A ideia de que Deus nos salva nas tempestades da vida é muito bela, bastante corrente e inteiramente real. Mas é muito menos comum considerar a bondade divina nos tirando da calmaria e nos lançando no meio das tormentas, com o risco de afundarmos…
Logo após multiplicar os pães para uma enorme multidão, “Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar” (Mt 14, 22). Como Deus, Ele havia disposto, desde toda a eternidade, o que viria a acontecer: “A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (Mt 14, 24).
As tempestades no Mar da Galileia são muito fortes pois, estando aquelas águas a mais de duzentos metros abaixo do nível do mar, recebem os duros ventos oriundos do Mediterrâneo, causando ondas superiores a dois metros de altura. Apesar de conduzida por experientes pescadores, a barca dos Apóstolos era muito vulnerável – como todas as do tempo – e a angústia deles devia ser imensa.
E Nosso Senhor? Para intervir, espera a “quarta vigília da noite” (Mt 14, 25), período entre três e seis horas da madrugada, deixando os discípulos por longo tempo na tribulação.
A cena possui um drama intenso e sublime: obedecendo ao Mestre, encontram terrível tempestade; esperam quase toda a noite, sem qualquer alívio; até que, em vez de acalmar a tempestade, Jesus vai até os discípulos “andando sobre o mar” (Mt 14, 25). Eles não O reconhecem, pensam que é um fantasma e começam a gritar de medo. Tudo vai de mal a pior…
Afinal, o Bom Pastor Se revela: “Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!” (Mt 14, 27). Chamado pelo Senhor, Pedro anda sobre as águas, mas… quando sente o vento, fica com medo e começa a afundar. É segurado pela mão, repreendido pela falta de fé e, por fim, acompanha Nosso Senhor ao barco. Só então, ao entrar, o vento se acalma. E “os que estavam no barco, prostraram-se diante d’Ele, dizendo: ‘Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!’” (Mt 14, 33).
Uma das lições que se pode tirar deste Evangelho é que todo discípulo de Nosso Senhor – ou seja, todo batizado – encontrar-se-á um dia em meio a grande tempestade, sem qualquer culpa própria, mas por obediência à voz de Jesus! Nesse cenário, desconhecemos o que está a acontecer, tudo parece piorar, o Céu se afigura fechado e sentimos que vamos afundar. Eis, literalmente, a noite escura…
Por que Deus permite isso? Para nos fazer crescer no amor, na confiança e na fé. No amor, porque nosso orgulho é completamente quebrado. Na confiança, pois na tormenta podemos estar certos da proteção divina e, mesmo se estivermos afundando como Pedro, seremos segurados pela mão; basta esperar! Na fé, por saber que, apesar das aparências contrárias, tudo está conduzido pela Providência.
Mas hoje podemos fazer algo que aos Apóstolos não era dado realizar então: entregar a barca de nossas vidas à Santíssima Virgem. Conduzidos por Ela, chegaremos incólumes ao porto do Céu! ²