As inspiradas páginas do Antigo Testamento exaltam a figura de seus monarcas, surgidos na história do povo eleito a partir da extinção do regime teocrático.
Finda a era dos juízes com a rejeição de Samuel por parte do povo, Saul é ungido rei e, em seguida a este, Davi e Salomão.
Sem dúvida, a estirpe de Jessé goza, até nossos dias, de uma aura não desmentida pelo valor de seus mais notáveis expoentes, pois o rei-profeta, seu sábio filho e tantos outros revelaram qualidades paradigmáticas, dignas de suscitar a admiração dos homens de todas as épocas.
Entretanto, o advento de Nosso Senhor Jesus Cristo e a subsequente consolidação da Cristandade trouxeram também novas dinastias, com seus respectivos soberanos, nobres e fidalgos.
Tal como os governantes dos antigos tempos, muitos deles prevaricaram.
Contudo, outros foram tão íntegros na fé e no exercício do direito, que não se mostram menos grandiosos se comparados com aqueles de outrora.
É justo mencionarmos, junto aos nomes dos reis de Israel, os que subiram ao trono sob as bênçãos da Santa Igreja, e em cuja vida não encontramos nódoas, infidelidades ou ambições, mas sim o brilho fulgurante de uma acrisolada santidade.
São Fernando III, rei de Castela e Leão, conta-se entre os que hoje veneramos nos altares e admiramos na História com um deslumbramento semelhante ao despertado pelos antepassados do Messias.
Ao conhecermos os feitos por ele empreendidos, sentimo-nos inclinados a exclamar como a rainha de Sabá: “Tua sabedoria e tua opulência são muito maiores do que a fama que havia chegado até mim” (I Rs 10, 7).
Infância marcada pela figura da mãe
Acompanhando o luminoso despontar do século XIII, que se abria carregado de promessas para o povo cristão, Fernando veio a este mundo numa data que os pergaminhos da época não lograram registrar.
As hipóteses dos estudiosos oscilam entre os anos de 1198 a 1202, sem que por meio delas tenham chegado a uma conclusão absoluta.
Já uma sólida tradição situa o local do nascimento como tendo sido junto a um cerro no trajeto entre Zamora e Salamanca, em meio a uma viagem empreendida por seus pais, razão pela qual o pequeno príncipe foi chamado carinhosamente de “o Montanhês”.
O que sabemos com toda certeza é haver sido marcado pelo selo do infortúnio o casamento real do qual nasceu São Fernando, pois seus pais, Afonso IX, de Leão, e Berenguela, de Castela, tiveram as núpcias anuladas pelo Papa Inocêncio III, por serem parentes próximos em grau proibido, segundo a legislação eclesiástica da época.
Assim, no ano de 1203, separaram-se os consortes e voltaram cada qual para seus domínios, tendo Dona Berenguela levado consigo Fernando, o filho herdeiro, e os outros três infantes – Constança, Afonso e Berenguela, pois a pequena Leonor falecera no ano anterior –, a fim de educá-los na corte de seu pai, Afonso VIII de Castela.
Certamente pressentia a rainha mãe, dama de grandes dotes naturais e não menores virtudes, a decisiva responsabilidade depositada pela Providência em suas mãos naquela triste circunstância: seria ela a formadora de um varão predestinado, o qual não teria sido quem foi sem o seu magnífico exemplo de vida.
Fernando crescia sedento das coisas de Deus, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, que do mais alto dos Céus governa todo o orbe, e a respeito de Quem sua mãe contava belíssimas histórias, incitando-o a amar com ternura e a temer com humildade o Soberano da criação.
Este Senhor, por amor ao gênero humano e desejo de redimi-lo, aceitara ser condenado à morte, coroado de espinhos e recebera como cetro uma cana, e era apresentado por Berenguela a Fernando como o arquétipo dos reis, divino modelo de justiça para um bom governante.
Suas admoestações não foram vãs, pois
as boas disposições do santo menino foram como a terra fértil do Evangelho, em que caiu a boa semente dos ensinamentos, exortações e exemplos da egrégia Dona Berenguela, destinada, assim como sua irmã Dona Branca na França, a dar à Espanha um santo rei.1
Soberano de Castela e Leão
A vida de corte em Castela transcorreu serena durante a infância de Fernando, que progredia na piedade, nas ciências e nas armas com uma desenvoltura propriamente régia, denotando pela perfeição dos atos exteriores a grandeza de seu coração.
Sonhava em poder um dia construir belas igrejas à sua “Virgem Santa Maria” – realizando o sonho, de fato – e dispensava generosas esmolas aos pobres.
Passou cerca de um ano com seu pai em Leão, tendo regressado a Castela com a alma fortalecida pelo duro combate que a integridade na prática da virtude exigiu dele nesse período.
De regresso ao território materno, Dona Berenguela preparou-lhe uma surpresa: ela tencionava proclamá-lo rei, abdicando à coroa que lhe cabia por herança após o falecimento do pai.
Procedeu-se, pois, à coroação do Santo no ano de 1217, numa memorável cerimônia em Valladolid, acompanhada pela entusiástica adesão do clero, nobreza e povo do reino, os quais se sentiam encorajados à prática do bem pela figura encantadora do jovem monarca, cuja simples presença parecia atrair as bênçãos do céu e a paz para o reino.
Bons presságios trazia aquele regente, no frescor da juventude e, ao mesmo tempo, na maturidade do espírito.
A missão da realeza – sempre considerada por ele como uma dádiva recebida de Deus e uma privilegiada oportunidade para glorificá-Lo, da qual prestaria severas contas no dia do Juízo – iniciou-se com dificuldades próprias a desanimar os espíritos pouco resolutos.
Decidido a enfrentá-las até as últimas consequências, entregou-se à sua vocação com tanto ardor como o mais fervoroso dos frades num convento, e começou a desmelindrar os espinhosos assuntos de Estado, conforme ditava o dever.
Eis como uma das suas biógrafas descreve o prêmio dado por Deus aos seus esforços:
O rei Fernando, em seu incessante percurso pelo reino administrando justiça, cada vez ouvia menos querelas e mais bênçãos.
Via sua Castela estancada do sangue das feridas feitas por tantas guerras, conflitos e alvoroços, forte e valente, desejando lançar-se de novo no rumo que Deus, árbitro supremo da História, havia lhe traçado.2
Falecido seu pai em 1230, obteve também a coroa de Leão, através de tortuoso caminho, envolvendo a renúncia ao trono por parte das infantas Sancha e Dulce, filhas do primeiro casamento de Afonso IX.
Resolvida a questão da sucessão graças ao auxílio divino e ao tino diplomático de Dona Berenguela, foi coroado rei leonês passados 13 anos da primeira aclamação, unindo de maneira definitiva ambos os Estados.
“Dominus adjutor meus”
Ao escolher o lema de seu escudo real, a preferência de Fernando recaiu sobre um trecho do Salmo 28: “Dominus adjutor meus” – “O Senhor é a minha força”, frase por meio da qual traduziu seu ideal de vida.
Um profundo senso do divino animava o soberano, o qual deu-lhe, desde cedo, a convicção de que, sem a ajuda do Altíssimo, a sua mão não empunharia o cetro com a devida firmeza, nem conduziria o povo em conformidade com a sua vontade.
Impulsionado por uma cega – no entanto, paradoxalmente, quão lúcida! – confiança em Nosso Senhor, e por um amor incondicional a Ele, era considerado por todos como o melhor cristão do reino, tanto por sua fidelidade no cumprimento dos preceitos, como pela largueza de horizontes com que compreendia e praticava o Evangelho.
Reservava para a oração longas horas do dia. E quando elas não bastavam a seus anseios, avançava recolhido madrugada adentro, descansando apenas em colóquios com o seu “Conselheiro”, como chamava à relíquia do Santo Rosto de Cristo, hoje venerada na catedral de Jaén.
Os membros da corte insistiram com ele, certa vez, para descansar mais, porém o santo teria respondido: “Se eu não velasse, como poderíeis vós dormir tranquilos?”.
Uma discreta suspeita, acompanhada de um burburinho que corria de boca a ouvido no reino, difundia o comentário de que o Senhor do véu falava com São Fernando, revelando-lhe mistérios do tempo e da eternidade. Ninguém se aventurava a perguntar detalhes a tal respeito.
Não obstante, os fatos pareciam comprovar a pia desconfiança, pois os planos do rei, audaciosos, inusitados e até humanamente temerários, cumpriam-se com invariável êxito, parecendo sobrepujar os mais sagazes cálculos e se identificar com a vontade divina.
Jamais perdeu uma batalha
São Fernando viveu em plena Reconquista espanhola, numa época em que guiar os exércitos para a guerra era uma das principais obrigações dos reis, para a qual eram preparados desde a infância.
Tal situação fez dele um homem de armas. Suas campanhas militares iniciaram-se em 1224 e, a partir de 1231, continuaram sem interrupções até o momento da sua morte.
Foram mais de 20 anos de esforço bélico durante o qual as hostes castelhanas recuperaram, entre outras, as cidades de Córdoba, Jaén, Sevilha e Múrcia.
As corajosas conquistas do Rei Santo ainda hoje infundem respeito nos maiores estrategistas, pois ele jamais perdeu uma batalha, por maiores que fossem as desproporções numéricas e de forças, fato que levou Inocêncio IV a chamá-lo de “campeão invicto de Jesus Cristo”.
Usando do seu poder a serviço do bem
Vendo seu poderio político e militar avantajar-se a cada dia, São Fernando teve virtude para não envaidecer-se por isso, tão certo estava de tudo lhe vir de Deus e a Ele pertencer.
Dedicou-se a administrar sabiamente seus bens, dando a cada um o que era seu, e a Deus mais do que a todos.
Nesse intuito, beneficiou com largueza as obras espirituais e materiais da Igreja, lançando os fundamentos das catedrais de Toledo e Burgos, contadas entre as maiores joias góticas erigidas em solo espanhol.
Ambas estão dedicadas a Nossa Senhora, a quem consagrava indescritível afeto.
O povo, vendo-se amparado em suas necessidades de maneira tão extraordinária pelo rei, tinha por ele um entusiasmado e filial devotamento. Narra o historiador Weiss que
ele próprio visitava seus estados, ouvia os pleitos e os sentenciava […].
Em seu longo reinado favoreceu sempre ao pobre, contra as injustas pretensões dos ricos, e este ponto estava tão marcado em sua consciência, que chegou a ter em seu palácio de Sevilha uma pequena grade nas salas de audiência para ver bem se os juízes atuavam com retidão.3
Mesmo seus inimigos aprenderam a admirá-lo, até o ponto de príncipes e reis abraçarem pelo seu exemplo a verdadeira Fé. Foi o caso do rei valenciano Abu Zayd, que recebeu o Batismo alguns anos depois do encontro com São Fernando.
“Começou amando o cristão e terminou amando a Cristo”,4 comenta espirituosamente uma das autoras consultadas.
O povo encheu-se de respeito por ele
Na hora de sua morte, ocorrida em Sevilha no dia 30 de maio de 1252, ele fechou sereno os olhos para este mundo, pronto para encontrar-se com seu Senhor, após ter feito render os talentos d’Ele recebidos.
De fato, afirma um célebre historiador ibérico, “nenhum príncipe espanhol, desde o oitavo até o décimo terceiro século, tinha recolhido tão rica herança como a legada por São Fernando a seu filho primogênito Afonso”.5
Na catedral sevilhana, sob o maternal olhar da padroeira da cidade, a Virgem dos Reis, está conservado seu corpo, com uma placa onde se lê em espanhol antigo o seguinte epitáfio:
Aqui jaz o muito honrado Rei Dom Fernando, senhor de Castela e de Toledo, de Leão, de Galícia, de Sevilha, de Córdoba, de Múrcia e de Jaén, o que conquistou toda a Espanha, o mais leal, o mais verdadeiro, o mais franco, o mais esforçado, o mais garboso, o mais ilustre, o mais sofrido, o mais humilde, o que mais temeu a Deus, o que mais Lhe prestava serviço, o que abateu e destruiu todos os seus inimigos, o que elevou e honrou todos os seus amigos, e conquistou a cidade de Sevilha, capital de toda a Espanha.
A nobreza de sua alma tornou-o merecedor de tais elogios, porque São Fernando é
um desses modelos humanos que conjugam em alto grau a piedade, a prudência e o heroísmo; um dos enxertos mais felizes, por assim dizer, dos dons e virtudes sobrenaturais nos dons e virtudes humanos.6
Embora seus súditos tenham-no celebrado em vida com justa veneração, o transcurso do tempo foi delineando sua estatura como exemplo de virtudes, razão pela qual o povo cristão de todas as épocas “encheu-se de respeito por ele, pois via-se que o inspirava a sabedoria divina para fazer justiça” (I Rs 3, 28).
mortais de São Fernando de Castela - Catedral de Sevilha (Espanha)
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 296, Agosto 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 295, Julho 2026
Quem são os Arautos do Evangelho?
Auxílio dos Cristãos
Músicas Natalinas