Em sua autobiografia, Santa Teresinha do Menino Jesus narra que, passando por certa perplexidade para encontrar paz interior, decidiu compulsar as epístolas paulinas. Casualmente, caiu-lhe sob os olhos os capítulos doze e treze da Primeira Carta aos Coríntios e mais especialmente um dos trechos recolhido pela segunda leitura de hoje: “Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo” (I Cor 12, 12). Concluiu que “não pode faltar o membro necessário e o mais nobre”, e por isso “a Igreja tem um coração e este coração está inflamado de amor”. Por fim, exultante de alegria, exclamou: “Encontrei o meu lugar na Igreja. […] No coração da Igreja, […] eu serei o amor”.1
Assim como o coração sustenta interiormente a vida corporal, assim também o Espírito Santo vivifica, une e move, por um influxo escondido, a Igreja.2 Nesse sentido, bem se poderiam aplicar à Santa de Lisieux as palavras de Nosso Senhor pronunciadas em Betânia: Teresinha “escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42).
Na Missa da Vigília de Pentecostes é-nos apresentado um dos maiores pecados narrados no Gênesis: a arrogância da Torre de Babel. Os homens levaram o orgulho a tal ápice que quiseram se igualar a Deus, ao pretender atingir os céus. Como castigo, o Senhor confundiu as línguas, provocando dispersão por toda a terra (cf. Gn 11, 4-8).
Em contraposição, a primeira leitura da Missa do Dia narra a descida do Paráclito sobre os Apóstolos em línguas de fogo. Em seguida, eles “começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (At 2, 4), mas todos os escutavam anunciarem as maravilhas de Deus nos seus próprios idiomas (cf. At 2, 11).
Apesar da diversidade de línguas, todos se entendiam, pois falavam um idioma universal… a linguagem do Espírito Santo! Por isso, o Apóstolo ensina que na Igreja “há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor” (I Cor 12, 4-5).
A Liturgia da Solenidade de Pentecostes nos indica, pois, dois conjuntos de pessoas com atitudes interiores opostas: os construtores da Torre de Babel, orgulhosos, seguros de si e, em consequência, incapazes de pedir perdão; e os discípulos que, tendo reconhecido com humildade as próprias lacunas e misérias, receberam o Espírito Santo e ainda se tornaram aptos a conceder o perdão (cf. Jo 20, 22-23).
A humanidade hodierna, confusa de mente e corrompida de coração, como nos tempos da soberba babélica, necessita implorar um grande perdão. Mais do que nunca, a face da terra encontra-se conspurcada, seca e escura pela “torre” de pecados. Precisa, portanto, ser lavada, regada e iluminada pelo Espírito Consolador.
Devemos, pois, fazer uma escolha: ou optamos pela via de Babel, ou pela via de Pentecostes. Não há terceira opção. Imploremos a Maria Santíssima, Esposa do Divino Espírito Santo, que nos conceda um coração manso e humilde, semelhante ao Coração de Jesus, e nos auxilie a escolher a melhor parte!
Notas:
1 SANTA TERESA DE LISIEUX. Manuscrito B, 3v.
2 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.8, a.1, ad 3.