“Se a família não se sustém, a humanidade se desfaz”
Entre os eventos promovidos durante o 5º Encontro Mundial das Famílias, em Valência, Espanha, ocupou lugar de especial relevo o Congresso Teológico-Pastoral, por sua importância no campo doutrinário.
Cerca de 9 mil participantes, provenientes de todo o mundo, assistiram a uma série de brilhantes e profundas conferências, nas quais teólogos de alto nível deixaram claro o valor da instituição familiar, enquanto fundamento da sociedade, pilar básico da civilização e ambiente eficaz para a transmissão da Fé.
Além de ser focalizada segundo a doutrina perene da Igreja, a família foi analisada através de múltiplos prismas (pastoral, sociológico, psicológico, biológico, etc.), promovendo-se ainda debates sobre temas conexos tais como o aborto, a eutanásia e a genética.
Obteve-se, desse modo, uma visão abrangente das ameaças que rondam essa instituição no momento presente, e suas perspectivas de defesa.
As leis contrárias à família são injustas
O Cardeal William Joseph Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e um dos mais conceituados teólogos presentes ao Congresso, discorreu sobre um elevado aspecto da questão.
Ele explicou que “o autor do Matrimônio é o próprio Deus, porque a vocação ao Matrimônio se inscreve na natureza mesma do homem e da mulher”.
Usou de palavras claras e irretorquíveis para definir a situação da família no mundo atual: Ela é a “unidade fundamental da estrutura da sociedade, e, portanto, anterior a qualquer reconhecimento por parte da autoridade pública e impõe-se a esta”.
Referindo-se às leis que atentam contra essa instituição básica da sociedade humana, afirmou que o católico
tem obrigação, em consciência, de não seguir as prescrições das autoridades civis quando são contrárias às exigências da ordem moral, aos direitos fundamentais das pessoas ou às exigências do Evangelho.
Explicou que as leis humanas e as decisões judiciais que não a respeitam são contrárias à Lei de Deus e, portanto, “devem ser consideradas injustas”.
As palavras do Cardeal Levada foram acolhidas com fortes aplausos e muito comentadas em entrevistas coletivas à imprensa e nos diversos círculos de conversa à margem do Congresso.
O ambiente familiar e a transmissão da Fé
Não menos interessante foi a lúcida exposição do Cardeal Antonio Cañizares, Arcebispo de Toledo e Primaz de Espanha, que abordou o tema A família e a transmissão da Fé.
Após assinalar que a instituição familiar é o sulco primeiro e insubstituível para a transmissão da Fé, na qual aprendemos a ser homens ao mesmo tempo em que aprendemos a ser cristãos, acrescentou:
A experiência pessoal torna patente que, quando falha a família, surgem sérias dificuldades para transmitir e para acolher a Fé; e que, quando essa transmissão não ocorre no âmbito da família nos primeiros passos da vida, é difícil suscitá-la anos mais tarde.
Instituição natural e patrimônio da humanidade
O Cardeal Julián Herranz, Presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos e a maior autoridade em matéria de Direito Canônico, analisou a instituição da família sob o ponto de vista da lei natural e de sua dimensão antropológica:
No fundo, essa dimensão antropológica é a única que pode garantir a tutela da identidade natural e social da família frente ao abuso das ideologias, sobretudo do fundamentalismo relativista. […]
A verdade sobre a família é primariamente uma realidade antropológica, não é um postulado de caráter religioso e muito menos cristão.
A família baseada no Matrimônio ou união de homem e mulher, aberta à procriação e educação dos filhos, tal como a concebia a tradição milenar da cultura greco-romana, é um patrimônio da humanidade, uma instituição natural, verdadeira pilastra da sociedade.
Esclareceu em seguida ser verdade que, tendo Cristo elevado o Matrimônio à condição de Sacramento, a família cristã coopera com Deus, não apenas em gerar a vida natural, mas também em cultivar as sementes da vida divina recebida no Batismo.
“Mas – acrescentou – esta verdade de Fé não altera, pelo contrário, enriquece a verdade de razão sobre a realidade antropológica da família”.
E afirmou ser justo que, não apenas os participantes do Congresso, mas também os juristas, antropólogos, sociólogos e políticos de todas as tendências se façam, e atuem em função dela, a seguinte pergunta: “Qual tema de interesse público pode ser mais importante para o futuro da sociedade do que o tema da família?”
João Paulo II, o Papa da família e da vida
Foi muito aplaudido também o Cardeal de Cracóvia, Stanislaw Dziwisz. Tendo sido durante muito anos secretário de João Paulo II, sua exposição versou sobre o tema João Paulo II, o Papa da família e da vida.
Esclareceu que o pensamento teológico-filosófico desse pranteado Pontífice não teve início com sua ascensão à Cátedra de Pedro, mas amadureceu ao longo de seu serviço pastoral como sacerdote, depois Bispo e, enfim, Papa.
Disse ainda que a chave da ação familiar de João Paulo II era, antes de tudo, a oração: “A oração será a constante principal da Igreja em sua preocupação pela família. Trata-se de rezar pela família, rezar em família e, também, da oração do sacerdote com a família”.
Essa causa é séria, essa causa é nobre
Muitas outras páginas seriam necessárias para dar uma pequena síntese das demais conferências. Todas, sem exceção, foram excelentes.
Por exemplo, o Cardeal-Arcebispo de Bolonha, Dom Carlo Caffarra, fez uma bem documentada advertência a respeito da ofensiva do laicismo contra a família cristã, principalmente em países europeus.
Com igual brilho e profundidade, o Cardeal Raffaele Martino, Presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, discorreu sobre a importância atribuída à família no Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
Por fim, uma palavra sobre o Cardeal Alfonso López Trujillo, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, que cumpriu com perfeição sua tarefa de organizador deste 5º Encontro.
Em declarações à imprensa, afirmou: “Muitas vezes, os cristãos pensam que aquilo que a lei permite é moral. E isso é uma falsidade. Se a lei é injusta, não se dever obedecer a ela”.
Salientou também a necessidade de preparar as famílias para serem uma força de uma batalha nobre e não se tornarem vítimas de imposições que desfazem a realidade e o significado do Matrimônio.
“Tudo quanto se há de fazer parte de uma ideia: a causa é séria, a causa é nobre; se ela não se sustém, a humanidade se desfaz” – concluiu.