A vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo foi muito intensa. Ele caminhava de povoado em povoado, ensinando a Boa-Nova e anunciando que o Reino de Deus estava próximo. As multidões acudiam para serem sanadas de suas enfermidades e os possuídos pelo demônio eram libertados de suas garras.

E, não tenhamos ilusão, toda essa faina O cansava. Alguém dirá: “Mas Jesus não é Deus? Deus não Se cansa!” Sim, é Deus, mas também Homem, que assumiu nossa natureza com suas fraquezas.

Enquanto Deus, tinha poder infinito e nada sofria; enquanto homem, “foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado” (Hb 4, 15). Portanto, Ele necessitava descansar.

E onde encontrar esse descanso tão necessário? Nada melhor do que o convívio com verdadeiros amigos: “Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra” (Lc 10, 38-39).

O Mestre vai a Betânia para estar com os irmãos Lázaro, Marta e Maria, que O recebem com todo o respeito e gratidão.

A anfitriã, pondo em ação seus dotes femininos, preocupa-se com os mínimos detalhes: ordenar a casa da melhor maneira possível, usar as alfaias e o serviço mais nobres que possui e, evidentemente, preparar um banquete que reflita todo o seu amor, carinho e benquerença por Aquele que considera o Messias esperado.

Maria, por sua vez, recolhe-se aos pés de Jesus e ouve, tranquila e maravilhada, as palavras do Verbo de Deus Encarnado.

E continua o Evangelho:

[Marta] aproximou-se e disse: “Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”(Lc 10, 40-42).

O que Jesus quis ensinar a Marta… e a nós?

O Senhor não censura a hospitalidade, mas o cuidado de muitas coisas, isto é, a absorção e o tumulto. […] A hospitalidade é virtuosa enquanto nos atrai para as coisas necessárias; mas quando começa a estorvar o que é mais útil, torna-se evidente que a atenção às coisas divinas é mais louvável.1

E Santo Agostinho completa:

O Senhor não repreende o trabalho, mas distingue as ocupações; por isso prossegue: “Maria escolheu a melhor parte”. Tu não escolheste mal, mas ela escolheu o melhor. E por que melhor? Porque não lhe será tirada.2

Assim, em todas as circunstâncias da vida devemos sempre servir ao Senhor sem deixar o amor e a contemplação de Deus, com vistas ao eterno que não passa.

E terminamos esta reflexão com uma advertência de Santo Ambrósio:

Que o desejo da sabedoria te faça semelhante a Maria; esta é a maior obra, a mais perfeita. Que o cuidado de teu ministério não te separe do conhecimento do Verbo Celeste, nem acuses, nem consideres ociosos aqueles que vejas dedicados à sabedoria,3

ou seja, à contemplação.

Que os santos amigos do Senhor nos obtenham d’Ele essa valiosa graça. 

 

 


1 TEOFILATO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Áurea. In Lucam, c. X, v. 38-42.
2 SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit.
3 SANTO AMBRÓSIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit.