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Espiritualidade


O Santuário do Monte Gargano
 
AUTOR: IR. JULIANA GALLETTI, EP
 
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A história do mais antigo santuário do Ocidente dedicado a São Miguel está cheia de misterioso encanto. De lá se espalhou para toda a Igreja a devoção ao combativo Arcanjo. Será ela hoje apenas a pitoresca lembrança de um passado remoto?

Situado a oitocentos metros de altura, sobre um imponente promontório que avança em direção ao Mar Adriático, o Santuário de São Miguel Arcanjo do Monte Gargano chama a atenção por sua singular arquitetura e posição geográfica.

Um conjunto de pequenos edifícios pitorescamente sobrepostos na cresta da montanha o compõem, tendo por centro a pequena gruta onde o Custódio da Igreja apareceu no início da Idade Média.

Ao tomarem conhecimento do ocorrido, os habitantes de Siponto pediram ao seu Bispo, São Lourenço Maiorano, que lhes interpretasse o misterioso fato

Desde aquela remota época, o local tornou-se um centro de irradiação da devoção ao Santo Arcanjo para toda a Igreja. Ao longo dos tempos milhões de peregrinos, entre os quais muitos Papas, reis e Santos, visitaram o célebre santuário, cuja história, porém, se perde na bruma dos séculos.

A flecha se volta contra o arqueiro

Narram as antigas crônicas que, no ano 490, um nobre de Siponto, hoje parte da comuna italiana de Manfredônia, pôs-se a procurar nos arredores da cidade um de seus touros que havia se segregado dos demais. Passou várias horas buscando-o e só conseguiu encontrá-lo quando, vencido pelo cansaço, já decidira retornar para casa.

O animal achava-se na entrada de uma gruta pedregosa de difícil acesso, situada na parte mais alta do monte que domina a cidade. Seu resgate tornava-se quase impossível. Tomado de impaciência, o nobre disparou-lhe uma flecha com a intenção de matá-lo, mas esta, para surpresa dos que presenciavam a cena, retornou ao ponto do qual fora lançada, ferindo o próprio arqueiro.

Ao tomarem conhecimento do ocorrido, os sipontinos pediram ao seu Bispo, São Lourenço Maiorano, que lhes interpretasse o misterioso fato. Como resposta, o piedoso prelado decretou três dias de jejum, durante os quais todos deviam pedir a Deus que lhes revelasse seus sublimes desígnios em relação ao acontecido.

O atendimento às preces e sacrifícios não se fez esperar. Na aurora do quarto dia, 8 de maio de 490, enquanto São Lourenço rezava na Igreja de Santa Maria Maggiore, antiga catedral de Siponto, apareceu-lhe o glorioso Príncipe da Milícia Celeste, dizendo: “Bem fizeste em procurar descobrir o mistério de Deus escondido aos homens, razão pela qual os golpeei com minha lança. Sabei, porém, que esta é a minha expressa vontade. Eu sou Miguel Arcanjo e estou sempre na presença de Deus. Venho habitar este lugar, guardá-lo e provar por meio de um sinal que serei seu vigia e custódio”.1

O espírito angélico ainda prometeu que concederia qualquer favor que ali lhe rogassem em oração e pediu que se dedicasse a gruta ao culto cristão. E, como prova do seu poder, fez com que o nobre atingido pela flecha ficasse prodigiosamente curado, a ponto de desaparecerem todos os vestígios do ferimento.

São Miguel lhes obtém a vitória

A notícia do acontecido espalhou-se pela Europa e pelo Mediterrâneo, até atingir a longínqua Constantinopla. Enquanto isso, em Siponto, os fiéis tomaram por costume subir o Monte Gargano a fim de pedir a intercessão do Santo Arcanjo, que lhes obtinha graças com grande munificência.

Um dos maiores favores por ele concedidos deu-se dois anos depois da primeira aparição. Tendo sido a cidade cercada por um poderoso exército bárbaro, São Lourenço subiu à celeste gruta para implorar ao Arcanjo a vitória, e aconselhou ao povo pedir uma trégua de três dias, durante os quais deveriam fazer jejuns e preces em honra ao Deus dos exércitos.

Os invasores aceitaram o armistício e, completado o tempo assinalado, São Miguel apareceu novamente ao prelado enquanto rezava na catedral de Siponto. Era a aurora de 29 de setembro de 492. Vinha anunciar-lhe a vitória e o advertia de não atacar os invasores senão depois da hora quarta daquele mesmo dia.

O santo Bispo convocou o povo e transmitiu-lhe as instruções recebidas do Céu. Inundados de alegria, os defensores da cidade passaram as primeiras horas do dia em oração e, no momento determinado pelo Arcanjo, dirigiram-se ao encontro dos seus adversários. Os invasores, conta um cronista, confiavam no próprio orgulho, e os sipontinos, na promessa angélica.2

Cenas do retábulo de São Miguel Arcanjo – Capela Santa Inês, Museu Diocesano e Catedralício, Valladolid (Espanha)

Iniciada a batalha, uma espessa nuvem cobriu o Gargano. A terra começou a tremer, o mar agitou-se rugindo com furor e desabou uma terrível tempestade, cujos raios atingiam os bárbaros e poupavam os sipontinos. Aterrorizado, o exército inimigo logo se pôs em fuga.

Em agradecimento, o Bispo saiu com o povo em procissão até a gruta do Arcanjo, em frente à qual encontraram gravadas na rocha pegadas semelhantes às de um homem. Imediatamente as atribuíram a São Miguel e, não ousando entrar, puseram-se a venerar os vestígios deixados pelo espírito angélico como sinal inequívoco de sua presença e proteção.

“Eu mesmo consagrei este lugar”

No oitavo dia do mês de maio de 493, o Bispo Lourenço subiu novamente à gruta para comemorar o terceiro aniversário da primeira aparição. Preocupava-lhe a ideia de transformar aquele solitário local em um verdadeiro santuário, onde Deus fosse louvado e a Santa Missa celebrada com frequência, mas não sabia qual seria o melhor modo de fazê-lo.

Para resolver o dilema, decidiu levar o problema ao Papa São Gelásio, que acabava de assumir o Sólio Pontifício. Este acolheu com benevolência os mensageiros do Bispo, mas, em lugar de dar-lhe uma solução para a questão, convidou-o a descobrir a vontade do Arcanjo com estas palavras: “Se competisse a nós determinar o dia da dedicação da igreja escolhida por São Miguel, diríamos que se fizesse no dia da vitória contra os bárbaros; mas, cabendo ao Santo Príncipe defini-lo, esperamos o seu oráculo”.3

Nessa mesma missiva, o Pontífice pedia a São Lourenço que proclamasse em Siponto um jejum de três dias, no qual deveriam acompanhá-lo sete virtuosos prelados de dioceses vizinhas, que enumerava a seguir. O próprio Santo Padre prometia unir-se em Roma às orações assim proferidas.

As preces de um Papa santo, unidas às de tão virtuosos prelados, não podiam deixar de ser a