converte em admiração e desejo do bem, já que Deus age também através das características comuns a todos os homens: a aspiração ao Belo, ao Bom e ao Verdadeiro. A admiração da beleza pode restaurar no homem a vida moral.
Nesses momentos eu me sinto exatamente como disse de si mesmo, no primeiro dia de seu pontificado, nosso Papa Bento XVI: um humilde trabalhador na vinha do Senhor.
Aqui está, evidentemente, a obra do Espírito Santo. Afinal, o que fiz eu para atrair essas almas? O Paráclito já havia feito tudo.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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