Ornada com preciosos tecidos brancos, embalsamada por nuvens de incenso aromático que subiam por entre os incontáveis círios que iluminavam aquela penumbrosa manhã de inverno, a Catedral de Reims nunca estivera tão esplendorosa como no dia de Natal de 498! 

Pelas ruas engalanadas de bandeiras coloridas avançava Clóvis, rei dos francos, precedido de batalhões de corpulentos guerreiros louros trajando túnicas vermelhas envoltas por mantos verdes e ornados de ricas peles, calçando botas altas, com olhar decidido e machado de guerra na mão.

A multidão ufana aclamava o jovem monarca que se encaminhava para a catedral.

Grande expectativa: o que iria acontecer?

Apesar de os francos serem ainda pagãos, a atmosfera estava impregnada de bênçãos e o imponente desfile causava enorme expectativa: todos sabiam que Clóvis ia ser batizado, porém… o que estava para acontecer seria mesmo “simplesmente” o Batismo do chefe de um povo bárbaro?

Alguns francos talvez julgassem ser aquele ato não mais do que o início de novas conquistas.

Os católicos mais clarividentes contudo se rejubilavam, pois o Batismo do rei – fruto de longos e penosos trabalhos apostólicos de São Remígio, Bispo de Reims, e Santo Avito, Bispo de Vienne – abria caminho para a conversão de todo o seu povo.

Talvez, porém, nem mesmo esses dois grandes prelados tenham se dado conta de que naquele Natal iria acontecer algo de muito mais grandioso: nasceria a Filha Primogênita da Igreja, primeira nação da Cristandade!

Reino não contaminado pela heresia ariana

Poucos anos antes, Clóvis havia vencido as tropas do decadente Império Romano e se estabelecido com seus francos, homens aguerridos e empreendedores, nas férteis regiões do norte da Gália (França).

Em pouco tempo, o sucesso de suas armas fez notar aos povos circundantes – visigodos, burgúndios e outros – que eles não seriam vizinhos de fácil trato…

Entrementes, os Bispos olhavam com grande interesse para aquele povo não contaminado pela heresia ariana, ao contrário de tantos outros invasores germânicos. 

O Deus de Clotilde deu-lhe a vitória

“Nada de grandioso se faz repentinamente”. Este famoso axioma se confirma na maneira como Clóvis foi sendo preparado pela Providência para o cumprimento de sua importante missão.

Ainda muito jovem, ele pediu a um eremita – São Vaast, futuro Bispo de Arras – que lhe ensinasse os rudimentos da doutrina cristã, o que este fez com todo empenho e desvelo.

Clóvis acompanhava seriamente suas aulas de Catecismo. Certa feita, quando Vaast lhe narrava a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele o interrompeu batendo sua lança no chão e exclamando cheio de dor e santa indignação: “Ah! Se eu estivesse lá, com os meus francos!”

Além de incutir na alma do jovem soberano o desejo da verdadeira Fé, Deus pôs em seu caminho, por meio de São Remígio e Santo Avito, a princesa cristã Clotilde, conhecida por sua beleza, inteligência e piedade.

Ela tomou para si a tarefa de converter o marido, valendo-se para isso não só de palavras, mas sobretudo de seu exemplo pessoal e suas fervorosas orações. E Jesus, Rei dos corações, não tardou em fazer frutificar os pertinazes esforços e as preces de sua serva fiel.

Numa decisiva batalha contra os alamanos perto de Tolbiac, Clóvis, vendo que os francos estavam sendo derrotados, invocava com ardor os seus deuses pagãos.

Como, porém, estes não vinham em seu auxílio nesse momento de aflição, lembrou-se de recorrer ao “Deus de Clotilde”, fazendo o voto de converter-se caso Ele lhe alcançasse a vitória.

Logo os francos se reanimaram e reagiram com tal ímpeto e arrojo que o inimigo pôs-se em fuga.

Clóvis então comunicou a seus guerreiros que, como o Deus dos cristãos lhes havia dado a vitória, ele por sua vez cumpriria a promessa feita no campo de batalha, fazendo-se cristão. E estes, unanimemente, decidiram seguir o exemplo de seu chefe.

“Adora o que queimaste e queima o que adoraste!”

Devidamente preparados para compreender a verdadeira Fé, aqueles homens rudes, mas de alma reta, iam receber o santo Batismo no Natal de 458.

Entrando em cortejo na Catedral de Reims – como vimos acima – Clóvis e seus guerreiros foram de tal forma tocados pela graça divina que perguntaram a São Remígio: “Pai, já é o Céu?”

Despojado de suas insígnias, o primeiro a receber o Batismo foi o próprio Clóvis: “Inclina devagar a cabeça, ó sicambro, adora o que queimaste e queima o que adoraste!” – disse-lhe com bondade o Santo.

E sobre aquela fronte correram as águas regeneradoras, enquanto o Ministro de Deus pronunciava a fórmula sacramental: “Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Isto feito, ali estava de pé, não mais uma simples criatura, mas um filho de Deus, um ser humano no qual Cristo, pelas mãos da Santa Igreja, acabara de infundir a vida sobrenatural da graça. Depois dele, foram igualmente batizados três mil de seus guerreiros.

Uma pomba branca trouxe do Céu a ampola de óleo

Nessa ocasião, o “Deus de Clotilde”, que certamente sorria no Céu, manifestou sua alegria por meio de um belíssimo milagre. No momento da unção dos neo-batizados, o Bispo e o rei aguardavam junto ao batistério a chegada do óleo santo.

Porém, o clérigo responsável por este não conseguia atravessar a multidão dos bárbaros apinhados na porta da igreja, e com isso ficava impedida a continuação da cerimônia litúrgica.

Elevando as mãos e os olhos aos céus, São Remígio pôs-se a rezar, pedindo o auxílio divino.

Ouviu-se então um bater de asas. E todos viram descer uma pomba mais branca que a neve, trazendo no bico uma pequena ampola, a qual continha o óleo necessário.

Voando para junto do venerável Bispo, entregou-lhe sua preciosa carga e desapareceu logo em seguida. São Remígio pôde assim concluir a cerimônia.

O ato final foi a procissão dos três mil neófitos, acompanhados pelos clérigos cujas vestes douradas davam ao cortejo ainda mais fulgor, saudando a Festa do Santo Natal. Grandiosa cena que despertou entusiásticas aclamações da multidão de fiéis. 

Acabava de nascer a França católica, a Filha Primogênita da Santa Igreja, nação que durante muitos séculos esteve à testa do grande impulso renovador que levou a Europa cristã aos esplendores sacrais da Idade Média.

De fato, muito mais do que uma nação católica, naquele dia nascia uma nova civilização, surgida dentre os escombros da decadência romana e da ferocidade dos povos bárbaros que, entretanto, se abriam para a ação maravilhosa da graça divina.