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Catecismo


Ciência divina e humana no Deus-Menino
 
AUTOR: CLARA ISABEL MORAZZANI ARRÁIZ
 
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Sendo Deus, Jesus Menino possuía toda a ciência divina desde o primeiro instante de Sua existência. E sua alma, além de estar imersa na visão beatífica, tinha também a ciência infusa no mais alto grau. No entanto, como qualquer criança, Ele ia adquirindo progressivamente a ciência natural.

Ressoam os sinos. É meia-noite. Um coro de crianças entoa o Stille Nacht, pervadindo o ambiente de suavidade e mistério. Em pouco tempo se esboça um sorriso espontâneo nos lábios de todos, as fisionomias se iluminam de suave alegria. Desfazem-se os dramas e as aflições, pânicos e sustos, que acompanham a muitos dos ali presentes.

Com o coração cheio de consolação, os fiéis, um a um, se põem em movimento e se ajoelham diante do presépio. Entre a Virgem Santíssima e São José está uma manjedoura vazia.

O coro se aproxima, a simplicidade inocente das crianças se harmoniza antecipadamente com o Menino que daí a pouco vai nascer. Enquanto as vozes infantis cantam “Heilige Nacht”, entrecortadas pelos toques compassados das badaladas do relógio, umas mãozinhas muito delicadas e tenras, colocam o Divino Infante na manjedoura…

Aquele Bebê encanta crianças e adultos; todos se emocionam profundamente ao penetrar numa outra esfera, feita de

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Detalhe da  Adoração dos Reis
Magos,  por Juan Bautista Muíno –
Museu do Prado, Madri

maravilhosa benquerença, pelo simples fato de comemorarem um episódio ocorrido há mais de dois mil anos, no interior de uma gruta, nas agrestes montanhas da Judéia, próximo à humilde cidade de Belém.

Contraste de dois mundos

Naquela histórica noite de frio intenso, nada parecia indicar uma quebra tão grande na monotonia da vida dos poucos habitantes da região. Os pastores, como era costume, velavam em torno das fogueiras, num silêncio interrompido tão só pelo crepitar das chamas e pelo triste canto das aves noturnas.

A poucas léguas desse lugar, erguia- se a esplêndida cidade de Jerusalém, com suas imponentes edificações, entre as quais sobressaía o templo do único Deus verdadeiro, no cimo do monte Sion.

Era ali onde os sacerdotes, revestidos de ricos paramentos, ofereciam sacrifícios a Deus em meio a nuvens de incenso e de aromas. Era também no templo que os escribas e doutores da lei estudavam as Escrituras, nos velhos rolos de pergaminho, procurando decifrar obscuras passagens e profetizando a vinda do Messias: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7, 14).

Quem traça os rumos da História

Esses escribas e doutores da lei, alguns por orgulho, outros pela arrogância nascida de seu fátuo conhecimento científico ou religioso, julgavam desempenhar um papel de suma importância no curso da História. Entretanto, hoje sabemos com um recuo de dois milênios, não ter sido nos palácios de Herodes nem de Pilatos, nem nas festas dadas pela elite romana, nem mesmo no recinto sagrado do templo onde se decidiram os destinos da humanidade.

Foi sobre as rudes palhas de uma manjedoura, bem perto das fogueiras e dos rebanhos, onde repousava um Recém-Nascido, ignorado daqueles que detinham os poderes do mundo e, reconhecido apenas por um punhado de pessoas simples e sem instrução, mas cuja fé robusta supria abundantemente a falta de conhecimento.

Estes pobres pastores deixaram-se conduzir com docilidade pela voz da graça quando, por meio das palavras do anjo, lhes foi revelada a chegada de um Salvador, o Messias esperado. Eles não opuseram resistência, não exigiram provas nem argumentos. Sua crença no sobrenatural lhes bastava para aceitar que aquele Menino, na aparência tão débil, era o próprio Filho de Deus, descido do Céu para dar vida ao mundo.

Toda a ciência divina, numa manjedoura

O Divino Infante sorrindo e movimentando as mãozinhas, apesar de sua natureza ser tenra, frágil, delicada, entretanto, tinha a ciência de Deus. Conhecia tudo como o próprio Deus, pois Ele é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a Ciência pessoal e infinitamente perfeita do Pai, deitada numas palhas e aquecida por dois animais. Por conseguinte, naquele encantador Pequenino, a dormir num presépio ou descansando nos braços de Sua Imaculada Mãe, estava a Visão eterna em Pessoa, Ciência ativa e vivificante gerada pelo Pai desde o princípio, antes de todos os séculos.

Desde toda a eternidade Ele contemplara, com atenção infinita, o feliz momento escolhido para Sua Encarnação, chegada a plenitude dos tempos; vira esses pastores abismados em profundo respeito e, com eles, todos os homens das épocas futuras que viriam, em cada Natal, se prostrar reverentes ante o mísero estábulo de Belém. Vira as adorações dos santos, as ternuras das almas inocentes, os arrependimentos de tantos pecadores diante da misericórdia de um Deus excelso e todo-poderoso, agora exorável e sensivelmente presente, para estar mais ao alcance

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Adoração dos Reis Magos (detalhe)
Catedral de Salamanca – Espanha

dos homens. Toda a evolução imanente ao curso da História atingia sua meta nEle. A realização suprema da ordenação das criaturas, até tocar em Deus, produziu-se na Encarnação. Nele a Criação está unida a Deus do modo mais íntimo e mais belo.

Na terra, com a alma no Céu

Entretanto, não era só o conhecimento divino que Ele possuía. Sua alma, desde o primeiro instante de sua conceição, no seio virginal de Maria, esteve em constante contemplação da Visão Beatífica.

Esta ciência de visão, o Divino Infante a possuía num tão alto grau que superava em amplitude e claridade aquela de que gozam no Céu os anjos e os bem-aventurados. Enquanto Autor de nossa salvação eterna – cujo ápice consiste nesta mesma Visão Beatífica – era necessário que Cristo-Homem tivesse na plenitude aquela recompensa demasiadamente grande que Ele vinha trazendo para a humanidade quando, por meio da Redenção, franqueou-nos as portas do Céu.

E já durante os nove meses transcorridos no interior do claustro puríssimo de Sua Santa Mãe, e agora, na esplendorosa noite de Seu nascimento, Jesus entregava-se, de dentro de Sua humanidade, a todas as efusões de homenagem e adoração diante das perfeições divinas que contemplava.

Esta Divina Visão embebia Sua alma de alegria e inefáveis complacências, de modo estável e ininterrupto. Nenhuma inquietação ou sofrimento, nem mesmo a perspectiva de Sua dolorosa Paixão podia vir a perturbar esse oceano de felicidade que O inundava: as ignomínias da flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via Sacra e os tormentos da crucifixão em nada alteravam a alegria de que estava cumulada a parte superior de Sua alma; pelo contrário, comunicavam- lhe um indizível contentamento por ver germinar de Seu sangue derramado, a semente fecunda da graça e da santidade.

Em Deus, podia Ele ver a inumerável coorte de almas que, no futuro, se aproveitariam dos méritos infinitos do sacrifício do Calvário e receberiam como prêmio, esta mesma Visão da qual, naquele momento, Ele gozava.

A ciência infusa no Menino Deus

A estas duas ciências que se harmonizavam admiravelmente no Deus-Menino, vinha juntar-se ainda, mais um tesouro de luz e de sabedoria, isto é, o conhecimento de que os anjos receberam no seu estado de prova e com o qual foi aquinhoado o primeiro homem, antes de sua queda no Paraíso.

Esse conhecimento, a ciência infusa – impossível de se adquirir por um esforço, pois provém exclusivamente de Deus – em Jesus, além de ser absolutamente sobrenatural, excedia em profundidade e extensão a própria ciência angélica.

Assim, reclinado sobre as duras tábuas de uma manjedoura e dormindo um sono calmo e sereno, Ele penetrava sem dificuldade nas vastidões do universo e nos pensamentos de todos os anjos e homens ao longo da História, discernindo

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Adoração dos Reis Magos (detalhe)
Catedral de Salamanca – Espanha

até as intenções e os desejos mais recônditos dos corações que, certamente, nem eles mesmos saberiam explicar.

Nem o espaço, nem o tempo, nem a própria eternidade podiam impor um limite à vastidão de conhecimento que abarcava a mente do Senhor Menino.

Verdadeiro homem, nosso irmão

Jesus, entretanto, desceu do Céu e Se encarnou para ser em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, e poder levar com propriedade o título de verdadeiro Homem, nosso irmão. Por esta razão quis Ele que Sua inteligência estivesse iluminada pela ciência natural, aquela mesma que os homens adquirem pelo esforço progressivo do entendimento.

À luz desta verdade podemos compreender mais facilmente os mistérios de Seu nascimento e de Sua infância. Do contrário, esse período apareceria, aos nossos olhos, como sendo apenas um papel representado pelo Verbo Encarnado quando, de fato, manifesta uma realidade por demais atraente e comovedora.

O Criador do universo teve também, como todas as crianças, Suas alegrias, Suas pequenas tristezas, Suas admirações. Sem dúvida, na feliz noite de Seu nascimento, ao tomar contato com esta terra de exílio, Seu olhar perpassado de sabedoria, recaiu sobre a Mãe perfeita que desde toda a eternidade escolhera para Si. E, ao contemplála pela primeira vez com os olhos carnais, Seu Divino Coração experimentou um estremecimento de amor, deleitando-se em admirar a alma imaculada e santíssima de Maria que, por assim dizer, esgotara a capacidade criativa do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Um pouco depois, Seus olhos teriam se voltado para São José, o varão justo e reto por excelência, a quem Ele daria a honra de chamar de pai, e para os pastores humildes e recolhidos ante o mistério que lhes era dado presenciar. E o Deus recémnascido, teria se alegrado em reconhecer aquelas almas que Ele mesmo criara e pelas quais agora vinha ao mundo para salvar.

Talvez, até, ao receber uma pequena flor que a mão trêmula de um pastorzinho lhe ofertava, Seus lábios tenham esboçado um encantador sorriso de benevolência e admiração ante aquela criatura infinitamente menor do que Ele, mas que, em certa medida, era uma manifestação de Sua glória. Assim, o Divino Infante ia crescendo nessa sabedoria natural ao entrar em relação com o mundo exterior, que já conhecia através das ciências divina, beatífica e infusa, e que agora podia comprovar por meio de Seus sentidos.

Sob este aspecto Jesus se apresenta, não somente como o Admirável ou Admirado, mas enquanto Admirador, debruçando-se sobre os pequenos e fazendo Suas delícias na contemplação desses reflexos que exprimem de algum modo a perfeição dEle!

O Primogênito da obra da criação

Em Belém, ao contemplar este Menino, descobre- se ante os olhos extasiados da humanidade genuflexa, a própria síntese do que há de mais alto na obra da Criação, o ápice da pulcritude existente em todo o universo saído das mãos de Deus.

Compreendemos, então, à luz das estrelas e pelo cântico dos anjos que ressoa na atmosfera daquela noite bendita, o inefável mistério dAquele Deus Imenso, feito tão pobre e tão pequenino para enriquecer e redimir, por um requinte de compaixão, a humanidade envolta nas trevas e nas sombras da morte. E, repassados de amor, ajoelhados à entrada da augusta e simplíssima gruta onde descansa o adorável Menino, poderemos exclamar, unidos aos coros celestes: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade. (Revista Arautos do Evangelho, Dez/2007, n. 72, p. 18 à 21)