Arautos do Evangelho: Como se sente Vossa Excelência diante da responsabilidade de ser o Arcipreste da Basílica de São Pedro?
No dia 31 de outubro de 2006 fui nomeado Arcipreste da Basílica de São Pedro pelo Santo Padre Bento XVI.
O primeiro sentimento que experimentei naquele momento foi de desproporção; tanto é assim que, escrevendo a carta de agradecimento ao Papa, fiz esta confidência:
Santo Padre, agradeço pela confiança, mas sinto-me de todo desproporcionado a esse dever e o aceito simplesmente entregando-me à misericórdia do Senhor e à sua benevolência.
Posso garantir, porém, que porei todo o meu empenho em corresponder – no que eu possa – à sua confiança.
A Basílica de São Pedro é claramente, num certo sentido, a Basílica colocada sobre a colina; tudo quanto aqui acontece está aos olhos do mundo, tem ressonância no mundo. E é evidente, portanto, que quem vive e é chamado a trabalhar aqui tem uma responsabilidade imensa.
Eu procuro não só empenhar-me, mas pedir muitas orações. E sinto-me, digo sinceramente, envolto e protegido pelas orações de muitas pessoas que me acompanham nesse serviço eclesial de grande responsabilidade.
AE: Qual a importância da Basílica de São Pedro?
Sua importância está ligada ao que aconteceu neste lugar. Costumo dizer que esta Basílica não é formada apenas por algumas pedras.
Se considerarmos que ela tem um pavimento de dois hectares e duzentos metros, mosaicos que, reunidos, dariam um hectare, uma abóbada com mais de três hectares de superfície revestida de gesso… veremos que são cifras impressionantes!
Mas não é isso o que impressiona; o que espanta é que tudo isso nasça em torno de uma pessoa: Simão, chamado “pedra”, o qual era apenas um pobre pescador do Mar da Galileia, mas a quem um dia Jesus disse:
— Tu és Simão, de ora em diante te chamarás “pedra”.
Esse era um desafio humanamente impossível, pois o fato de esse pobre Simão – que em nada se parecia com uma pedra – ter-se tornado a “pedra” da Igreja é uma coisa à altura somente de Deus.
Então, a importância deste lugar está no fato de Simão ter vindo a Roma e, com o martírio, confirmado aqui o seu testemunho. Praticamente, aquilo que ele disse na Galileia: “Tu és Cristo, o Filho de Deus Vivo” (Mt 16, 16).
E: “Senhor, a quem iremos? Somente Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Ou então, como disse depois da Paixão: “Senhor, Tu sabes tudo, sabes que eu Te amo” (Jo 21, 17).
Tudo isso Pedro confirmou aqui. Portanto, é um lugar que fala da vida de Pedro, e fala a toda a Igreja. E a vida de Pedro não terminou, pois seu papel é continuado por seus sucessores.
Todos os dias, recitamos na Basílica uma oração que diz:
Pedro, primeiro Papa, neste lugar encontraste o calvário da tua crucifixão.
Reúne, pois, no Céu todos o santos pontífices, todos os santos mártires para proteger o teu sucessor, de modo que este lugar seja um jardim de verdade e um jugo de caridade.
AE: E que sensação se tem ao percorrer esse ambiente?
Sem dúvida, o túmulo de São Pedro é um túmulo que fala, e podemos dizer que é um túmulo em torno do qual se apalpa o testemunho da sua Fé. Porque nenhuma sepultura fala com tanta força como a deste Apóstolo.
Algumas vezes, quando desço às Grutas Vaticanas – sobretudo no fim da tarde, quando há menos gente – fecho os olhos e parece que ouço o lamento dos mártires, a sua oração e os seus sofrimentos… São coisas que aconteceram neste lugar.
Eu imagino a própria tarde do martírio de São Pedro, quando os cristãos recolheram o seu corpo crucificado, e a passo lento, certamente rezando, o trouxeram para o lado de cá do Circo de Nero, e escavaram a sepultura, a mais pobre que se podia imaginar.
Dois mil anos depois, não resta mais sombra de Nero, nem do Circo, mas sim do pobre pescador. Nós mesmos somos testemunhas. Ficou este prodigioso ímã universal que é a Sé de Pedro. Isso nos faz pensar muito, e nos comove muito.
AE: A Basílica de São Pedro é a igreja do Papa. Como se vive essa realidade?
Seguramente, esse é o papel principal da Basílica, pois ela é a Basílica de Pedro e do sucessor de Pedro. É um templo ad corpus martyris, sobre o corpo do mártir, o primeiro do gênero, desejado e edificado por Constantino no séc. III.
Após 1200 anos, ela se encontrava num delicado estado de conservação e, em consequência, pensou-se em uma nova edificação.
A pedra fundamental do edifício atual foi colocada em 18 de abril de 1506. Na ocasião pareceu a todos uma empresa gigantesca, faraônica, quase exagerada.
Hoje, depois de 500 anos, a Basílica de São Pedro é insuficiente para acolher as multidões que aqui vêm; e mesmo a Praça de São Pedro já se tornou pequena. No dia de Páscoa deste ano, por exemplo, a multidão chegava até o Castelo de Sant’Angelo.
Portanto, o papel principal da Basílica é acolher as celebrações papais, nas quais se sente a catolicidade. Quantas vezes me acontece de parar e perguntar:
— De onde vem você?
— Filipinas.
— E você?
— Nepal.
Só uma vez ouvi esta resposta, e me surpreendi: imagine, há católicos até mesmo no Nepal! E continuando a perguntar, ouço: Austrália, Irlanda, Colômbia, Estados Unidos, Espanha, Portugal… enfim, de todas as partes.
E justamente essa é a respiração da Igreja Católica, que as celebrações papais fazem sentir de modo particular.
AE: Com efeito, é nesta Basílica que se dá o maior número das celebrações papais, e isso lhe confere algo muito especial…
Certamente. Quando o Papa celebra, sente-se toda a Igreja reunida em torno dele; sente-se que vivemos, de algum modo, aquilo que acontecia no Cenáculo, em Jerusalém, quando se reuniam os Apóstolos em redor de Pedro, nos primeiros passos da Igreja. Eles seguramente sentiam a força da comunhão.
Então, quando o Papa celebra, a experiência que eu, particularmente, mais vivo é a de comunhão, ou ainda melhor, a comunhão como força.
Jesus disse: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18, 20). Disse também: “Que todos sejam um, a fim de que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17, 21). E quando se está junto com o Papa sente-se a realização dessa oração de Jesus.
AE: Como convivem os peregrinos e os turistas?
Em média, 30 mil pessoas visitam a Basílica de São Pedro cada dia, e é preciso acrescentar mais 15 mil que visitam os túmulos dos papas.
É uma multidão imensa! Em algumas igrejas, nem mesmo durante um ano entra tanta gente assim. Não é fácil, portanto, harmonizar essas pessoas.
Costumo dizer que aqui existe um pouco de movimento, um pouco de “confusão” semelhante àquela que havia em Jerusalém, quando Jesus entrou na cidade, no Domingo de Ramos. E era uma bela “confusão”, pois era uma “confusão” alegre.
Em São Pedro ouve-se sempre o burburinho da multidão, mas é sempre um zunzum pacato, poderíamos até dizer que é um murmúrio atento, pois as pessoas sentem que neste lugar existe algo misterioso. E muito frequentemente o visitante ou turista se torna peregrino.
Já colhi muitos testemunhos, até mesmo de um anglicano que, após visitar os túmulos dos Papas, disse estar muito comovido: “The stones have spoked!” (As pedras falaram), repetia ele.
AE: A Basílica tem um plano pastoral voltado a atender os visitantes?
Nós insistimos muito na oração. Por desejo do Santo Padre, todos os dias, às seis da tarde, renovamos a profissão de Fé, no Altar da Cátedra, aquele que mais expressa a missão de São Pedro. Dessa profissão de Fé participam muitos peregrinos.
A Basílica não pode ter um verdadeiro plano pastoral, pois nunca sabemos quem vamos encontrar. Procuramos o mais possível – e esse é um compromisso de todos – exprimir o rosto acolhedor da Igreja Católica. Independente de onde venham os visitantes, queremos fazê-los sentir que aqui é a sua casa.
As capelas sempre estão à disposição, e é muito belo ouvir em certos momentos a Missa celebrada ao mesmo tempo em oito línguas diferentes. É como um novo Pentecostes.
Existem ainda alguns espaços reservados, como a Capela da Adoração, onde todos os dias, da manhã ao fim da tarde, está exposto o Santíssimo Sacramento e todos podem entrar, mas apenas para rezar.
AE: Vossa Excelência é também Vigário Geral da Cidade do Vaticano, bem como Presidente da Fábrica de São Pedro. Quais são as responsabilidades inerentes a esses cargos?
O Vigário tem o encargo de cuidar da administração dos Sacramentos no Estado do Vaticano, na paróquia de Santa’Ana e na de São Pedro, nas quais há muitos Batismos, muitas Confissões e muitos Casamentos.
Além disso, há a preocupação pela saúde espiritual de todos os empregados, para os quais organizamos até retiros espirituais.
A Fábrica de São Pedro é uma instituição nascida com a Basílica. Foi criada para a construção da Basílica, uma obra muito longa, demorada. E, dado o seu tamanho, ela precisa continuamente de intervenções.
Não é pelo gosto de ter um monumento grande, mas pelo empenho de que seja belo, limpo, para respeitar os visitantes, respeitar o povo de Deus.
Considerando-se quantas pessoas passam por dia nos ambientes da Basílica, sem nunca encontrar ali um pedaço de papel no chão, pode-se entender o modo exemplar com que todos trabalham. Mais ainda, trabalham com amor e com devoção.
Muitas vezes eu lhes lembro que os visitantes não veem neles empregados, mas sim a Igreja Católica, e, em consequência, se eles fazem o bem, é a Igreja que faz o bem.
Na Basílica queremos ser cada vez mais aquilo que por vocação somos chamados a ser, ou seja, a memória do martírio de São Pedro, uma memória viva, que se personaliza num homem que continua a missão de Pedro.
Nós estamos aqui para servir e sustentar o ministério do Papa.
AE: Para concluir, uma mensagem aos leitores…
Eu quereria que hoje cada um de nós sentisse que não estamos vivendo um tempo hostil ao Evangelho, mas um tempo favorável. A sociedade de hoje, sobretudo a sociedade do bem-estar, é uma sociedade aparentemente feliz, mas na verdade desesperada.
Existe um grande desejo do Evangelho, uma grade expectativa pelo Evangelho. Não podemos desiludir esses sentimentos! A demanda existe, e nós devemos ser a oferta autêntica.
O Cardeal Schuster dizia: “Esta é uma época na qual as pessoas não acreditam mais em ninguém, mas se chega um Santo, estão dispostas a colocar-se de joelhos”.
Os Santos são – mais do que nunca – passíveis de serem acreditados. Nós o vimos com João Paulo II.
Estou convencido de que ele se impôs ao afeto, admiração e devoção do mundo, sobretudo, através de sua doença. Porque ali ficou claro que sua Fé era verdadeira.
Para nós era evidente, mas para os outros ficou claro que ele acreditava naquilo que dizia. E assim ele arrastou o mundo.