Os seres humanos procuram ser conhecidos e lembrados. Basta mencionarmos os grandes monumentos funerários, as pinturas ou, em nossos dias, o desejo quase insaciável de “visualizações” nas redes sociais.
Geralmente, porém, guardam-se boas recordações das almas mansas, humildes e sacrificadas. Quem se lembra dos interesseiros e egoístas? Esta classe de almas pode, às vezes, ser recordada com horror e arrepio para, cedo ou tarde, ser relegada ao esquecimento.
O coração humano é feito para Deus. Por isso, só será lembrado quem d’Ele se aproximou, e na medida em que se aproximou.
Esconder-se do Criador e voltar-se à criatura. Eis a tendência da natureza humana após o pecado de nossos primeiros pais, a qual levou Deus, que tudo conhece, a perguntar a Adão: “Onde estás?” (Gn 3, 9). Tendência que, de certa forma, arrastou até os próprios anjos maus a fecharem-se em si mesmos quando foram provados, pois, como ensina São Tomás de Aquino,1 uma parte dos espíritos angélicos voltou-se para a consideração imediata das coisas, apoiados na própria inteligência, sem remontar ao Criador.
A Liturgia desta solenidade deixa clara a finalidade de todo homem: estar eternamente unido ao Senhor em corpo e alma. Para isso, tem a obrigação de aproximar-se cada vez mais d’Ele como fez a Santíssima Virgem. Somente dessa forma o desejo de ser lembrado, que todos possuem em graus diversos, será inteiramente saciado, em Deus.
Nossa Senhora proclama no Evangelho deste domingo: “Todas as gerações Me chamarão bem-aventurada” (Lc 1, 48b). Portanto, d’Ela se lembrarão porque o Todo-Poderoso “olhou para humildade de sua serva” (Lc 1, 48a).
Toda a grandeza de Maria tem origem em sua humildade, e é a própria humildade que A torna digna da Assunção. Subindo ao Céu em corpo e alma, Ela Se apresenta como o primeiro e o mais glorioso fruto da Redenção, na “ordem determinada” (I Cor 15, 23a) por seu Divino Filho, e também o exemplo do que acontecerá com “os que pertencem a Cristo” (I Cor 15, 23b) após o Juízo Final: triunfarão sobre a morte e serão lembrados por toda a eternidade.
Portanto, a eterna lembrança por parte de Deus e dos homens depende de estarmos próximos do Criador e abraçados aos seus Mandamentos.
Quantos esforços para fazer uma carreira e quão pouco cuidado na prática da virtude!… Quantas “visualizações” dos homens e quão pouca preocupação em considerar como Deus nos vê!…
Nossa Senhora quer nos fazer partícipes dos privilégios d’Ela, mas não podemos esquecer que só participaremos da glória da Assunção se morrermos em estado de graça, ainda que isso nos custe grandes sofrimentos. É a essa proximidade com Maria Santíssima que a Liturgia nos convida, desde que procuremos viver como Ela viveu. ²
Notas:
1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.58, a.6; a.7.