Acreditavam os antigos que o oceano terminava num imenso abismo. A ideia até faz sorrir. Mas a realidade é que durante milênios a vastidão do mar constituía um mistério indecifrável.

E diante dos panoramas grandiosos, a imaginação do homem navegava rumo a abismos inexistentes ou se defrontava com monstros marinhos capazes de engolir de uma só vez barcos e tripulantes.

Para nós, habituados a cruzar o oceano sentados confortavelmente na poltrona reclinável de um avião, nem nos passam pela mente as dificuldades enfrentadas pelos primeiros “desbravadores” das rotas do Atlântico, os navegadores portugueses, que ainda ignoravam a existência do Novo Mundo, do outro lado do mar.

Imagine o leitor qual seria o risco de uma travessia marítima num barquinho que, comparado com qualquer navio moderno, quase parece uma jangada…

Como terá nascido nos portugueses a ideia dos Descobrimentos? De se lançar ao mar à procura do desconhecido? Terá sido algum aventureiro que, de tanto contemplar a vastidão do oceano, do alto de um promontório, decidiu pôr um barco sobre as ondas e arriscar uma aventura?

Realmente, quem visita o escarpado Cabo Espichel, em Portugal, e de lá contempla o oceano, não consegue deixar de pensar na epopeia das navegações.

Do alto desses rochedos, a pessoa quase se imagina na proa de uma das caravelas de outrora, cortando as ondas e sendo salpicada pela espuma salgada.

O Cabo Espichel é a proa da Europa, o ponto mais ocidental do Velho Continente, como escreve o Poeta:

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.[1] 

Toda essa epopeia nasceu do espírito de fé do Infante Dom Henrique, filho do rei Dom João I de Portugal.

Embora a História lhe tenha dado o cognome de “Navegador”, passou a maior parte de sua vida em terra, na Escola de Sagres, impulsionando as navegações.

A certeza íntima de estar realizando uma grande obra, o levou a lançar as caravelas ao mar à descoberta de mundos desconhecidos. 

Podemos imaginar as dificuldades que ele teve de enfrentar, sobretudo para conseguir organizar a primeira viagem: “Que a terra era redonda e do outro lado da África ia encontrar a Índia?” Quanto ceticismo, quanta oposição, quanto medo teve ele de vencer! 

Sua situação deve ter sido semelhante à de Noé, construindo a arca em terra seca.

Na corte do rei de Portugal, certamente não faltaram os críticos céticos e os críticos econômicos… Uns profetizariam a inutilidade de tal empreendimento, outros lamentariam o gasto desnecessário. 

E como convencer uma tripulação, que já conhecia os perigos do mar, a singrar águas desconhecidas? Tudo isso teve ele de vencer com sua determinação irredutível, fortificada pela fé.

Pois tinha certeza que dessa “aventura” temerária para os olhos “prudentes”, resultariam grandes benefícios para a Igreja e para o Reino. 

Como tantas vezes acontece aos grandes homens que marcam a História com sua presença e atuação, ele não viu a realização de seus anseios. Só anos mais tarde Portugal descobriu o caminho marítimo para a Índia.

Mas a Providência deu muito mais do que ele poderia imaginar quando pôs a flutuar a primeira caravela: o Brasil, com suas praias de areia branca, afagadas pelas águas de um mar que não quer conquistar espaço à terra, mas parece viver em perfeita harmonia com ela. 

 


[1] Os Lusíadas, III, 20. Febo: figura mitológica que simboliza o sol.