Os campos de Trás-os-Montes, próximos a Vila Real, eram ricos em pradarias magníficas.

A maioria dos fazendeiros dessa região se dedicava à criação de rebanho ovino, e a lã obtida daquelas ovelhas produzia um fio incomparável. Até mesmo de terras longínquas vinham mercadores para comprá-la. 

Manuel era proprietário de uma dessas fazendas.

Herdara de seu pai um grande aprisco, e dele cuidava com muito zelo, a ponto de, muitas vezes, ir pessoalmente ao campo para pastorear o seu rebanho. Chamava cada ovelha pelo nome, e elas, reconhecendo-o, obedeciam à sua voz.

Sua esposa, Guilhermina, era uma portuguesa forte, decidida, que nunca deixava de trabalhar. Tinha muito apreço por todos os criados, e ela própria ajudava as moças que cardavam e fiavam, ensinando-lhes os segredos desse ofício, que dominava desde pequenina.

Com tanta habilidade ensinava a utilizar a roca, que a lã produzida nessa fazenda era das mais procuradas.

A família de Guilhermina e Manuel era fervorosamente católica. Participava de todas as atividades da paróquia, e nenhum dos filhos deixava de ir à Missa aos domingos. Além disso, os pais vigiavam para que jamais perdessem suas aulas de catecismo.

Quase todos os dias Guilhermina acordava de madrugada para poder participar da primeira Missa, no povoado, às seis da manhã. Ao meio-dia em ponto, o grande e centenário sino da fazenda redobrava, e todos juntos paravam seus afazeres para rezarem o Ângelus.

Às cinco da tarde, no fim da jornada, Manuel reunia a família e os empregados para recitarem o Rosário na capela.

Aquela casa desbordava de felicidade. Os filhos cresciam alegres e saudáveis. Os negócios prosperavam. O aprisco se multiplicava. Patrões e empregados conviviam na maior das harmonias. 

Até que, certo dia, por causa da traição de uma pessoa em quem confiara, Manuel perdeu todos os bens da família. A casa, os campos e até o rebanho foram hipotecados para saldar as dívidas, mas estas eram tantas que nem sequer assim foi possível pagá-las…

Guilhermina, seu marido e seus filhos tiveram de abandonar a grande fazenda, passando a morar numa pobre choupana.

Para ganhar o sustento, Manuel trabalhava como pastor, a serviço de um antigo conhecido, enquanto ela cardava e fiava a lã que as ovelhas produziam. 

O tempo passava, e por mais que ambos se esforçassem, a situação não melhorava. Ainda havia dívidas para pagar, e o parco salário de Manuel mal dava para sustentar a família.

Guilhermina, para ajudá-lo, passava noites inteiras fiando, com a ajuda de uma desengonçada roca. Isto sem deixar de cozinhar, lavar, passar e cuidar dos filhos, mantendo sempre limpa e arranjada a humilde cabana.

E, enquanto assim trabalhava, rezava e rezava… Tinha certeza de que Maria Auxiliadora não os abandonaria. 

Em certos momentos do dia, ela parava o que estivesse fazendo para recitar a oração de São Bernardo, da qual pronunciava sempre com especial fervor estas palavras: “nunca se ouviu dizer, que algum daqueles que tenha  recorrido à vossa proteção, implorado vossa assistência e reclamado vosso socorro, fosse por Vós desamparado”…

Mas Nossa Senhora parecia não ouvi-la, pois quanto mais repetia o Lembrai-Vos, piores ficavam as coisas!

Em uma madrugada, à luz de um pequeno lampião, com os dedos feridos de tanto fiar, aflita e chorando, Guilhermina trabalhava e rezava à Virgem Santíssima:

— Senhora, sei que Vós nunca abandonais aqueles que recorrem a Vós. Mas vede nossa situação! As crianças já quase não têm o que comer; os credores batem continuamente à nossa porta; Manuel está tão magro, que logo não terá forças para pastorear… Por favor, Senhora, já não aguentamos mais tantos infortúnios! Ajudai-nos!

Entre queixumes e lágrimas, Guilhermina sentiu iluminar-se o pequeno recinto de sua pobre choupana com uma luz resplandecente. Logo a seguir, duas mãos afáveis e carinhosas se apoiavam nos seus ombros, enchendo-a de forças e de alento.

Era a Santíssima Virgem, que viera consolá-la, dizendo-lhe com voz suave:

Não te aflijas, minha filha! Os reveses desta vida servem para purgar as nossas faltas. Deus, ao permitir os infortúnios, mostra que nos ama, pois tudo o que sofrermos nesta Terra, se o fizermos com confiança e resignação, tornar-nos-á mais semelhantes a Meu Divino Filho, flagelado, coroado de espinhos e morto na Cruz para salvar-nos.

Por fim disse:

Suporta com paciência estas adversidades, pois elas obtêm para ti e para tua família méritos tão grandes que nem sequer imaginas. Confiança, minha filha; em cada uma das dificuldades, Eu estarei a teu lado!

E desapareceu…

Guilhermina sentiu-se tão fortalecida que, depois disso, nunca mais se queixou!

Alentava o marido nas suas fadigas, alegrava os filhos quando ficavam tristes, e oferecia todas as tribulações da sua vida mísera e desventurada, por meio de Maria Santíssima, para aliviar as dores do Divino Redentor.

Do Céu, Nossa Senhora contemplava com agrado a retidão dessa alma tão fiel. Comprazia-se com sua firmeza no sofrimento, com sua boa disposição e entrega em benefício do marido e dos filhos.

E assim obteve de seu Divino Filho, para a sua dileta Guilhermina, a restituição de tudo o que haviam perdido. 

Com efeito, o amigo traidor, arrependido e corroído pelo remorso, decidiu fugir da região. Mas, antes de fazê-lo, deixou na porta da pobre choupana uma sacola com dinheiro suficiente para pagar todas as dívidas que ainda restavam à família e comprar um novo terreno.

A partir daquele momento, a prosperidade voltou ao lar de Manuel e Guilhermina. Os pastos da nova propriedade mostraram ser melhores que os da anterior.

A casa recém adquirida, após pequenas reformas, ficara mais aconchegante que a antiga. Os filhos do casal, já crescidos e vigorosos, começaram a ajudar a Manuel nos cuidados do florescente aprisco. 

E na capela da nova fazenda, bem ao lado do altar, fora entronizada uma sorridente efígie de Maria Auxiliadora, que era, segundo muitos dos que a conheceram, a mais linda imagem de toda a região, mais bela ainda que a venerada na igreja. 

Seria real? Ou apenas um exagero provocado pela amizade? Não sabemos. Mas Guilhermina sempre afirmou ser essa imagem incrivelmente semelhante àquela luminosa Senhora que em um dia de tribulação lhe dissera: “Não te aflijas, minha filha!”