A Solenidade da Santíssima Trindade recorda-nos a sublime realidade pela qual os batizados se tornam “deuses” (cf. Jo 10, 34-36). Altíssimo mistério de nossa Fé, a inabitação trinitária significa que as Três Pessoas Divinas habitam realmente em nós.

Tão elevado aspecto da vida espiritual não pode ser vulgarizado no trato com Deus. Por isso Moisés, após experimentar a grandeza do divino, prostrou-se por terra e O adorou (cf. Ex 34, 8-9), como narra a segunda leitura de hoje.

Essa postura de reverência estará presente na piedade dos autênticos heróis da Fé em toda a História. Quando o Menino Deus, tão terno, manifestar-Se ao mundo, os Reis Magos repetirão o gesto de Moisés na adoração. O próprio Cristo, durante a oração no Horto das Oliveiras, dirigir-Se-á ao Eterno Pai prostrando-Se em oração diante d’Ele.

Quantos Santos, através dos séculos, também se sentirão compelidos a lançarem-se por terra! Até os pastorinhos de Fátima o farão, em atitude de adoração, quando o Anjo lhes mostrar o fulgor da presença de Deus na Eucaristia. Em suma, essa é a atitude imediata da alma humana ante a arrebatadora e irresistível presença da Divindade.

De outra parte, em Lourdes a Mãe de Deus, encantada com a alma pura de Bernadette, trata-a com grande consideração, saudando-a com belas reverências, amável sorriso e profundo respeito. Assim Se dirige Nossa Senhora a uma camponesa inculta, mas santa.1

Ora, essas considerações podem se resumir no termo sacralidade, que, na prática, faz-nos participar das alegrias do relacionamento entre as Três Pessoas Divinas: “Encontrava minhas delícias entre os homens” (Pr 8, 31). Trata-se da ­felicidade que tem o inferior de, sentindo-se pequeno, homenagear, respeitar, obedecer e honrar quem está acima.

Quão diferente é esse convívio de certas “espiritualidades” ou “liturgias” que trivializam o sagrado, até fazê-lo desaparecer! Tais desvios transparecem, por exemplo, no trato vulgar com Deus, nas celebrações descuidadas e inclusive na perda do sentido do sagrado nas relações cotidianas. Tudo isso acaba por rarefazer o contato com o excelso mistério da inabitação trinitária em nós.

O respeito perante o sagrado se traduziu ao longo dos séculos pela tradição litúrgica e por sua riqueza em ­expressar o culto divino mediante reverências, ­genuflexões e prostrações, aformosadas pelo órgão, pelo gregoriano, pela polifonia, proporcionando o esplendor típico da celebração sacramental.

Como tais realidades externas nos ajudam a compenetrarmo-nos de que somos portadores deste ­altíssimo mistério: Deus Pai, Filho e Espírito Santo vivem em nós! 

Notas:


1 Cf. WERFEL, Franz. A canção de Bernadette. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2020, p.93-94.