O Bispo de Roma senta-se em sua Cátedra para dar testemunho de Cristo.
Ela é o símbolo da potestas docendi, aquele poder de ensinar que faz parte essencial do mandato de ligar e desligar conferido pelo Senhor a Pedro e, depois dele, aos Doze.
Na Igreja, a Sagrada Escritura, cuja compreensão aumenta sob a inspiração do Espírito Santo, e o ministério da interpretação autêntica, conferido aos Apóstolos, pertencem um ao outro de modo indissolúvel.
Só a Igreja tem mandato para interpretar a Sagrada Escritura
Onde a Sagrada Escritura é separada da voz viva da Igreja, torna-se vítima das controvérsias dos peritos.
Sem dúvida, tudo o que eles têm a nos dizer é importante e precioso; o trabalho dos sábios é para nós um grande contributo para poder compreender aquele processo vivo com o qual a Escritura cresceu e para compreender a sua riqueza histórica.
Mas a ciência sozinha não nos pode fornecer uma interpretação definitiva e vinculante; não é capaz de nos fornecer, na interpretação, aquela certeza com a qual podemos viver e pela qual podemos até morrer.
Por isso é necessário um mandato maior, que não pode surgir unicamente das capacidades humanas. Por isso é necessária a voz da Igreja viva, daquela Igreja confiada a Pedro e ao Colégio dos Apóstolos até ao fim dos tempos.
O ministério do Papa, garantia da obediência a Cristo
Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ele não ameaça à liberdade de consciência, se não é uma presunção contraposta à liberdade de pensamento. Não é assim.
O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar, na Igreja, implica em um compromisso a serviço da obediência à fé. O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis.
Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à sua Palavra.
Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente, ele próprio e a Igreja, à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.
A Cátedra é, repetimos mais uma vez, símbolo do poder de ensinamento, que é um poder de obediência e de serviço, para que a Palavra de Deus – a sua verdade! – possa resplandecer entre nós, indicando-nos o caminho da vida.
A Eucaristia, enquanto amor, é o critério de qualquer doutrina
Mas, falando da Cátedra do Bispo de Roma, como não recordar as palavras que Santo Inácio de Antioquia escreveu aos Romanos? Pedro, vindo de Antioquia, a sua primeira sede, dirigiu-se para Roma, sua sede definitiva.
Uma sede que se tornou definitiva através do martírio com o qual ligou para sempre a sua sucessão em Roma. Inácio, por seu lado, permanecendo Bispo de Antioquia, estava destinado ao martírio que teria de sofrer em Roma.
Na sua carta aos Romanos refere-se à Igreja de Roma como “Aquela que preside no amor”, expressão muito significativa.
Não sabemos com certeza o que Inácio pensava exatamente quando usou estas palavras. Mas na Igreja antiga a palavra amor, ágape, referia-se ao mistério da Eucaristia. Neste mistério o amor de Cristo torna-se sempre tangível entre nós.
Nele, Cristo se oferece sempre de novo. Nele, Cristo deixa que trespassem o seu coração sempre de novo. Nele, Cristo mantém a sua promessa, a promessa que, da Cruz, atrairia tudo a Si. Na Eucaristia, nós próprios aprendemos o amor de Cristo.
Foi graças a este centro e coração, graças à Eucaristia, que os Santos viveram, levando o amor de Deus ao mundo de maneiras e formas sempre novas. Graças à Eucaristia a Igreja renasce sempre de novo!
A Igreja não é outra coisa que aquela rede – a comunidade eucarística! – na qual todos, recebendo o mesmo Senhor, nos tornamos um só corpo e abraçamos o mundo inteiro.
Presidir na doutrina e presidir no amor, no final, devem ser uma só coisa: toda a doutrina da Igreja, no final, conduz ao amor. E a Eucaristia, enquanto amor presente de Jesus Cristo, é o critério de qualquer doutrina.
Do amor dependem a Lei e os Profetas (Mt 22, 40). O amor é o cumprimento da lei, escrevia São Paulo aos Romanos (13, 10).