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Plinio Corrêa de Oliveira


Sublimidade e pureza
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 09/12/2019
 
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Quando o dogma da Imaculada Conceição foi definido por Pio IX, houve na Europa uma verdadeira tempestade de ódios, protestos e indignação por parte de não católicos, mas também de católicos. Como explicar essa atitude?

Temos hoje para comentar um trecho da encíclica de São Pio X a respeito do dogma da Imaculada Conceição. Nele, depois de discorrer sobre a atual negação do pecado original e suas consequências, o Santo Padre afirma:

Anarquismo, a mais perniciosa doutrina…

“Se os povos creem e professam que a Virgem Maria foi preservada de toda mancha de pecado desde o primeiro instante de sua conceição, torna-se mister admitirem 
também o pecado original, a Redenção da humanidade por Jesus Cristo, o Evangelho e a Igreja, enfim, a lei do sofrimento.

Em virtude disto, todo racionalismo e materialismo que campeiam pelo mundo são arrancados e destruídos em suas raízes, cabendo à sabedoria cristã a glória de ter guardado e defendido a verdade.

“Além disto, é vício perverso e comum a todos os inimigos da Fé, sobretudo em nossa época, proclamar que se deve repudiar todo respeito e obediência à autoridade da Igreja, e mesmo a qualquer poder humano, na crença de que ser-lhes-á mais fácil banir assim a fé dos corações.

“Eis aqui a origem do anarquismo, a mais nociva e perniciosa doutrina que possa existir, tanto na ordem natural quanto na sobrenatural. Ora, tal peste, fatal tanto à sociedade como ao nome cristão, baqueia ante o dogma da Imaculada Conceição de Maria, pela obrigação que este impõe de atribuir à Igreja um poder em face do qual tem que se curvar não só a vontade, mas também a inteligência. Pois é em virtude de uma tal submissão que o povo cristão canta este louvor da Virgem: ‘Toda bela és, Maria, e não há em Ti a mancha original’. Daí se justifica uma vez mais o que a Igreja afirma da Virgem, dizendo que ‘Ela, sozinha, extirpou as heresias do mundo inteiro’”.1

…e a extrema ponta da Revolução.

Esse trecho contém tal riqueza de pensamento que merece ser explanado e resumido. São Pio X tem em vista mostrar aqui como a aceitação do dogma da Imaculada  Conceição por parte dos fiéis é um remédio para aquilo que, no ensaio Revolução e Contra-Revolução, 2 nós chamamos de Revolução. 

Nessa obra apontamos o anarquismo como a fórmula mais avançada da Revolução, ou seja, aquele estado de coisas para o qual o comunismo visa caminhar. Os defensores dessa doutrina afirmam que deve haver uma ditadura do proletariado, mas passageira. Depois que ela tenha modelado os homens de acordo com as intenções comunistas, a humanidade estará num tal grau de evolução, de “perfeição”, que não precisará mais de leis nem de cárceres, não cometerá mais crimes, não fará guerras e não necessitará de governo.

Haverá, então, uma anarquia, que eles não apresentam como um pandemônio, uma desordem, mas como uma ordem sem lei, na qual todos os homens são reis de si próprios. Ninguém obedecerá ao outro, e reinarão uma liberdade, fraternidade e igualdade completas.

Algumas das edições de “RCR”, publicadas em várias línguas; acima, Imaculado Coração de Maria, Casa Bela Vista, Mairiporã (SP)

A formulação empregada por São Pio X é muito interessante, pois frisa que não pode existir um erro pior que o anarquismo. Ele é “a mais nociva e perniciosa doutrina que possa existir, tanto na ordem natural quanto na sobrenatural”.

Não se trata, portanto, de uma afirmação de caráter histórico – nunca apareceu um erro tão ruim quanto o anarquismo –, mas doutrinário: se um homem perverso e corrompido procurasse na ordem do possível o pior dos erros, não encontraria outro senão o anarquismo.

Indignação até em meios católicos

Afirma São Pio X que a admissão do dogma da Imaculada Conceição tem como resultado a aceitação da autoridade da Igreja, pois o modo pelo qual se sabe que Nossa Senhora foi concebida sem o pecado original é através do Magistério.

A Igreja ensina fundamentada no Evangelho. Sujeitar-se a ela implica aceitar as Sagradas Escrituras e, em consequência, a Revelação e a ordem sobrenatural. Supõe submeter-se a um poder que regula os atos externos e internos do homem; não apenas os da vontade, mas também os da inteligência. Trata-se, em suma, de tomar a atitude mais oposta ao anarquismo que possa existir.

O Pontífice mostra como ter fé na Imaculada Conceição é um ato soberanamente eficaz para arrancar da alma humana todas as raízes da Revolução, e aplica a Nossa Senhora aquela frase muito bonita, que se encontra na Liturgia: “Gaude Maria Virgo, cunctas hæreses sola interemisti”.3

Ou seja, pela sua Imaculada Conceição a Santíssima Virgem, calcando aos pés a cabeça do dragão, pai das heresias, eliminou-as do mundo inteiro e luta, através dos séculos da vida da Igreja, para a extinção de todos os erros. Eis a ideia contida nesse esplêndido trecho de São Pio X.

Quando o dogma da Imaculada Conceição foi definido por Pio IX, houve na Europa uma verdadeira tempestade de ódios, protestos e indignação por parte dos não católicos, mas também dos católicos. Em muitos setores da Igreja houve furor porque ele tinha sido definido. Como explicar semelhante atitude?

Ódio igualitário

São Pio X fotografado por Felici em março de 1908

Segundo tal dogma, a Virgem destinada a ser a Mãe de Deus foi concebida sem pecado original desde o primeiro instante de sua existência. A indignação contra Maria Santíssima, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e Mãe da Igreja, explica-se pelo ódio igualitário de vê-La colocada no ponto mais alto em que uma mera criatura possa estar.

Ademais, por ser Ela mulher, o arbítrio de Deus se apresenta de modo muito mais forte. O Altíssimo toma o elemento geralmente considerado secundário na ordem  humana e o põe no alto de toda a pirâmide da criação, contundindo enormemente o espírito igualitário.

Por outro lado, fere muito aos revolucionários o fato de ter sido Maria Santíssima a exceção a uma regra para a qual nunca houve exceções. A ideia de uma mulher concebida sem pecado original, elevada, portanto, a uma altura enorme em relação a todos os seres humanos, produz neles um verdadeiro furor.

Mas há também outra causa para essa fúria. A Imaculada Conceição não só lhes causa irritação por seu aspecto anti-igualitário, mas pelo ódio que o vulgar tem em relação ao sublime.

Nossa Senhora foi concebida sem pecado original. É ao mesmo tempo Virgem e Mãe de Deus. Essas verdades correspondem à sublimidade de um ser puro, imaculado, elevado acima de tudo quanto se possa imaginar, virginal no mais recôndito de si mesmo. Ela não possuía nenhum dos impulsos que, mesmo num Santo, podem representar o aguilhão da carne. Nem a isso o ser d’Ela estava sujeito.

Tão transcendente é Maria em matéria de sublimidade, tão alta e requintada em questão de pureza, tão excelsa dentro da condição humana, e tão diferente da nossa própria condição, que Ela Se apresenta aos nossos olhos como uma figura imensamente maior do que nós, despertando a nossa admiração. Em Nossa Senhora temos uma
ideia da sublimidade a que Deus pode elevar a criatura humana, uma sublimidade, entretanto, à qual nós não fomos elevados.

O requinte da bem-aventurança

Dr. Plinio na década de 1970, osculando a Imagem Peregrina que chorou em Nova Orleans

Disso decorre para todo o gênero humano uma espécie de honra e de glória que esbarra diretamente no espírito revolucionário. Este odeia tudo quanto é sublime e elevado, não somente por ser ele igualitário, mas por uma outra expressão do igualitarismo que é o amor ao banal, ao trivial, quando não ao degradado. Por isso os revolucionários têm verdadeiro ódio à Imaculada Conceição de Maria.

Esse furor encontra outra expressão no ódio que as pessoas, movidas pelo espírito das trevas, têm àqueles que, como nós, procuram praticar a virtude, particularmente no que tange à pureza, compostura e dignidade.

Tais pessoas são capazes de espalhar as piores calúnias a nosso respeito, só porque guardamos a castidade perfeita. A compostura, a nobreza, a distinção de trato, mesmo daqueles que são de uma condição mais modesta, chama a atenção de todos e atrai a simpatia dos bons, mas causa verdadeiro ódio nos maus.

Quem gosta da vulgaridade nos detesta porque procuramos orientar os espíritos para o alto. Tentamos comunicar às nossas pessoas a atitude e dignidade de filhos de Deus e de Nossa Senhora, refletindo assim algo da realeza da própria Santíssima Virgem.

Isso os indigna, e sua cólera constitui para nós razão de alegria. Nosso Senhor chamou de bem-aventurados aqueles que são perseguidos por amor à justiça, mas dentro dessa bem-aventurança há como que um requinte: o fato de ser rejeitado em virtude das mesmíssimas razões pelas quais Ela é odiada.

Aproximando-nos da festa da Imaculada Conceição, peçamos a Maria Santíssima a bem-aventurança de sermos cada vez mais devotos d’Ela, e de tal forma A representarmos, que se possa afirmar ser nossa união com Ela o motivo real pelo qual somos odiados. Extraído, com pequenas adaptações, de: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XX. N.237 (dez., 2017); p.10-12. (Revista Arautos do Evangelho, Dezembro/2019, n. 216, p. 24 a 26).

1 SÃO PIO X. Ad diem illum lætissimum.
2 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 5.ed. São Paulo: Retornarei, 2002.
3 Do latim: “Alegra-Te, ó Virgem Maria, que sozinha vencestes todas as heresias”. Início da antífona Gaude Maria Virgo.

 
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