Arautos do Evangelho: Em seu retorno de Roma, V. Excia. comentou que lhe impressionava a conjugação de valentia e humildade na pessoa do Papa Bento XVI. Poderia aprofundar este comentário?
Às vezes, se faz uma ideia equivocada, imaginando que valentia e humildade são coisas díspares e em contraposição. Pensa-se que o humilde é antes de tudo o tímido, o “bobo da classe”.
Forma-se, assim, um conceito de humildade muito depreciativo dessa virtude. Julga-se que o covarde está mais próximo de ser humilde e isso não é verdade. É o contrário.
No fundo, o homem é covarde por ser soberbo, estar demasiadamente preocupado com seu êxito ou fracasso, se vai ser bem recebido ou não. A soberba e a vaidade o impedem de ser valente.
O homem só é capaz de ser valente quando não se importa com sua imagem pessoal, não procura a si mesmo, não busca o aplauso nem teme a contrariedade, mas se interessa somente pela glória de Deus. Portanto, sua humildade o faz valente.
AE: É sua a expressão: “Hoje em dia, a paz está em perigo por causa das concepções relativistas face àquilo que constitui a verdadeira natureza humana”. Poderia dizer-nos como vê, nessa perspectiva, a situação europeia?
A Europa padece de uma grave enfermidade, de uma espécie de tendência suicida.
Trata-se – como o então Cardeal Ratzinger assinalou acertadamente em determinado momento – de um desprezo por suas raízes, de um complexo de inferioridade diante de qualquer outra cultura, de um suicídio espiritual.
Fala-se muito, hoje em dia, de pluralismo cultural, mas acho que há por detrás disso um menosprezo pela própria cultura, mais do que apreço pela dos outros.
É curioso que alguém se envergonhe de suas raízes e pretenda enriquecer-se com as alheias… Isso se passa muito na Europa.
Fala-se de tolerância quando, no fundo, se alude à indiferença. Apela-se aos direitos da pessoa e ao mesmo tempo se despreza seus deveres para com a natureza humana.
Idealiza-se a liberdade quando todos nós sabemos que a vontade do europeu está escrava das paixões e dos pecados. Idolatra-se a democracia, esquecendo-se de que as eleições podem dar o poder, mas não a razão…
AE: Numa de suas cartas pastorais, diz V. Excia.: “Tudo quanto é autenticamente humano interessa a Deus e, por sua vez, tudo quanto é divino concerne também ao homem”. Viver à margem de Deus desumaniza o homem e o separa de seu fim último. O que devem fazer os jovens no apostolado com os seus congêneres?
Todo apostolado autêntico supõe um testemunho de vida cristã, no qual nós nos conaturalizamos com o sobrenatural e ao mesmo tempo sobrenaturalizamos o natural.
Explico-me melhor: devemos usar com naturalidade a linguagem sobrenatural, sem cair na tentação do laicismo que pretende reduzir o âmbito do sobrenatural a lugares e momentos particulares.
Encantou-me – ao visitar a casa dos Arautos do Evangelho aqui em Palência e estar com os meninos que participam de suas atividades – ver a confiança com a qual, no colóquio diário entre eles, o sobrenatural e o natural se misturam.
Como são capazes de, nos acampamentos, tomar parte nos jogos e logo depois tratar, por exemplo, dos dons do Espírito Santo.
Devemos viver naturalmente o sobrenatural. Não podemos fazer finca-pé em compartimentos estanques. Temos o Senhor e Maria nos lábios, não podia ser de outra forma…
A fé é como o ar que respiramos, algo conatural para os cristãos. É importante nossos congêneres entenderem que Deus não é para nós uma teoria, mas uma parte vital de nossa existência.
Ao mesmo tempo, é importante que sobrenaturalizemos o natural. Não seria correto traçar uma linha divisória entre o profano e o religioso, pois em todas as realidades de nossa vida, mesmo nas mais insignificantes, devemos procurar o vínculo com Deus.
Temos de descobrir virtudes sobrenaturais naquilo que nos pode parecer meramente contingente.
Precisamos sobrenaturalizar o natural e naturalizar o sobrenatural.
AE: Quais são, hoje, os maiores desafios para a evangelização da Europa, sobretudo da Espanha?
Creio que são três: a transmissão da fé às novas gerações, as vocações à vida consagrada e o fortalecimento da família e do matrimônio.
É também o que assinala a última instrução pastoral da Conferência Episcopal Espanhola: “Orientações morais ante a situação atual da Espanha”.
Com respeito à transmissão da fé, claro está que hoje em dia é muito importante para a Igreja Católica trabalhar com empenho num catecumenato vivaz de adultos, capaz de conjugar conteúdos e experiência viva, pois às vezes essas duas coisas são indevidamente apresentadas como sendo contrapostas.
Parece que a catequese, se é apresentada de modo vivo, não tem conteúdos; e se tem conteúdos, é um livro maçudo e sem força vital…
Assim, num e noutro caso, não se transmite a fé! É preciso fazer uma catequese na qual se conjuguem os conteúdos bem estruturados e a capacidade vital de transmiti-los.
O segundo aspecto é a falta de vocações à vida consagrada. Ela é um reflexo da enfermidade espiritual da Europa. A Europa precisa ser evangelizada.
É possível – e isso seria uma grande lição de humildade para muitos de nós – que sejamos evangelizados a partir de fora da Europa. Seria uma lição de humildade muito importante para essa espécie de senso eurocêntrico da existência, que às vezes temos.
Talvez para isso precisemos de uma boa dose de humilhação, que nos faria bem. Far-nos-ia bem compreender que a Igreja Católica nunca foi eurocêntrica, embora alguns assim o pensem.
Ela é universal, e a Europa precisará ser evangelizada por gente vinda de muitos lugares do mundo, aonde levamos anteriormente a fé, e agora deles a receberemos.
Quanto ao tema da família, dizemos que ela é autora da vida e é a que detém o direito à educação.
Nessas três frentes está em jogo a Civilização. Família, vida e educação, nós as resumimos em uma: família. Nesta está o dom de Deus, o qual se nos revela no seio da família, e reivindicamos com toda força o princípio de subsidiariedade.
Fomos nós os pioneiros desse princípio, temos de reivindicá-lo. Temos de lutar por uma concepção em que haja mais sociedade e menos Estado. Isso é priorizar a família como célula básica da sociedade.
Na medida em que houver mais família e mais princípio de subsidiariedade, estaremos recordando continuamente aos potentados e aos poderes do Estado que eles estão “a serviço de”, e não outra coisa.
AE: Qual foi o papel da devoção à Virgem Maria em sua vida?
Vejo-me no lugar do “discípulo amado”, ao pé da Cruz junto a Maria, recebendo o testamento de Jesus: “Mulher, eis o teu filho. José Ignacio, eis a tua Mãe”.
Tenho de reconhecer que Ela cumpriu muito melhor do que eu o encargo dado por seu Filho a nós dois, pois cuidou muito mais de mim.
É impressionante a paciência que a Mãe do Céu teve e tem comigo. Graças a isso, quanto mais penso n’Ela, mais me encho de desejos de renascer para uma vida de santidade.
Sempre considerei a figura da Virgem Maria relacionada com a da mãe terrena. Vi duas vocações e, observando a mãe da terra, foi-me fácil entender o que é a Mãe do Céu.
A pessoa intui, percebe: se nossa mãe terrena é como é, é por ser reflexo da Mãe celeste. Por isso as mães da terra se parecem tanto, porque são reflexo da do Céu. Vejo nisso uma relação muito natural.
Jamais notei conflito algum entre uma espiritualidade cristocêntrica e a devoção a Nossa Senhora. Lembro-me sempre de um episódio de João Paulo II.
Numa de suas viagens, um jornalista lhe perguntou: “Por que Vossa Santidade é tão mariano?” O Papa respondeu: “Sou mariano por motivos cristocêntricos”.
Ajudou-me muito também o conhecimento dos santuários marianos: Lourdes, Fátima, etc. Hoje em dia, os santuários são um desses recursos que a Providência tinha como que guardado para os momentos de crise.
É curioso notar que as épocas de crise das paróquias são épocas de florescimento dos santuários marianos. Parece um sinal de que nos tempos de secularização a própria Virgem Maria, por assim dizer, toma as rédeas da evangelização na Igreja.
AE: Na exortação apostólica pós-sinodal “Ecclesia in Europa”, os novos movimentos são apontados por João Paulo II como um sinal de esperança para o continente europeu…
Lembro-me de haver escrito um artigo a esse respeito, intitulado “O Espírito Santo sopra onde quer”. Isso é uma grande lição para todos nós. O Espírito Santo sopra onde quer e no-lo demonstrou com o tema dos novos movimentos.
Nós podemos fazer planos… e no final Deus abençoa o que quer abençoar. E devemos ser muito humildes para dizer: “Por seus frutos os conhecereis”.
Não sejam os ciúmes, nem os “a priori” pessoais, que venham dizer o que deve funcionar. Não se pode encerrar o Espírito Santo numa jaula e fazê-Lo cantar a melodia que a pessoa deseja.
Em relação ao Espírito Santo, estamos para servi-Lo e não para Ele nos servir. Isso é o importante e a Igreja soube fazê-lo.
João Paulo II e Bento XVI foram ouvintes do Espírito, escutaram o sussurro do Espírito e mostraram-se humildes para descobri-lo e pôr-se a seu serviço. Isso me parece maravilhoso, em face de outras concepções.
Num breve curso para novos Bispos em Roma, Dom John Patrick Foley, Presidente do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, dizia-nos que chamava a atenção da Santa Sé o fato de que às vezes fazemos uma série de organogramas muito bem estruturados…
Por exemplo, uma TV católica com muitos recursos profissionais e humanos acaba encerrando as atividades… Por quê? Porque Deus não abençoou.
E aí está a Televisão da Madre Angélica, uma mulher carismática e com escassos recursos: o que Deus abençoou vai avante e triunfa. Aí está também o caso da Rádio Maria.
O Espírito Santo abençoa o que quer, e quem sou eu para Lhe dizer o que deve abençoar?
Deus abençoa os meios humildes. Às vezes, fazemos planos muito elaborados sem antes nos perguntarmos para onde sopra o Espírito e por isso nos equivocamos.
Devemos sempre nos perguntar para onde sopra o Senhor e não vice-versa. É belo que a vida preceda a estrutura e não o contrário.