Santo Isidoro1 narra que a águia recebeu seu nome devido à agudeza de sua visão – ­aquila, de acumen oculorum, em latim.

Menciona igualmente que a ave mira para os raios solares sem fechar os olhos e segura seus filhotes de modo a expô-los a dita radiação, considerando dignos aqueles que mantêm a vista fixa e abandonando os que pestanejam, por serem uma desonra para sua espécie.

Essas pitorescas reflexões etimológicas nos vêm à mente, por uma associação de ideias, no momento em que lemos o prólogo do Evangelho de São João, proclamado na Liturgia na Missa do Dia do Natal do Senhor.

A penetrante visão com a qual se inicia esse hino tão sublime permitiu a Santo Irineu de Lyon2 atribuir ao seu autor, precisamente, a alegoria da águia.

De fato, na abertura de seu Evangelho o Discípulo Amado – como digno detentor do símbolo aquilino – dirige seu olhar diretamente para a divindade do “Sol de Justiça” (Ml 4, 2), Jesus Cristo Nosso Senhor.

E anuncia que este Menino, o Filho de Maria contemplado hoje em seu Natal, é o Verbo Divino que, preexistindo antes dos séculos da História humana, criou todas as coisas (cf. Jo 1, 1-3).

Nos versículos seguintes, São João sintetiza magistralmente os temas de seu Evangelho, entre os quais sobressai um, raramente comentado no ­Natal.

Dir-se-ia que, tal como a águia submete seus filhotes a uma prova expondo-os ante o sol, ele deseja também que todos os seus ouvintes voltem seus olhares admirativos para contemplar a luz divina.

Com efeito, o Apóstolo Virgem é o único Evangelista que começa seu relato narrando que a vinda de Jesus ao mundo provocou um conflito.

Sim, em torno deste Menino tão meigo, que por amor “Se fez carne e habitou entre nós” (1, 14), plasmou-se um antagonismo radical: luz e trevas (cf. Jo 1, 5); Jesus e o mundo (cf. Jo 1, 10); fé e incredulidade (cf. Jo 1, 7).

Quem crê e O acolhe recebe a vida divina e a glória celestial, tornando-se filho de Deus (cf. Jo 1, 12), aquele que O rejeita permanece nas trevas e na morte eterna.

Eis a trágica e grandiosa escolha que São João apresenta neste hino, da qual não podemos desviar o nosso olhar.

Sem dúvida tais considerações podem parecer pouco agradáveis numa comemoração natalina. Mas, na atual crise religiosa e moral que vem sofrendo o mundo e mais especialmente a Igreja, é possível não ver essa realidade? Seremos filhos da luz ou das trevas? Trata-se de uma decisão-chave para nosso destino eterno.

Ante essa perspectiva ninguém tem direito a se desesperar ou desanimar pois, contando com Maria Santíssima como intercessora, receberemos as graças superabundantes para acolher a inefável luz do Menino Jesus e, assim, participar do seu Reino de amor pelos séculos dos séculos. 

 


1 Cf. SANTO ISIDORO DE SEVILHA. Etimologías. L. XII, c. 7, n. 10-11. Madrid: BAC, 2004, p. 939.
2 Cf. SANTO IRINEU DE LYON. Contre les hérésies. L. III, c. 11, n. 8: SC 211, 165.