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Comentários ao Evangelho


A força motriz do convívio no Reino de Maria
 
AUTOR: MONS. JOÃO CLÁ DIAS, E.P.
 
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A parábola do fariseu e do publicano apresenta de forma muito viva um dos vícios que mais impediam o progresso espiritual do povo judeu naquela época. Mas como seria a oração de ambos se Jesus compusesse essa parábola hoje?

Naquele tempo: 9 Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10 “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11 O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu Te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12 Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. 13 O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14 Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18, 9-14).

I – A virtude que abre caminho a todas as graças

O fariseu orgulhoso e o publicano pecador – Vitral da Catedral de Saint Colman, Cobh (Irlanda)

A parábola do fariseu e do publicano, recolhida pelo Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, nos apresenta uma extraordinária lição de humildade, delineando com nitidez a figura do orgulhoso e a do pecador que implora a misericórdia de Deus.

Ao meditar sobre ela, nossa atenção costuma se deter na impostação de alma de cada um dos personagens ao entrarem no Templo para rezar. Entretanto, o que define ambos é o modo como de lá saíram. Aquele que se julgava coberto por um manto de glória, dons e boas obras, volta para casa muito pior que antes, enquanto o outro, depois de apresentar-se a Deus envolto num manto de penitência e vergonha, retorna inteiramente perdoado. Cumpre-se assim a sentença apresentada na primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico: “A prece do humilde atravessa as nuvens” (35, 21).

Mesmo se o cobrador de impostos não fosse réu de nenhum pecado, sua união com Deus teria aumentado ao terminar a oração, pois a humildade atrai a benevolência do Altíssimo e constitui o canal pelo qual as graças descem à alma. “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes”, lembra São Pedro em sua primeira epístola (5, 5).

O requisito primordial para a prática dessa virtude consiste em reconhecer ser impossível alcançar qualquer mérito sobrenatural sem o auxílio de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme Ele mesmo ensinou: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). A afirmação é taxativa: não está dito que “pouco” ou “algo” podemos fazer; a Escritura diz “nada”!

Tudo nos vem d’Ele, tanto os merecimentos quanto as forças para praticar o bem. Nossa vida espiritual deve estar fundada na convicção dessa completa dependência em relação a Deus. Confiar nas próprias qualidades, reais ou imaginárias, nos leva a uma atitude de autossuficiência análoga à do fariseu.

O orgulho obstruiu o conduto pelo qual as graças poderiam ter chegado até ele. Sua oração se reduziu a dar testemunho de si, enumerando supostas virtudes atribuídas a seus esforços pessoais, sem referência alguma à ação de Deus. Satisfeito consigo mesmo, não pediu perdão nem suplicou qualquer ajuda, pois não via nenhum mal ou lacuna a serem sanados pela Providência. Em consequência, nada recebeu; acumulou, pelo contrário, razões para um merecido castigo.

Caracterizados assim um e outro personagem, analisemos mais de perto o modo como cada um deles se relaciona com o Criador.

II – Um elenco de vícios e uma oração perfeita

O trecho do Evangelho de São Lucas selecionado pela Liturgia deste domingo corresponde ao terceiro ano da vida pública de Nosso Senhor, quando Ele Se encontrava na região da Pereia, a caminho de Jerusalém.

Alguns versículos antes, o Evangelista havia nos mostrado o Divino Mestre respondendo uma pergunta dos fariseus sobre a vinda do Reino de Deus e instruindo os discípulos a respeito dos acontecimentos no fim do mundo.

Seguem a essas passagens a parábola da viúva pertinaz e do magistrado injusto, com a qual Jesus ilustrava a importância de sermos insistentes na oração, e, logo depois, a que agora comentamos.

Alerta para os que confiam em si e desprezam os outros

A finalidade do Salvador ao propor a parábola é assim expressa no texto sagrado:

Naquele tempo: 9 Jesus contou esta parábola para alguns que co