A expressão francesa “Partir, c’est mourir un peu”1 ecoa com especial intensidade ao refletirmos sobre o significado das despedidas em diferentes contextos da vida. As viagens, por exemplo, são precedidas por preparação cuidadosa que culmina em separação. Nessas ocasiões, as ­últimas palavras ganham peso ainda maior, sobretudo quando se desconhece a data de retorno.

Pois bem, na Solenidade de hoje somos convidados a meditar sobre a partida de Nosso Senhor. Ele Se prepara para uma “viagem” sem data de regresso: a Ascensão. Virá uma segunda vez, é verdade, mas, “quanto ao dia e à hora, ninguém sabe” (Mt 24, 36).

Entre as figuras centrais desse episódio está Maria Santíssima, que testemunhara os inenarráveis padecimentos de Jesus na Paixão e agora O contempla ressuscitado, prestes a receber a sua glorificação terrena. Como terá sido a despedida entre Mãe e Filho? Que palavras terão trocado num momento tão íntimo e, ao mesmo tempo, tão grandioso?

A primeira leitura descreve os discípulos reunidos para a última refeição com o Mestre (cf. At 1, 4). Ele os encoraja, promete enviar o Espírito Santo e confia-lhes a missão de serem suas testemunhas “até os confins da terra” (At 1, 8). Ordena que preguem e batizem todos os povos, assegurando-lhes que estará presente entre eles até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 20).

Após esse momento solene, Nosso Senhor é elevado à morada celeste. Em seguida, dois Anjos reafirmam a esperança do seu regresso: “Este mesmo Jesus que vos foi levado para o Céu, virá do mesmo modo como O vistes partir para o Céu” (At 1, 11). Mas como Ele cumpre a promessa de sua perpétua presença? Através de Maria Santíssima.

Pode-se afirmar, pois, que a preparação para Pentecostes se iniciou pela ação de Nossa Senhora. A partir do dia da Ascensão, Ela assumiu a missão de predispor o coração dos discípulos que, naquele momento, estavam ainda inseridos em dois lamentáveis grupos: os que duvidavam (cf. Mt 28, 17) e os que insistiam na mera restauração política do “reino em Israel” (At 1, 6).

Assim, cabe perguntar: quais teriam sido os frutos de Pentecostes sem a mediação de Maria? Canal privilegiado da Encarnação, Ela assumiu o encargo primordial não apenas de dispor os discípulos à digna recepção do Espírito Santo, mas também os preparou para a grande tarefa da evangelização. A Mãe da Igreja soube santificar os Apóstolos para a missão que os aguardava. A partir de então, a História da salvação passou a ser escrita, além da ação direta de Nosso Senhor e do Espírito Santo, pela intercessão da Mãe de Deus e nossa.

Diante desse mistério, é oportuno refletir: ­ponho meu progresso espiritual nas mãos de Nossa Senhora, confiando em sua intercessão e sabedoria, ou tento construir a minha santificação com base em critérios puramente humanos, como tantas vezes fizeram os próprios Apóstolos antes de Pentecostes? Que a experiência da Ascensão e de Pentecostes nos inspire a confiar mais plenamente na Esposa do Espírito Santo, e assim possa Ela nos sustentar até o encontro definitivo com Cristo no Reino dos Céus. 

Notas:


1 Do francês: “Partir é morrer um pouco”.