Fale conosco
 
 
Receba nossos boletins
 
 
 
Artigos


Plinio Corrêa de Oliveira


Noções gerais de temperamento – I
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 06/11/2019
 
Decrease Increase
Texto
Solo lectura
0
0
 
Tema de especial interesse para Dr. Plinio era analisar as mais diversas disposições e índoles da alma humana, e como estas a aproximam ou distanciam da excelência moral a que é chamada. Nessas considerações, comprazia-se ele em traçar paralelos pitorescos como o que aqui veremos, entre o beija-flor e o jacaré...

Pediram-me que tratasse sobre temperamento. Matéria árdua, delicada, complexa e extensa.

Não tomarei aqui a palavra em sentido técnico, mas nas suas várias acepções correntes. Aliás, pergunto me se o termo é de fato comum, pois é bem possível que na linguagem de todos os dias não se fale quase de temperamento, e expressões como “fulano é temperamental” sejam ouvidas apenas em determinados círculos.

“Temperamento” e termos correlatos

Entretanto, defendemos os melhores valores da civilização, e um destes é o vocabulário rico e abundante, herança dos tempos em que se empregava grande quantidade de
palavras, expressando diferentes matizes e idéias, incentivando o prazer da conversa e o interesse por temas mais elevados.

Assim, falarei de temperamento no sentido corrente da minha época de jovem, semelhante ao significado que possuía há alguns anos.

Aproveitarei, então, como que pontos de apoio para erguer uma coluna — a noção de temperamento — para no alto dela colocar o conceito de uma virtude relacionada com este, chamada temperança. Não será difícil perceber que muito me apraz tomar as palavras e manuseá-las como se fossem pedras preciosas de encontro à luz… Cada termo pode ser com parado a uma dessas gemas, ou pelo menos a um bom e sólido pedaço de granito, dignos e próprios de estarem na mão do homem, ou de servir para a construção de sua casa.

Há íntima correlação entre as palavras “temperamento”, “temperamental”, têmpera”, etc. Muitos já ouviram falar, por exemplo, em têmpera de aço, em clima temperado,
na virtude da temperança. Essas várias aplicações têm a mesma raiz, um denominador comum. E este, se examinarmos bem, acha-se presente na linguagem corriqueira, seja a do meu tempo de jovem, seja a dos dias atuais. Fixado esse denominador comum, poderemos entender o que é temperamento.

Esse assunto se assemelha a uma montanha em cujas encostas aparecem regatos que se espraiam, árvores floridas que se levantam e penhascos que ajudam a pessoa a não cair. Uma palavra bem definida é como um rochedo que contribui para o homem não rolar nas encostas do pensamento. Quantos se enganam porque, na hora de encontrar uma palavra para exprimir o que pensam, utilizam um termo com dois sentidos! Sem perceberem, logo incorporam um sentido no outro e acabam dizendo algo diverso, e às vezes oposto àquilo que cogitavam. Quiçá esse equívoco não se verificasse nos prólogos do pensamento, mas empregaram um termo ambíguo a fim de explicar sua idéia. E devido a essa ambiguidade, o raciocínio derrapou, caiu no watershoot e se estatelou.

Vê-se, portanto, como é necessário manusearmos, analisarmos todas as palavras, para que nossas reflexões sejam lógicas.

Passemos então ao temperamento, a respeito do qual darei algumas noções gerais.

Exemplos do reino animal: o colibri e o jacaré

O homem é constituído de dois elementos: a alma e o corpo. Este pertence ao reino animal, enquanto a primeira estaria na ordem angélica. Porém, não somos centauros de anjo e bicho, um espírito angélico que penetrou num animal irracional. Temos uma alma que, por sua natureza, deve estar ligada a um corpo, e vice-versa. Ao corpo do bicho não é próprio estar unido a uma alma, e o anjo, sendo espírito, não lhe é característico estar vinculado à matéria.

Somos, portanto, um composto harmônico de alma e corpo. Mas, a partir do modo de ser de um bicho, podemos fazer reflexões que nos levarão a compreender melhor o papel do temperamento sobre a inteligência, a vontade e a sensibilidade humanas. Assim, do inferior para o superior, nossa análise alcançará o fim almejado.

Consideremos uma lebre e uma tartaruga, ou um elefante e um cervo, ou quaisquer outros animais, posto serem infindos os exemplos. Ocorre-me o paralelo entre o jacaré, acostumado a permanecer à beira de um rio, arfando, espreitando a presa, vivendo, e o colibri, ágil, rápido, que voa de flor em flor, rutilante! Ambos têm sua índole peculiar, e abordar esse assunto tomando o bicho como exemplo é uma forma preciosa de fazê-lo, pois como o animal possui apenas corpo, podemos entender o que seja temperamento, abstração feita da alma. Veremos em seguida a relação temperamento e espírito. Desta sorte, teremos dado uma certa idéia de conjunto acerca do tema proposto.

Cuidemos, portanto, da comparação entre o jacaré e o beija-flor.

O contraste das duas anatomias não poderia ser mais diferente e chocante. Ao todo de cada um deles — corpo, esqueleto, musculatura, hábitos, tipos de nutrição, regime
de repouso e de atividade, de agressão e defesa, etc. — corresponde um princípio vital próprio, pelo qual lhe é deleitável e natural fazer algumas coisas e não outras, executando-as ou omitindo-as de modo igualmente característico.

Tomemos o jacaré. Além do corpo, há nele algo chamado vida, material, não um princípio espiritual, mas uma centelha comunicada por Deus que o torna capaz de agir. Essa comunicação é feita pela sabedoria e onipotência divinas de tal maneira que o princípio vital tende a proceder exatamente de acordo com aquele corpo, o qual, por sua vez, existe para servir àquele princípio. Assim, no momento em que o jacaré — espécie ovípara — é concebido, o princípio vital e os elementos físicos dele se conjugam. Quando gerado, há uma diferenciação entre o corpo materno e o aparecimento de um princípio próprio, distinto do da mãe. O filhote começa a viver. Em determinado instante, quebra-se o ovo e o jacarezinho sai.

E o mesmo pode ser dito do colibri, ele também ovíparo.

Reflexos da formosura divina

Vale acrescentar apenas que, se o colibri habitualmente é encantador, em geral o jacaré é hediondo. Contudo, Deus, próvido, não deixou este último sem uma certa beleza. E muito crocodilo que causa nojo ao ser visto na lama, terá seu couro apanhado, lustrado e arranjado para servir de bolsa ou sapato a senhoras, de carteira a homens importantes e a uma série de outras finalidades.

É um pulchrum oculto, distinto da beleza do colibri. Segundo os planos de Deus, cabia ao beija-flor encantar o homem. De maneira que até a pessoa mais mal-humorada e deprimida não consegue se esquivar de considerar com interesse o esvoaçar ligeiro e gracioso do pequeno colibri. Porém, a beleza que o Criador concedeu ao jacaré é oculta, a ser descoberta, lapidada e ressaltada pelo homem. E no couro trabalhado do jacaré há duas belezas: a própria, posta em evidência pelo tratamento a ele dado;  e a do engenho e senso artístico do homem o qual, à força de examinar aquele ser naturalmente feio, percebe que deveria ser lindo, e parte à procura dos métodos para fazer com que aquele pulchrum aflorasse.

Deus se mostra assim o modelo de toda formosura, criando o colibri, o jacaré, mas sobretudo o homem, a cujo serviço estão os animais. Capaz de tecer uma poesia que saliente o pulcro do beija-flor, e também de manusear o couro do jacaré, de modo a tornar evidente sua beleza.

Vê-se, pois, como o plano de Deus se estrutura, semeado de esplendor. E, de passagem, faço notar como é deleitável, atraente e bom considerar esse tipo de assunto.

O jacaré, símbolo da introspecção

Prosseguindo, dir-se-ia que o jacaré possui vários predicados de temperamento. Refiro-me ao bicho na margem de um rio, pois ignoro como será a existência dele dentro da água. Trata-se, portanto, do jacaré do folclore corrente. Aliás, nunca em minha vida pensei tanto nessa espécie da fauna quanto agora, apenas observada por mim, sem simpatias maiores, através de algumas fotografias. Surpreendi-me, em pequeno, quando me dei conta de que carteiras, pastas, bolsas e sapatos bonitos de senhoras eram revestidos com couro de crocodilo, o animal feio com o qual me tinha antipatizado.

Mas, tomando o jacaré do folclore, como é apresentado para todo o mundo, nas praias fluviais, o que faz ele?

Antes de tudo, é lento. Suas pernas curtas não são para grande curso. Comparem-nas com as de um cervo, e se compreende qual dos dois foi criado para correr ou ficar parado. Porém, está no princípio que o anima e em seu corpo — vemos aí a noção de temperamento se aproximando — a inclinação para andar pouco e habitualmente sem pressa.

Há uma regra que, tanto quanto pude constatar, se verifica amiúde na natureza, embora possa ser desmentida pelos fatos: todo animal que se move com parcimônia não é
feroz para agredir, e sim para se defender. Todas as energias não consumidas andando, emprega-as se protegendo.

A exceção que me ocorre no momento é a tartaruga, porque ela tem uma tal fortaleza natural, que se defende encolhendo: entra no casco e ali se deixa ficar. É símbolo da obstinação, o que também é característico de uma forma de temperamento.

Mas, os animais muito estáveis seguem em geral essa regra. É sabido que o jacaré, quando agredido, torna-se feroz, abocanha o inimigo e daí por diante. Porém, em situação normal, obedece às leis comuns da criação, provendo à sua própria sobrevivência. Estável, sem grandes hostilidades, e introspectivo, tanto quanto se possa dizê-lo de um bicho. Permanece quieto, com a bocarra semiaberta, respirando, sentindo-se a si mesmo e gostando de existir. Daí a sua imutabilidade. Pois o introspectivo não procura no exterior o que possui no seu interior. Ele se encolhe e frui. E compreende-se que sua natureza não lhe peça grandes movimentações, pois não precisa delas:
ser-lhe-iam inúteis, um dom desnecessário. Ele tem dentro de si o que os outros buscam fora.

Por que ir como o colibri, de flor em flor? Ele acharia perda de tempo. Fica arfando, ahhh… ahhh… ahhh…, boca aberta, tomando sol, deleitando-se até a hora em que algo
lhe indica já ser o bastante, afunda-se nos pântanos, nas águas, e desaparece do olhar humano.

Ponto fundamental de nosso assunto

Percebemos que a noção corrente de temperamento vai assim se enriquecendo de elementos. É um modo de ser presente no princípio vital do bicho, no seu corpo, considerado do ponto de vista da constituição e da inter-relação de seus vários órgãos, das formas e da maneira de funcionar deles, bem como de um certo estilo de sentir a si mesmo e ao mundo exterior.

Eis um ponto fundamental do nosso tema, que devemos frisar: o modo de sentir. O jacaré sente muito mais ele próprio do que o ambiente à sua volta.

Alguém poderia objetar: “Não é assim, pois está provado que o crocodilo tem uma vista fantástica!”

Não me refiro ao grau de visão, mas à importância que ele confere ao que observa. Pouca, pois do contrário se moveria mais freqüentemente. Prefere ficar parado, degustando sua existência pachorrenta. Parece-me o símbolo da hipertrofia da introspecção, verificada em certo tipo de homem. Conheço gente que se compraz em sentar-se, abancar-se, abanar-se e passar o tempo sentindo a si própria. Não precisa de mais nada. “E se ligarem a televisão?”, perguntará meu objetante.

Prestem atenção na atitude de um desses introspectivos diante do aparelho de TV ligado. Julga que este lhe serve apenas como fundo musical e nem se importa com o que passa na tela. Se a desligarem, ele talvez nem perceba. O que está fazendo? “Jacarezando”…

O que explanei até aqui são elementos, aspectos da índole do jacaré, em que salientei a maneira de sentir-se a si próprio e ao mundo externo. A proporção entre essas duas
percepções fornece um fator preciso para se conhecer o temperamento do bicho, bem como o de uma pessoa. Em próxima oportunidade, consideraremos o exemplo do colibri para, então, desenvolver as noções gerais que propusemos no início dessa exposição. (Revista Dr. Plinio, Dezembro/2004, n. 81, p. 18 a 23).

 
Comentários