Irmãos e irmãs em Jesus Cristo: neste momento decisivo de suas vidas, gostaria de encomendar-lhes estes candidatos que hoje se apresentam diante da Santa Igreja para receber o primeiro grau do Sacramento da Ordem.

Momento solene e belo que enche de alegria os irmãos e irmãs dos Arautos do Evangelho, a Igreja do Brasil e toda a Igreja Católica; e, sobretudo, o seu pai espiritual, fundador, mestre e guia, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, que vê como filhos seus dão este significativo passo dentro de sua vocação e, assim, vai crescendo o número de clérigos em sua Obra.

Também eu, honrado com a possibilidade de oficiar este sagrado rito, quero unir-me à alegria de Mons. João.

Alegria que me toma por inteiro neste momento, vendo como ele, instrumento dócil nas mãos da Providência, é, com todo o movimento, uma vigorosa manifestação do constante crescimento em graça e santidade que a Esposa ­Mística de Cristo conhecerá até o fim do mundo.

“Não fostes vós que Me escolhestes”

Quando, ao serem chamados, os diáconos responderem “Præsto sum!”, estarão exprimindo a disponibilidade de entrega completa e sem reserva ao serviço do Senhor e de sua Igreja.

Tal como no episódio em que Deus interrogava com ênfase o profeta Isaías: “A quem enviarei? Quem irá por nós?”, os senhores querem responder, com os lábios purificados por um amor ardente e tomados de entusiasmo pela tarefa da evangelização: “Aqui estou! Envia-me” (Is 6, 8).

O verdadeiro varão de Deus deposita em Maria Santíssima toda sua confiança, com a certeza sobrenatural de que, em união com quem o envia, pode fazer tudo quanto ele mesmo pode.

Contudo, queridos candidatos, não podem olvidar que este ­passo tem sua origem no chamado de Jesus: “Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e vos designei, para dardes fruto e para que o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 16). “Já não vos chamo servos […]. Eu vos chamo amigos” (Jo 15, 15).

A graça que lhes foi concedida é um sinal de amor particular do Senhor, pois, de fato, assim como a Igreja é a porção da humanidade preferida por Deus, bem podemos dizer que, em certo sentido, a Sagrada Hierarquia, dentro de cujas fileiras hoje ingressam, é a porção predileta da Igreja.

E, como não, admitindo sua entrada no ramo clerical dos Arautos do Evangelho, também o seu pai e fundador, Mons. João, lhes manifesta aquela forma mais profunda de afeto que se chama confiança.

É natural que, diante de tal amor, a Providência reserve graças especialíssimas àqueles chamados a tão sublime estado.

Ao mesmo tempo, essa confiança estabelece uma clara hierarquia de valores em suas vidas e exige da parte dos senhores uma atitude de reciprocidade que deve traduzir-se em um amor exclusivo com tríplice dimensão.

Amor a Jesus Cristo, “o resplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser” (Hb 1, 3), a cujo amor, como dizia São Bento, nada devemos antepor; à Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, amada como a Esposa de Jesus Cristo, sem ruga e sem mancha, em cujo seio devemos servir; e à Santíssima Mãe do Redentor, figura e modelo da mesma Igreja, a cujo auxílio devemos recorrer.

Terrível abandono em que se encontra a civilização

O período que passem como ­diáconos os preparará para sua missão futura de ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-14). Numa época de crise donde estão ausentes o sabor das verdades eternas e a luz da Fé, podemos constatar o terrível abandono no qual se encontra a civilização outrora cristã.

Abandono de tantas belezas, que o zelo amoroso de inumeráveis fiéis, sob o influxo do Espírito Santo, registrara na fachada do Templo ao longo dos séculos.

Abandono da virtude, num mundo em que a honestidade, a pureza e os direitos de Deus parecem não mais ter cidadania, mas são ridicularizados e discriminados como velharias.

Abandono da vida interior e da oração recolhida e contemplativa, caminho necessário e condição indispensável para todo sucesso nas lides do apostolado.

Com efeito, quantos olhos hoje buscam o socorro do bom exemplo e o alívio do bom conselho, muitas vezes em vão!

Então, essas pessoas se deixam devorar pelas ondas da rebelião, ou afundam lentamente nas águas estagnadas da indiferença, ou ainda perecem no naufrágio da ­perda da Fé.

Nessa situação, os ­senhores devem ser como uma luz para os povos, “para que vejam vossas boas obras e louvem vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5, 16).

Que a Palavra seja com um fogo ardente

Se a missão específica do diácono é anunciar a Palavra de Deus, isso os senhores farão, sobretudo, vivendo o que ensinam. Portanto, que a Palavra de Deus seja nos senhores como um fogo ardente (cf. Jr 23, 29), uma Palavra livre e soberana saída de um coração totalmente entregue ao Senhor.

E creiam no poder dessa Palavra que, escrita em diversas épocas, procede sem embargo da eternidade e é, assim, sempre atual, pois – como dizia Mons. João em um de seus comentários ao Evangelho – ela é como um excelente vinho que, adquirindo valor e variedade de matizes com o transcorrer dos anos, sempre surpreende aqueles que o provam, de maneira a nunca poderem dizer que o conhecem totalmente.

Conscientes de tal eficácia e riqueza da Palavra e segundo o seu carisma próprio, que tem tão presente a necessidade de sacralizar todos os aspectos da vida do homem, é necessário desejarem ardentemente que a imagem de Deus se reflita em tudo aquilo onde possa chegar a ação humana.

Assim, seja proclamando a Palavra, seja servindo no altar, unam seu desejo ao do sacerdote para a sociedade ser transformada com uma intervenção de Deus tal como a ocorrida no Cenáculo: “Enviai o vosso Espírito Criador, e a face da Terra será renovada!” (cf. Sl 103, 30).

Desse modo, o estado que hoje assumem acarreta novas obrigações, as quais que não devem ser vistas como peso, mas, muito pelo contrário, como galardão a ser ostentado com ufania e alegria.

Como o dever de rezar em nome da Igreja pelo mundo inteiro; a vida de celibato como sinal da glória futura que se revelará em nós; e a obediência à vontade do Senhor, manifestada pelos legítimos superiores. Entre essas obrigações há um laço interno, uma lógica implícita.

“A castidade é a garantia da coragem”

O celibato por causa do corpo do Senhor, por amor ao Reino dos Céus, nos recorda que o Verbo Encarnado quis nascer de uma Virgem porque desejava para sua Mãe Santíssima todas as belezas, e Ele próprio permaneceu virgem para deixar-nos seu exemplo.

Também aos senhores Ele fez compreender que os seus corpos são templo do Espírito Santo, conforme exorta o Apóstolo: “Glorificai a Deus em vosso corpo” (I Cor 6, 20).

Os senhores sabem que não se pertencem, pois foram resgatados por grande preço. E por isso, enquanto me comprazo em ver a instituição dos Arautos como um verdadeiro baluarte onde a castidade, como merece, é guardada amorosa e combativamente, me permito recomendar-lhes que não tenham dessa virtude angélica uma visão unilateral e minimalista.

“A castidade é a segurança da coragem”, dizia a regra dos Templários.

Escolher este estilo de vida, a par de constituir um grande testemunho em nosso mundo secularizado, sensual e revolucionário que, por assim dizer, odeia a inocência, supõe para os senhores uma afirmação de seu ideal, pois fala alto e bem daquele grau de firmeza pelo qual um homem é puro porque compreende a beleza e a nobreza incomparáveis dessa virtude.

Por isso, recordem algumas orientações que, a tal respeito, deu seu fundador. Não se limitem à ­castidade do corpo, pensem mais alto, pensem numa entrega plena não apenas do corpo, mas, sobretudo, da alma.

Para isso, devem abandonar tudo quanto é terreno e mundano, e assim entregar-se por inteiro a esta vocação.

A partir de hoje, não há para os senhores retorno, pois entram numa nova terra, na qual devem fazer como Hernán Cortés: queimar os navios, ou seja, fazer uma renúncia total, não somente do corpo, mas de tudo aquilo que os leva a uma consideração medíocre da realidade.

Escravos de Jesus Cristo, por intercessão de Maria

Recordemos, entretanto, que não existe verdadeira castidade sem humildade.

Assim, a entrega completa à qual os convoca Mons. João deve efetuar-se por meio de uma obediência que – como se lê na cerimônia de emissão de votos de sua Sociedade – faça dos senhores para sempre, no sentido literal do termo, verdadeiros escravos de Jesus Cristo, por intercessão de Maria, aceitando desde já todas as privações e sujeições inerentes a este estado.

Com efeito, para um diácono, e mais ainda dentro desta nova “ordem de cavalaria” suscitada por Deus, a obediência incondicional, sempre de acordo com as Constituições aprovadas pela Autoridade Eclesiástica, será sinal claro de que os senhores consagraram sua vida à Igreja de forma efetiva.

É algo parecido ao martírio, pois, se neste dá-se a vida por Ela num instante, por meio da obediência se morre todos os dias até o fim desta existência terrena.

E a recíproca também é real: se a entrega é efetiva e entusiasmada, a obediência se tornará fácil, mesmo em condições aparentemente difíceis, pois não devemos nos olvidar da promessa de Cristo que nos enche de esperança:

Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna (Mc 10, 29-30).

“Ativos na contemplação e contemplativos na ação”

Por fim, não podemos deixar de considerar que esta entrega se sustenta e se fortalece com a ajuda da oração cotidiana. O cumprimento de sua missão e a eficácia de qualquer ação apostólica são impossíveis sem uma vida interior bem levada.

Esta não se limita ao cumprimento de umas orações – imprescindíveis – porém, vai muito mais além.

Trata-se de fazer florescer em si a semente da vida divina recebida no Batismo, sem esquecer que, uma vez ordenados diáconos, os senhores têm a obrigação de cuidar dessa semente também nos outros, pois o compromisso assumido importa em rezar com a Igreja e pela Igreja.

Sem uma vida interior séria e fervorosa, sem a frequente contemplação dos altos horizontes da vocação, este estilo de vida seria impossível e logo os senhores se encontrariam ­absorvidos pelo torvelinho das ocupações humanas.

Têm de ser, como tantas vezes lhes recordou Mons. João, “ativos na contemplação e contemplativos na ação”, lembrando o que um grande Bispo francês, o Cardeal ­Jules-Géraud Saliège, costumava dizer: “Se os sacerdotes não são contemplativos, são somente cérebros vazios e mãos agitadas”.

Sejam não apenas diáconos, mas diáconos-arautos

Queridos candidatos, não se esqueçam de que são chamados a viver o diaconato dentro da missão específica dos Arautos do Evangelho e, portanto, têm de ser fiéis a tudo quanto a Providência depositou na alma de seu fundador para plasmar a Obra na qual vemos desfilar as glórias do passado, completadas por graças e luzes novas.

Assim, à austeridade e piedade dos antigos solitários se ­soma o zelo doutrinário dos grandes apologistas. À grandeza do cerimonial litúrgico e monástico se acrescenta a simplicidade alegre e acessível dos mais abnegados educadores da juventude.

Ao empenho em visitar, consolar e favorecer a todos os necessitados se alia a vigilância rigorosa e o amor à castidade dos monges mais puros. Sejam não apenas diáconos, mas diáconos-arautos que encarnem em suas pessoas o que a Santa Igreja espera desta Fundação.

Uno-me a seu pai e fundador, nosso querido Mons. João, para acolher com alegria o desejo que hoje manifestam de consagrar-se mais efetivamente a Deus, fortalecidos pela ação do Espírito Santo.

Recebemos essas disposições que assumem com toda integridade e incondicionalidade exigidas por sua vocação.

Quanto ao mais, só lhes cabe deixar-se conduzir por Deus, abrir suas almas e corações para tudo quanto a Providência lhes reserva de graças, e esforçar-se ao máximo para modelar suas almas segundo o exemplo de Jesus Cristo, sumo e eterno Sacerdote.

Que essa entrega completa ao Senhor, a contemplação de seu rosto, a pureza de coração e de corpo façam dos senhores varões luminosos, cheios de alegria, com um coração ardoroso, de acordo com o Divino Mestre.

A Ele, que nos ama e nos livrou de nossos pecados derramando o seu Sangue, e fez de nós um reino, a Ele o poder, a força, a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

 

Homilia na Missa de ordenação diaconal, 21/08/2014