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Catecismo


Os fracassados que se tornaram heróis
 
AUTOR: PE. THIAGO DE OLIVEIRA GERALDO, EP
 
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À primeira vista, a história de Shackleton e seus homens se apresenta como uma interminável seguidilha de fracassos e sofrimentos. Entretanto, ao analisá-la à luz da fé, ela pode trazer valiosíssimas lições para nossa vida espiritual.

Em agosto de 1914, após sete meses de fatigantes preparativos, um belo e resistente navio partia do porto de Plymouth aparelhado para empreender uma das maiores expedições da época. Seu nome era Endurance. 1

Dirigia-se a uma das regiões mais inóspitas do planeta: a Antártida. Milhares de quilômetros de perigosa singradura o separavam dessa terra longínqua, sempre coberta por neve e dominada por um clima absolutamente hostil à natureza humana. Ali, o explorador Sir Ernest Shackleton, acompanhado por um heterogêneo conjunto de oficiais, cientistas e até um fotógrafo, tentaria atravessar o ignoto continente de lado a lado, passando pelo Polo Sul.

O que levava aquele valoroso explorador irlandês, na flor dos seus quarenta anos, a empreender tão perigosa epopeia?

Com os olhos postos acima do horizonte

Em todas as eras da História há pessoas insatisfeitas com o prosaísmo do dia a dia, que aspiram a realizar grandiosas proezas. Dir-se-ia que no mais profundo de seus corações parece ressoar a voz do Espírito, repetindo as palavras do Apóstolo João: “Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. […] O mundo passa com as suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente” (I Jo 2, 15.17).

Sir Ernest Shackleton era uma delas. Viveu entre os séculos XIX e XX, época das grandes expedições até os confins da terra, e pertencia a essa casta de varões que têm os olhos postos sempre acima do horizonte. Aos dezesseis anos abandonou seus estudos no Dulwich College, de Londres, e embarcou como grumete num barco a vela. Tendo obtido o grau de capitão de navio na marinha mercante, seguiu como terceiro oficial no Discovery, comandado por Robert Falcon Scott, que partia com o objetivo de alcançar o Polo Sul.

Os graves problemas surgidos nessa malsucedida expedição não o desanimaram. Em agosto de 1907, zarpava pela segunda vez rumo ao ponto mais austral da Terra, desta vez comandando seu próprio navio: o Nimrod. Porém, também não conseguiu alcançar a meta almejada. Estando a apenas cento e cinquenta quilômetros dela, na latitude 88°23’, foi preciso dar meia-volta, deixando a glória da conquista do Polo Sul para o norueguês Roald Amundsen, que ali chegaria em outubro de 1911.

Shackleton não era, contudo, homem de ficar em casa, junto à lareira… Pouco tempo depois, vemo-lo organizando uma nova expedição, que teria início com a partida do Endurance.

Um anúncio convidando ao sofrimento

Atravessar a Antártida supunha percorrer dois mil e novecentos quilômetros em condições extremas, usando trenós tracionados por cães. Era preciso preparar bem a estratégia e o terreno.

Shackleton partiria a bordo do Endurance da Ilha Geórgia do Sul, atravessaria o Mar de Weddell, desembarcaria na Baía de Vahsel e ali começaria sua caminhada. Enquanto isso, o outro navio da expedição, o Aurora, conduziria seis pessoas até o Mar de Ross, situado no lado oposto do continente, a fim depositar provisões no trecho final do percurso, facilitando assim a chegada dos exploradores.

Como conseguir homens dispostos a tal empresa? Qualquer pessoa de bom senso perceberia quão arriscado era, naquela época, navegar pelos mares mais perigosos do mundo e transitar por regiões onde a velocidade do vento podia atingir trezentos quilômetros por hora, com temperaturas extremas de até 75°C negativos.

Sir Ernest Shackleton fotografado a bordo do “Endurance”

Um anúncio de jornal resolveu o problema: “Precisa-se de homens para uma viagem arriscada. Salário baixo, frio intenso, longos meses de completa escuridão, perigo constante, retorno em segurança duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de êxito”. Ao ler essas breves palavras conclamando ao sofrimento, como não recordar o sublime convite pronunciado pelo Divino Redentor? “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24).

Ao contrário do que se poderia esperar, cerca de cinco mil candidatos atenderam ao chamado de Shackleton. Deles, apenas vinte e sete passariam a compor a Expedição Imperial Transantártica, sob seu comando direto; outros tantos seguiriam no segundo navio, em direção ao Mar de Ross.

Quando o Endurance zarpou da Inglaterra, deixava atrás de si os embates iniciais da Primeira Guerra Mundial, recém-declarada na Europa. Em 5 de novembro chegou à estação baleeira de Grytviken, no arquipélago da Geórgia do Sul, último ponto de contato com a civilização antes da Antártida. Ali foi preciso aguardar por um mês a ocasião oportuna para a partida.

O “Endurance” fica imobilizado no gelo

Na manhã de 5 de dezembro de 1914, o navio novamente levantava âncoras, iniciando uma viagem que faria os exploradores perderem todo contato com a sociedade por quase dois anos. Numa época em que as comunicações via rádio davam seus primeiros vagidos, eles estavam abandonados à própria sorte.

Daquele momento em diante, o céu, o gelo e o mar tornar-se-iam as únicas testemunhas do que haveria de suceder. A Providência lhes reservava sofrimentos terríveis, que ficariam consignados para todo o sempre nos diários pessoais e imortalizados pela câmera de Frank Hurley, o fotógrafo da expedição.

Após cinco semanas de navegação no sentido sul-sudeste, puderam avistar as encostas geladas da Terra de Coats. A tripulação do Endurance estava comandada por Frank Worsley, um curtido capitão neozelandês, que usava de toda a sua experiência para contornar ou quebrar as banquisas de gelo que se interpunham em seu caminho. Contudo, os icebergs eram cada vez maiores; Hurley fotografou alguns com cerca de cinquenta metros de altura.

Aquele verão austral estava sendo muito mais frio que o previsto. O gelo crescia e foi se consolidando em torno do navio, até deixá-lo sem escapatória. Em janeiro de 1915, após percorrer mil e quinhentos quilômetros por águas apinhadas de icebergs, o Endurançe ficou imobilizado por completo no Mar de Weddell, a apenas um dia de navegação do seu destino.

Shackleton e seus homens fizeram ingentes esforços para liberá-lo. Trabalhavam sem cessar, mas em vão. Todas as suas tentativas desembocaram num doloroso fracasso!

“Não vos perturbeis no fogo da provação”

Em 24 de fevereiro, o comandante deu ordens para transformar o navio em estação de inverno. Seria preciso esperar ali por sete meses até que em setembro, com a chegada da primavera, o gelo se desfizesse.

Alexander Macklin, um dos dois cirurgiões a bordo, escreveu em seu diário: “Shackleton a essa altura deu mostras de um de seus lampejos de genuína grandeza. Não perdeu a cabeça nem deu o menor sinal exterior de desapontamento; limitou-se a nos comunicar, com toda a calma e simplicidade, que precisaríamos passar o inverno no gelo, explicando ainda os perigos e as possibilidades envolvidos; nunca perdeu o otimismo e preparou-se para o inverno”.2

Essa admirável atitude de verdadeiro líder, capaz de manter unidos e motivados os seus subalternos durante a catástrofe, faz lembrar as palavras de São Pedro em sua carta aos eleitos: “Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada sua glória” (I Pd 4, 12-13).

Em meio à permanente escuridão do inverno austral, os homens passavam o tempo arrumando as diversas partes do navio, encenando peças teatrais, assistindo a sessões de música, palestras ilustradas com diapositivos e disputas de xadrez, além de trabalhar cada qual em sua especialidade. Para manter o ânimo de seus homens, Shackleton promoveu um verdadeiro curso de formação, evitando assim que a terrível espera os fizesse enlouquecer.

Shackleton partindo da Ilha Elephant, rumo à Geórgia do Sul

Vencidos pela força da natureza

Em junho, a temperatura girava em torno de 30°C negativos. O gelo que cercava o Endurance estava penetrado de uma sinistra calmaria. Em determinado momento, sons semelhantes a explosões de artilharia chamaram a atenção de todos: a quinhentos metros do navio, blocos de gelo pesando várias toneladas empilhavam-se uns sobre os outros sob a pressão do mar. Mas o pior ainda estava por vir.

Com a chegada da primavera, antes que fosse possível libertar o navio, grandes blocos de gelo investiram contra ele arruinando-o por completo. Após meses de luta para tentar conservá-lo em boas condições de navegação, lograram apenas um novo fracasso. No dia 27 de outubro, Shackleton ordenou abandonar o navio.

Um episódio ocorrido na noite anterior veio tornar patente aos valentes e exaustos tripulantes que suas forças humanas não bastavam para enfrentar a situação. Um grupo de oito pinguins-imperadores aproximou-se solenemente do navio e, jogando suas cabeças para trás, emitiu uma espécie de canto fúnebre que nenhum daqueles experientes exploradores jamais ouvira.

O medo apossou-se de seus corações diante de uma cena tão cheia de simbolismo, que parecia prenunciar a morte do poderoso navio que fora seu abrigo durante o inverno antártico. Em menos de um mês, ele haveria de jazer no fundo do Mar de Weddell.

Aqueles homens, tão confiantes em si, ficavam sem amparo sobre o mar congelado, hesitantes quanto ao rumo tomar, equipados apenas com os petrechos retirados da embarcação antes que ela afundasse. Para sobreviver em condições tão extremas, era preciso que se unissem mais do que nunca em torno do seu comandante. Deviam estar dispostos a acatar suas ordens sem dúvidas nem temores, e a sofrer uns pelos outros.

O Acampamento Paciência

Com o navio inutilizado, mas ainda apoiado sobre o gelo, Shackleton criou o Acampamento Abandono, onde passaram as três primeiras noites. Em seguida, identificaram uma banquisa próxima que parecia mais segura e nela instalaram o Acampamento Oceânico.

Os expedicionários haviam retirado do Endurance três botes salva-vidas, os trenós e barracas que pretendiam utilizar durante a travessia do continente, e todos os mantimentos que eram capazes de carregar. Isso lhes permitiria sobreviver por algum tempo, mas para onde se dirigir no meio daquela congelada planície?

Tentaram caminhar em direção ao continente, mas sem sucesso: as condições do terreno que os circundava eram tais que em uma semana puderam percorrer apenas doze quilômetros. Perante a impossibilidade de progredir, Shackleton montou o Acampamento Paciência. Os cães começaram a ser sacrificados.

Por uma ou outra vez, a deriva da banquisa de gelo sobre a qual se encontravam deixava-a relativamente próxima de terra firme. Em 21 de janeiro de 1916, estavam a duzentos e cinquenta quilômetros da Ilha Snow Hill e, no início de março, a apenas cem quilômetros da Ilha Paulet, mas, para alcançá-las, era preciso conseguir que os botes chegassem até águas abertas…

Retornando à mesma ilha em busca dos últimos sobreviventes

Abre-se o gelo, acende-se a esperança

Depois de quinze meses presos, no dia 9 de abril, à uma e meia da tarde, uma fresta no gelo permitiu-lhes lançar por fim os botes no mar. Um dos destinos mais plausíveis era a Ilha Deception, a oeste, onde sabiam haver um depósito de provisões.

As condições de viagem apresentaram-se extremamente duras desde o primeiro momento. No dia 10 de abril, o fotógrafo escreve em seu diário: “Ontem, uma noite de tensão e ansiedade – igual à noite da destruição do navio – Mar e vento fortes e tivemos que encostar numa banquisa isolada e rezar para que continuasse inteira até o fim da noite. Não dormi nada em quarenta e oito horas, todo encharcado. Com frio e infeliz, com vento duro de nordeste soprando neve – nada de ver terra e rezamos para que essas condições terríveis cessem”.3

Contudo, nada os impressionou tanto quanto um cardume de baleias orcas que acompanhou os pequenos barcos durante uma noite inteira, circundando-os, como o próprio Shackleton descreve: “Uma chuva constante e rajadas de neve escondiam as estrelas e nos deixaram encharcados. Às vezes, sombras fantasmagóricas dos petréis passavam bem perto de nós, e em toda a volta ouvíamos os esguichos das assassinas, soltando seus silvos curtos e agudos que lembravam o sopro de válvulas de vapor”.4

Depois de três dias de navegação e remando com todas as forças contra a correnteza, não haviam avançado um só quilômetro! Pior ainda, as correntes haviam-nos impelido em sentido contrário. Novo fracasso.

Por fim, em terra firme!

Era urgente tomar uma decisão. Shackleton desistiu de avançar rumo ao poente e optou por lançar-se em direção norte, em busca da Ilha Elephant. Isso supunha afastar-se do continente e enfrentar as agitadas águas do Atlântico Sul, num momento em que quase todos sofriam de algum mal e a metade dos homens já estava inválida.

Após mais três dias de angustiosa navegação no alto-mar, os expedicionários alcançaram o objetivo. Pela primeira vez pisavam em terra firme, depois de passar 497 dias flutuando sobre o gelo ou sobre as águas.

A ilha, porém, era um lugar inóspito e soturno, fora de qualquer rota marítima. O comum das pessoas já teria perdido a esperança de salvar a vida daqueles homens, mas as almas magnânimas não devem se dobrar diante dos infortúnios. Assim o ensina o Apóstolo, antes de fazer o elogio dos grandes heróis do Antigo Testamento: “Não percais esta convicção a que está vinculada uma grande recompensa, pois vos é necessária a perseverança para fazerdes a vontade de Deus e alcançardes os bens prometidos. Ainda um pouco de tempo – sem dúvida, bem pouco – e o que há de vir virá e não tardará” (Hb 10, 35-37).

A epopeia de Shackleton ainda não havia concluído. Restava reconduzir à civilização seus subalternos, reduzidos naquela altura a pobres trapos humanos. Para isso, cinco dias depois de sua chegada à ilha, anunciou um novo plano: adaptariam e equipariam um dos três barcos salva-vidas, de apenas seis metros de comprimento, para torná-lo capaz de navegar até estação baleeira de Stromness.

O próprio comandante e mais cinco membros da expedição empreenderiam nele o arriscado retorno ao ponto de origem. Enquanto isso, Frank Wild, o lugar-tenente, comandaria os outros vinte e um homens que aguardariam na Ilha Elephant. Ora, mais de mil e trezentos quilômetros os separavam do arquipélago da Geórgia do Sul… A missão parecia impossível! Tudo fazia esperar um novo e ainda mais retumbante fracasso.

Dezessete dias de tormento em alto-mar

Os dezessete dias passados por Shackleton e seus homens a bordo daquela casca de noz joeirada pelas furiosas águas do Atlântico Sul, foram uma intérmina sucessão de tormentos: ventos frios e cortantes sobre roupas molhadas, refeições frugais em meio a enormes solavancos, turnos a cada quatro horas para cuidar do leme e das velas, vagalhões e tempestades monumentais. Mas, apesar de tudo, os experimentados marujos conseguiram fazer com que aquele minúsculo barquinho a vela seguisse com precisão o percurso marcado.

No dia 2 de maio, pensando talvez que os sofrimentos haviam chegado ao auge, Shackleton assumira o leme da embarcação à meia-noite. Em determinado momento, divisou com satisfação uma linha clara de céu aberto. Mas um segundo mais tarde percebeu, conforme ele mesmo narra, que tinha visto não “uma nesga de céu aberto em meio às nuvens, mas a crista branca de uma onda monumental”.5

E acrescenta: “Em vinte e seis anos de experiência de mar em todos os climas, nunca tinha deparado com um vagalhão tão gigantesco. Era uma incrível elevação do oceano, uma coisa muito diversa das grandes vagas coroadas de branco que vínhamos enfrentando havia vários dias. E gritei: ‘Pelo amor de Deus, segurem-se! Ela nos pegou!’”6 Esta tempestade ainda duraria quarenta e oito horas, durante as quais Deus não os deixaria abandonados.

Em 8 de maio, a água doce já acabara no barco. Porém, no dia seguinte aqueles seis homens exaustos avistavam a Geórgia do Sul. Haviam alcançado miraculosamente seu destino! Mas aproximavam-se dele pelo lado oposto à estação baleeira; aquela área da ilha estava completamente desabitada.

Enquanto procuravam um lugar para desembarcar a fim de recuperar as forças, uma nevasca começou a se formar e logo se transformou em poderoso furacão. Foram nove horas de furiosa tormenta, que ameaçava destruí-los, lançando-os contra os rochedos. Mais tarde saberiam que ela fizera soçobrar perto dali um navio a vapor de quinhentas toneladas!

Um quarto homem caminhava junto a eles

No dia 10 de maio, por fim aportaram. Estavam em terra firme e apenas trinta quilômetros em linha reta os separavam de sua meta. Ora, nem o barco nem a tripulação estavam em condições de navegar os duzentos e cinquenta quilômetros necessários para dar a volta na ilha. Só restava uma opção: escalar as íngremes falésias em cujos pés se encontravam e, atravessando montanhas e precipícios jamais explorados, caminhar até a estação baleeira de Stromness…

No dia seguinte, Shackleton anunciou seu novo plano. Partiria acompanhado pelo capitão Worsley e por Tom Crean, um gigante irlandês, enquanto os outros três tripulantes do barquinho ficariam aguardando junto à enseada. Calculava que a expedição, para a qual contavam com apenas trinta metros de corda e uma enxó de carpinteiro, duraria trinta e seis horas.

Pouco tempo depois o frio, a insegurança e a escuridão cercavam novamente Shackleton e seus dois acompanhantes, desta vez não entre as ondas do oceano, mas em meio a picos e vales agrestes. A chegada da noite os surpreendera no ponto mais alto de uma montanha. As baixas temperaturas e a falta de roupas adequadas podiam fazê-los morrer congelados. Era preciso tomar uma rápida decisão.

Como nas vezes anteriores, Shackleton optou por arriscar. Sentando-se na íngreme encosta de gelo deslizaram vertiginosamente em direção ao vale, oculto pelas trevas, sem saber aonde iriam chegar… Em poucos minutos desceram mais de quinhentos metros, mas a mão Deus os sustentou.

O próprio Shackleton escreverá mais tarde que sentia um quarto homem caminhando com eles durante essa travessia, e os dois acompanhantes confirmaram sua presença. Como não recordar aqui o conhecido trecho do Livro de Daniel sobre os três jovens lançados na fornalha? Nele se lê: “Então Nabucodonosor, admirado, levantou-se precipitadamente, dizendo a seus conselheiros: ‘Não foram três homens amarrados que jogamos no fogo?’ ‘Certamente, majestade’, responderam. ‘Pois bem’, replicou o rei , ‘eu vejo quatro homens soltos, que passeiam impunemente no meio do fogo; o quarto tem a aparência de um filho dos deuses” (Dn 3, 91-92).

“Nenhum deles se perdeu”

Depois de mais algumas peripécias, alcançaram seu destino: a estação baleeira de Stromness. Ali foram afetuosamente recebidos por seus moradores, pescadores de baleias habituados às tragédias marítimas. Shackleton se restabeleceu a toda pressa e começou a planejar o resgate da tripulação.

Fácil foi enviar um barco para recuperar os três homens que estavam do outro lado da ilha, mas os demais sobreviventes haveriam de esperar ainda quase quatro meses, até as condições climáticas permitirem o acesso à Ilha Elephant. Enquanto isso, o fiel lugar-tenente Wild, ignorando a proximidade do resgate, procurava manter viva a esperança dos homens e sua fidelidade ao capitão. Todos os dias, na hora do despertar, convidava-lhes a amarrar e guardar os sacos de dormir o quanto antes, pois aquele poderia ser o dia do retorno do comandante.

Somente na quarta tentativa Shackleton conseguiu revê-los. Assim que os avistou, contou-os um a um: estavam todos vivos! Era um milagre que ninguém tivesse morrido após passar vinte e dois meses naquelas circunstâncias, pelo que bem poderia dizer a Deus: “Conservei os que me deste, e nenhum deles se perdeu” (Jo 17, 12).

Retornando à Inglaterra, muitos membros da tripulação de Shackleton, a começar por ele, sentiam nostalgia desses sofrimentos: “Em memórias estávamos ricos. Tínhamos penetrado além do verniz superficial das coisas. Tínhamos ‘sofrido, passado fome e triunfado, sido humilhados, mas visto a glória e crescido na grandeza do todo’. Tínhamos visto Deus em seus esplendores, ouvido o texto que a natureza segue. Tínhamos atingido a alma sem véus do homem”.7

Um católico fiel jamais fracassa!

A história da viagem de Shackleton não é apenas uma linda aventura composta por uma seguidilha de fracassos. Ela tem muito a nos ensinar, pois reflete o percurso de quem continua a acreditar mesmo quando já parece haver desaparecido todos os motivos para isso.

O católico fiel encontra em seu caminho graves riscos para sua salvação. Não lhe faltam fracassos nem decepções; poderá até mesmo sentir-se abandonado pela Providência em certos momentos da vida. Mas se ele pede a intercessão da Santíssima Virgem e acalenta no fundo da alma a certeza de seu amor, Deus Se servirá desses infortúnios para torná-lo um herói da Fé.

Conforme ensina o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “às vezes Nossa Senhora permite os maiores sofrimentos e as maiores provações para aqueles a quem Ela ama. Permite que haja uma aparência de derrota completa para aqueles a quem Ela quer fazer vencer. Exige que, aqueles a quem Ela chama para isso tomem os fragmentos das vitórias, do edifício anterior que lhes resta na mão, guardem-nos cuidadosamente e os transformem em sementes”.8 (Revista Arautos do Evangelho, Julho/2019, n. 211, p. 16-21)

1 Construído na Noruega com madeira de carvalho e pinheiro-do-báltico, o Endurance era um veleiro bergantim que possuía também um motor movido a carvão. Seu casco, de quase quarenta e quatro metros de comprimento, tinha sido planejado cuidadosamente para resistir aos gelos do Ártico e quebrá-los. 2 ALEXANDER, Caroline. Endurance: a lendária expedição de Shackleton à Antártida. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.61. 3 Idem, p.141. 4 Idem, p.143. 5 Idem, p.172. 6 Idem, ibidem. 7 SHACKLETON, Ernest Henry. South! The Story of Shackleton’s Last Expedition 1914-1917. Bremen: Salzwasser, 2010, p.173. 8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 7 jul. 1973.

 
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