“Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se és capaz… Pois bem – ajuntou Ele – assim será a tua descendência” (Gn 15, 5). Com essas palavras cheias de encanto e mistério, Deus prometia ao patriarca Abraão uma numerosa progênie.
Esse penhor da bênção divina, a prole, constitui justamente “o fim primordial do matrimônio”1 e – hélas – um bem tantas vezes negligenciado em nossos dias. Quão elevada seja tal finalidade nos indicam os documentos do Magistério Pontifício, alguns dos quais consideraremos a seguir.
Conforme indica o Papa João Paulo II, a razão última de a mentalidade contemporânea com frequência se fechar à “riqueza espiritual de uma nova vida humana” encontra-se na “ausência de Deus no coração dos homens”.2
Com efeito, já advertia o Papa Paulo VI3 que só à luz da vocação sobrenatural e eterna do ser humano pode-se retamente considerar as questões que digam respeito à vida.
Nesse sentido, Pio XI4 recorda duas verdades que ressaltam a importância da missão confiada pelo Criador aos pais, de com Ele cooperar na propagação do gênero humano (cf. Gn 1, 28).
A primeira se refere à dignidade e altíssima finalidade do homem, o qual, em virtude da preeminência da natureza racional, supera toda a criação material e está chamado a participar, pela graça, da vida do próprio Deus.
A segunda alude ao fato de os pais cristãos serem destinados não apenas a povoar a terra, mas sobretudo a prover a Igreja de Cristo de novos membros e a procriar cidadãos do Céu, autênticos Santos.
Cabe também lembrar o aspecto moral da questão:
Na missão de transmitir a vida, [os cônjuges] não são, portanto, livres para procederem a seu próprio bel-prazer, como se pudessem determinar, de maneira absolutamente autônoma, as vias honestas a seguir, mas devem, sim, conformar o seu agir com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e dos seus atos e manifestada pelo ensino constante da Igreja.5
Por fim, o Magistério Eclesiástico tem ainda uma palavra de louvor aos esposos “que, de comum acordo e com prudência, aceitam com grandeza de ânimo educar uma prole numerosa”.6
O valor de seu testemunho
não consiste apenas em rejeitar sem meios-termos e com a força dos fatos qualquer compromisso intencional entre a Lei de Deus e o egoísmo do homem, mas na prontidão em aceitar com alegria e gratidão os inestimáveis dons de Deus que são os filhos, e no número que Lhe apraz.7
Por isso Pio XII não hesita em afirmar que as famílias numerosas são “as mais abençoadas por Deus, prediletas da Igreja e por ela estimadas como preciosos tesouros”.8