Entre os dias primeiro e quatro de março, reuniu-se na sala Bologna do Palácio Apostólico a Assembleia Anual da Pontifícia Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, composta por 51 membros, dos quais 32 Cardeais e 19 Arcebispos e Bispos.
Três foram os principais temas tratados pelo dicastério presidido pelo cardeal Francis Arinze: a arte de celebrar a Eucaristia, a homilia e a formação litúrgica.
A ars celebrandi (a arte de celebrar) foi amplamente tratada numa palestra feita pelo Cardeal Jorge Mario Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires. Coube ao Cardeal Ivan Dias, Arcebispo de Bombaim, o tema da homilia, e ao Cardeal Philippe Barbarin, Arcebispo de Lyon, o da formação litúrgica.
A respeito das conclusões da Assembleia, o Cardeal Francis Arinze declarou à Rádio Vaticano que nas celebrações da Eucaristia não basta observar as normas litúrgicas.
É necessário, sobretudo, realizar uma celebração que “manifeste a fé do sacerdote e dos fiéis, e alimente a fé do povo de maneira que este, saindo da igreja, sinta-se verdadeiramente alimentado e com desejo de retornar no domingo seguinte”.
Cada celebração deve ser feita “com dignidade e disciplina, e especialmente com fé e devoção”, acrescentou o Purpurado.
Quanto à homilia, ressaltou o Cardeal que ela deve ter solidez doutrinária, ser clara e basear-se nos textos das leituras do dia.
Pois “o povo de Deus tem de receber um bom alimento. Para muitos cristãos a homilia é a grande oportunidade semanal para alimentar-se e para formar-se na Fé”, acrescentou.
Além disto, deve ter uma duração justa, de modo a todos poderem ouvi-la com atenção vigilante. “É necessário lembrar que nas igrejas temos fiéis de oitenta anos, mas também de vinte, assim como crianças de sete”, advertiu.
Mensagem do Papa
Da Policlínica Gemelli, onde se encontrava hospitalizado, o Papa João Paulo II enviou ao Cardeal Arinze uma mensagem de aprovação e encorajamento, da qual destacamos os trechos abaixo:
Especializar-se na “arte da oração”
Na presente Sessão – diz Sua Santidade – dirigiu-se um olhar atento sobretudo ao trabalho levado a cabo ao longo dos últimos anos por parte da Congregação, em sintonia com o desígnio pastoral que indiquei a todo o Povo de Deus, convidando-o a especializar-se cada vez mais na “arte da oração”.1
Estou particularmente reconhecido à Congregação por ter seguido de forma imediata as indicações contidas na Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia e na Carta Apostólica Mane nobiscum Domine, preparando primeiro a Instrução Redemptionis sacramentum e, sucessivamente, as Sugestões e propostas para o Ano da Eucaristia.
Também em virtude de tais documentos, formulo votos de que a comunidade cristã cresça no amor pelo Santíssimo Sacramento e seja ajudada a celebrar cada vez mais dignamente o Sacrifício eucarístico, em conformidade com as normas litúrgicas e, sobretudo, com uma autêntica participação interior.
A liturgia, ação realizada pelo próprio Cristo
Nesta perspectiva, reveste-se de grande importância o tema da ars celebrandi, que está na ordem do dia da Sessão Plenária, analisado à luz da visão teológica da liturgia, como põe em evidência a Constituição conciliar Sacrosanctum concilium.
A liturgia é uma ação realizada pelo próprio Cristo, como sumo e eterno Sacerdote da Nova Aliança, envolvendo todo o seu Corpo místico.
Cristo está presente, sobretudo, na Celebração Eucarística, representação viva do Mistério pascal, e a sua ação é participada e compartilhada de maneira apropriada à nossa humanidade, necessitada de palavras, de sinais e de ritos.
A eficácia de tal ação é fruto da obra do Espírito Santo, mas exige também a resposta por parte do homem. A ars celebrandi exprime precisamente a capacidade dos ministros ordenados e de toda a assembleia, reunida para a celebração, de realizar e de viver o sentido de cada um dos atos litúrgicos.
É uma arte que deve unir-se ao compromisso da contemplação e da coerência cristã. Através dos ritos e das orações, é necessário deixar-se alcançar e impregnar intimamente pelo Mistério.
A homilia, preciosa oportunidade formativa
Foi acertadamente reservada uma atenção específica à homilia, apresentada pelo Concílio como uma parte integrante da ação litúrgica, ao serviço da palavra de Deus.
Ela tem uma fisionomia diferente da catequese ordinária e compromete quem a pronuncia, numa dupla responsabilidade: em relação à Palavra e à Assembleia.
A homilia há de favorecer o encontro, o mais íntimo e profícuo possível, entre Deus que fala e a comunidade que ouve. É importante que ela não falte sobretudo na Eucaristia dominical.
No contexto da nova evangelização, a homilia constitui uma oportunidade formativa preciosa e, para muitos, única.
Formação litúrgica de clérigos e leigos
Outro tema ao qual a Sessão Plenária dedicou a sua atenção foi o da formação litúrgica, que é uma componente fundamental da preparação dos futuros presbíteros e dos diáconos, dos ministros e dos religiosos, e também uma dimensão permanente da catequese para todos os fiéis.
É urgente que nas comunidades paroquiais, nas associações e nos movimentos eclesiais sejam garantidos itinerários de formação adequados, para que a liturgia seja melhor conhecida na riqueza da sua linguagem e vivida plenamente.
Na medida em que isto se fizer, experimentar-se-ão os seus efeitos benéficos na vida pessoal e comunitária.
Passar da renovação ao aprofundamento
Por conseguinte, encorajo a vossa Congregação a perseverar, em colaboração cordial e confiante com as Conferências Episcopais e os Bispos individualmente, no compromisso em favor da promoção da liturgia.
A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II deu grandes frutos, mas é necessário passar “da renovação ao aprofundamento”,2 para que a liturgia possa influir cada vez mais na vida dos indivíduos e das comunidades, tornando-se fonte de santidade, de comunhão e de impulso missionário.
É grande a tarefa confiada à Congregação presidida por Vossa Eminência. A ação do Espírito Santo e a assistência materna de Maria tornem fecundos todos os vossos esforços.