Santo Padre, fala-se de nova evangelização, mas o que fazer para que Deus possa resplandecer ainda mais em nossas casas, e ser a “água” que sacia tantos, mesmo os que parecem não ter mais sede?

A pergunta fundamental do nosso trabalho pastoral é como levar Deus ao mundo, aos nossos contemporâneos. Evidentemente este “levar Deus” é uma coisa multidimensional: já no anúncio, na vida e na morte de Jesus, vemos como se desenvolve em tantas dimensões este “Único”.[…]

O cristianismo não é um complicadíssimo conjunto de tantos dogmas, que ninguém pode conhecer; não é algo só para acadêmicos que podem estudar essas coisas, mas é simples: Deus existe e está perto em Jesus Cristo.

O próprio Jesus Cristo disse assim, resumindo: “chegou o Reino de Deus”. É isso que anunciamos. No fundo, uma coisa simples.[…]

Como mostrar as dimensões do anúncio de Cristo

Portanto, a dimensão da vida “vivida” é o melhor testemunho de Cristo, o melhor anúncio. Vemos como famílias alimentadas pela Fé vivem na alegria, como vivenciam também o sofrimento numa alegria profunda e fundamental, como ajudam os outros, amando Deus e o próximo.

Parece-me que esse é hoje o anúncio mais belo. Também para mim, o anúncio mais confortador é sempre o de ver as famílias católicas ou as personalidades católicas que estão imbuídas de Fé: neles resplandece realmente a presença de Deus, e chega esta “água viva” da qual o senhor falou.

Portanto, o anúncio fundamental é, precisamente, o da própria vida dos cristãos. Naturalmente há, depois, o anúncio da Palavra. Devemos fazer tudo para que a Palavra seja ouvida, conhecida.

Hoje há muitas escolas da Palavra e do diálogo com Deus na Sagrada Escritura, diálogo que, necessariamente, se torna também oração, porque um estudo meramente teórico da Sagrada Escritura é uma escuta só intelectual, e não é um encontro verdadeiro e suficiente com a Palavra de Deus.

Se é verdade que na Escritura e na Palavra de Deus é o Senhor Deus Vivo que fala conosco, ela incita à resposta e à oração; então as escolas da Escritura devem ser também escolas da oração, do diálogo com Deus, do aproximar-se intimamente de Deus.

Depois eu diria, naturalmente, que são os Sacramentos. Com Deus vêm sempre também todos os Santos. É importante – a Sagrada Escritura diz-nos isto desde o início – Deus nunca vem sozinho, mas sempre acompanhado e circundado pelos Anjos e pelos Santos.

No grande vitral de São Pedro que representa o Espírito Santo, agrada-me muito o fato de Deus estar circundado por uma multidão de Anjos e de seres vivos, que são expressão e emanação, por assim dizer, do amor de Deus. 

O amor a Nossa Senhora é a grande força da catolicidade

Com Deus, com Cristo, com o homem que é Deus e com Deus que é homem, chega Nossa Senhora.

Isso é muito importante. Deus, o Senhor, tem uma Mãe, e na Mãe reconhecemos realmente a bondade materna de Deus. Nossa Senhora, a Mãe de Deus, é o auxílio dos cristãos, é o nosso conforto permanente, é a nossa grande ajuda. 

Vejo isso também no diálogo com os Bispos do mundo, da África e, ultimamente, da América Latina, que o amor a Nossa Senhora é a grande força da catolicidade.

Em Nossa Senhora reconhecemos toda a ternura de Deus e, portanto, cultivar e viver esse amor jubiloso de Nossa Senhora, de Maria, é um dom muito grande.

Em seguida há os Santos; cada lugar tem o seu Santo. E é bom assim, porque deste modo vemos as numerosas cores da única luz de Deus e do seu amor, que se aproxima de nós.

Descobrir os Santos na sua beleza, no seu aproximar-se de mim na Palavra inexaurível de Deus. 

E depois todos os aspectos da vida paroquial, também os humanos. Não devemos estar sempre nas nuvens, nas nuvens altíssimas do Mistério, devemos estar também com os pés firmes, e viver juntos a alegria de ser uma grande família: a pequena grande família da Igreja universal. 

Em Roma posso ver tudo isto, posso ver como pessoas provenientes de todas as partes da Terra e que não se conhecem, na realidade se conhecem, porque  fazem parte da família de Deus, estão próximas porque têm tudo.

Elas têm o amor do Senhor, o amor de Nossa Senhora, o amor dos Santos, a sucessão apostólica, os Bispos e o Sucessor de Pedro. Diria que esta alegria da catolicidade, com as suas numerosas cores, é também a alegria da beleza. 

Temos aqui a beleza de um lindo órgão; a beleza de uma lindíssima Igreja, a beleza que cresceu na Igreja. Parece-me um maravilhoso testemunho da presença e da verdade de Deus.

A Verdade expressa-se na beleza; devemos estar gratos por essa beleza e procurar fazer o possível para que permaneça presente, se desenvolva e ainda cresça. Assim parece-me que Deus chega, de modo muito concreto, ao nosso meio.[…]

Santo Padre, queria uma palavra sua para os que são da minha geração, para nós que nos preparamos para o sacerdócio durante os anos do Concílio. 

É uma pergunta importante e que eu conheço muito bem. Também eu vivi os tempos do Concílio, estando na Basílica de São Pedro com grande entusiasmo, e vendo como se abriam novas portas.

Parecia realmente ser um novo Pentecostes, pelo qual a Igreja podia, novamente, convencer a humanidade, depois do afastamento entre ela e o mundo, nos séculos XIX e XX.

Parecia que voltavam a se encontrar, que voltavam a nascer um mundo cristão e uma Igreja do mundo, e verdadeiramente aberta a ele. Esperamos tanto, mas as coisas na realidade revelaram-se mais difíceis. 

Contudo permanece a grande herança do Concílio, que abriu um novo caminho. Continua sendo uma magna carta do caminho da Igreja, muito essencial e fundamental. 

Os tempos de um pós-Concílio são quase sempre muito difíceis

Mas por que aconteceu isso? Gostaria de começar talvez com uma observação histórica. Os tempos de um pós-Concílio são quase sempre muito difíceis.

Depois do grande Concílio de Niceia – que é realmente o fundamento da nossa Fé, de fato nós confessamos a Fé formulada em Niceia – não surgiu uma situação de reconciliação e unidade, como havia esperado Constantino, promotor desse grande Concílio, mas uma situação realmente caótica de litígios de todos contra todos. 

São Basílio, no seu livro sobre o Espírito Santo, comparou a situação da Igreja depois do Concílio de Niceia com uma batalha naval de noite, onde ninguém pode conhecer o outro, mas todos estão contra todos.

Era realmente uma situação de caos total; São Basílio descreveu assim, com tons fortes, o drama do pós-Concílio, do pós-Niceia.[…]

Portanto, não é agora, em retrospectiva, uma surpresa tão grande, como era no primeiro momento para todos nós, digerir o Concílio, essa grande mensagem.

Inseri-lo na vida da Igreja, recebê-lo, de modo que se torne vida da Igreja, assimilá-lo nas diversas realidades da Igreja é um sofrimento, e só no sofrimento se realiza também o crescimento.

Crescer é sempre também sofrer, porque é sair de um estado e passar para outro. 

A primeira suspensão histórica pós-Concílio

E no concreto do pós-Concílio devemos constatar que existem duas grandes suspensões históricas: a de 1968, o início – ou a explosão ousaria, dizer – da grande crise cultural do Ocidente.

A geração do pós-guerra havia terminado; uma geração que depois de todas as destruições, vendo o horror da guerra, do combater-se, e verificando o drama dessas grandes ideologias que levaram as pessoas à voragem da guerra, havia redescoberto as raízes cristãs da Europa e começado a reconstruí-la com essas grandes inspirações. 

Mas tendo terminado essa geração viram-se também todas as falências, as lacunas dessa reconstrução, a grande miséria do mundo, e começou assim – explodiu – a crise da cultura ocidental que pretende mudar radicalmente.

Não criamos, em dois mil anos de cristianismo, o mundo melhor. Devemos recomeçar do zero, de modo absolutamente novo; o marxismo parece a receita científica para criar finalmente um mundo novo.

E neste, digamos, grave, grande confronto entre a nova e sadia modernidade querida pelo Concílio e a crise da modernidade, tudo se torna difícil, como depois do primeiro Concílio de Niceia. 

Uma parte tinha a opinião de que essa revolução identificava a nova revolução cultural marxista com a vontade do Concílio; dizia: este é o Concílio.

No papel, os textos ainda são um pouco antiquados, mas por detrás das palavras escritas está esse espírito. Essa é a vontade do Concílio, assim devemos fazer. 

E por outro lado, naturalmente, a reação: destruir assim a Igreja. A reação, digamos, absoluta contra o Concílio, o anti-Concílio, e a tímida, humilde busca de realizar o verdadeiro espírito do Concílio.

E como diz um provérbio “Se uma árvore cai, faz um grande ruído, se cresce uma selva, nada se ouve porque se desenvolve um processo sem barulho”.

Portanto, durante os grandes ruídos do progressismo errado, do anti-Concílio cresceu muito silenciosamente, com tantos sofrimentos e também com tantas perdas na construção de uma nova época cultural, o caminho da Igreja. 

A segunda suspensão histórica pós-Concílio

A segunda suspensão histórica, em 1989, foi a queda dos regimes comunistas. Mas a resposta não foi o regresso à Fé, como se podia talvez esperar, não foi a redescoberta de que a Igreja com o Concílio autêntico tinha dado a resposta.

Ao contrário, a resposta foi o ceticismo total, a chamada pós-modernidade.

Nada é verdadeiro, cada um deve ver como viver, afirma-se um materialismo, um ceticismo pseudo-racionalista cego, que termina na droga, termina em todos os problemas que conhecemos e de novo fecha os caminhos à Fé, porque é tão simples, tão evidente. 

Não, não há nada de verdadeiro. A verdade é intolerante, não podemos ir por esse caminho.

Eis, nesses contextos de duas rupturas culturais, a primeira, a revolução cultural de 1968, e a segunda, a queda, poderíamos dizer, no niilismo depois de 1989, a Igreja com humildade, entre as paixões do mundo e a glória do Senhor, empreende o seu caminho. 

Nesse caminho devemos crescer com paciência e agora devemos aprender de modo novo o que significa renunciar ao triunfalismo. O Concílio tinha dito para renunciar ao triunfalismo e havia pensado no barroco, em todas essas grandes culturas da Igreja.

Foi dito: “comecemos de maneira moderna, nova”.  Mas tinha crescido outro triunfalismo, o de pensar: “agora nós fazemos as coisas, nós encontramos o caminho e encontramos nele o mundo novo”. 

Mas a humildade da Cruz, do Crucifixo, exclui precisamente também esse triunfalismo; devemos renunciar ao triunfalismo segundo o qual agora nasce realmente a grande Igreja do futuro. A Igreja de Cristo é sempre humilde e, precisamente assim, é grande e jubilosa.

Parece-me muito importante o fato de agora podermos ver com olhos abertos o que também cresceu de positivo no pós-Concílio: na renovação da liturgia, nos Sínodos, Sínodos romanos, Sínodos universais, Sínodos diocesanos, nas estruturas paroquiais.

Também na colaboração, na nova responsabilidade dos leigos, na grande corresponsabilidade intercultural e intercontinental, numa nova experiência da catolicidade da Igreja, da unanimidade que cresce em humildade e, contudo, é a verdadeira esperança do mundo. 

E assim devemos, parece-me, redescobrir a grande herança do Concílio que não é um espírito reconstruído por detrás de textos, mas são precisamente os grandes textos conciliares relidos agora com as experiências que fizemos e que deram fruto em tantos movimentos, tantas novas comunidades religiosas. 

A experiência do Brasil

Fui ao Brasil sabendo como se expandem as seitas e como a Igreja parece um pouco esclerosada; mas quando cheguei, vi que quase todos os dias no Brasil nasce uma nova comunidade religiosa, nasce um novo movimento, não crescem apenas seitas.

Cresce a Igreja com novas realidades cheias de vitalidade, não a ponto de encher as estatísticas – esta é uma esperança falsa, a estatística não é a nossa divindade – mas crescem nos ânimos e geram a alegria da Fé, geram a presença do Evangelho, geram assim também verdadeiro desenvolvimento do mundo e da sociedade. 

Portanto, parece-me que devemos combinar a grande humildade do Crucificado, de uma Igreja que é sempre humilde e sempre contrastada pelas grandes potências econômicas, militares etc., mas também devemos aprender com essa humildade o verdadeiro triunfalismo da catolicidade que cresce em todos os séculos. 

Cresce também hoje a presença do Crucificado Ressuscitado, que tem e conserva suas feridas; é ferido, mas assim renova o mundo, dá o seu sopro que renova também a Igreja, apesar de toda a nossa pobreza.

E diria, nesse conjunto de humildade da Cruz e de alegria do Senhor ressuscitado, que no Concílio nos deu uma grande indicação de caminho, podemos ir em frente, jubilosamente e cheios de esperança.

 

Encontro do Santo Padre com os sacerdotes das dioceses de Treviso e Belluno-Feltre, 24/7/2007.