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São Policarpo de Esmirna: “Fundado sobre rocha inabalável”
 
AUTOR: PE. FRANCISCO TEIXEIRA DE ARAÚJO, EP
 
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Formado por São João Evangelista e iluminado pelos ensinamentos de Santo Inácio de Antioquia, pôde São Policarpo progredir continuamente nas vias da santidade e coroar com o martírio seus quase cinquenta anos de ministério episcopal.

Magnífico espetáculo, digno de ser assistido com enlevo até pelas legiões angélicas, foi o martírio de São Policarpo, Bispo de Esmirna. Nascido cerca do ano 69 da Era Cristã, ele teve a graça de ser formado pelo Apóstolo São João, que lhe confiou o governo das igrejas dessa região da Ásia.

Em meados do segundo século, as calúnias levantadas contra os cristãos na Ásia produziam seus mais mefíticos frutos. Muito apropriadamente escreveu a este respeito São Justino, filósofo e apologista do Cristianismo: “É evidente que não há nada capaz de nos aterrorizar nem de nos submeter à servidão, a nós que, por todas as vastidões da terra, cremos em Jesus. Por não renegarmos nossa Fé, somos por certo decapitados, crucificados, arrojados às feras, encarcerados, atormentados com fogo e todo tipo de suplícios; contudo, quanto mais tormentos se nos infligem, mais cresce o número dos que creem e prestam culto a Deus pelo nome de Jesus”.1

“Gloriar-me-ei em meus
sofrimentos e exultarei em
minhas chagas”
São Policarpo de Esmirna –
Igreja de Notre-Dame, Dijon
(França)

Homens de fé inabalável

Bem cônscios dessa realidade estavam os cristãos de Esmirna. Quando, pois, sobre eles se abateu o furor do populacho pagão sedento de sangue, que não poupava crianças nem anciãos, suplício algum foi capaz de abalar sua fé: desprezando as ameaças dos magistrados, dispunham-se a, por meio de um breve tormento, passar logo da vida terrena para a mansão da eterna felicidade.

Em carta dirigida “à Igreja de Deus estabelecida em Filomelio e a todas as igrejas católicas onde quer que estejam estabelecidas”,2 os esmirnenses narram detalhadamente o martírio de seu santo Bispo. Antes dele, foi aprisionado e conduzido ao anfiteatro um jovem chamado Germânico. Na iminência do suplício, o procônsul tentou com melífluas palavras movê-lo à apostasia:

— Já que desprezas todos os bens da terra, pensa ao menos em tua juventude, queima o incenso e tua vida será poupada…

Como única resposta, Germânico provocou as feras a avançarem logo contra ele, pois tinha pressa de conquistar o Reino dos Céus. A turbamulta pagã foi tomada de estupor ante tanta grandeza de alma, mas logo entre aquelas feras humanas ouviram-se furibundos gritos: “Tortura aos culpados! Procurem Policarpo!”

Nenhum suplício o levaria a renegar sua Fé

São Policarpo, varão de exímia prudência e sólido discernimento, decidiu esconder-se. Não por medo aos tormentos, pois almejava também ele derramar o sangue por amor a Cristo, mas por ser esta a providência mais adequada à situação. Andando de cidade em cidade, frustrou diversas vezes as esperanças de seus perseguidores. Certo dia, porém, submetendo a torturas um menino, conseguiram os esbirros que ele os conduzisse ao local onde então se encontrava o santo Bispo. Avisado a tempo, tinha ele ainda possibilidade de fugir para outra casa, mas preferiu ali permanecer: “Cumpra-se a vontade de Deus”, explicou. Desceu do andar superior e foi ao encontro dos soldados enviados a prendê-lo. Conversou serenamente com eles, ordenou ao pessoal da casa dar-lhes de comer, e fez-lhes um só pedido: um prazo para orar. Após duas horas de fervorosa prece, partiu com a escolta policial, montado num burrico, como o Divino Mestre.

Nas proximidades da cidade, encontrou-se com um magistrado que, com fingidas boas maneiras, tentou convencê-lo de que não havia mal algum em queimar um pouco de incenso aos ídolos. Tomado de indignação, o Santo replicou que nenhum suplício do mundo o levaria a tal infâmia: nem o fogo, nem a fome, nem atrozes cadeias de ferro, nem os açoites.

“Gloriar-me-ei em meus sofrimentos”

Com essa disposição de alma, entrou na arena do anfiteatro de Esmirna com passo firme, sobranceiro ao populacho. Levado perante o procônsul romano, menosprezou suas ameaças e fez uma destemida profissão de fé em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Propôs-lhe com blandiciosa voz o magistrado:

— Toma em consideração ao menos tua ancianidade… Não poderás resistir a tormentos capazes de aterrorizar os jovens… Jura pela fortuna de César, despreza a Cristo e serás posto em liberdade.

— Vou completar oitenta anos de idade e sempre proclamei o nome de Jesus e O servi. Jamais fui por Ele prejudicado; pelo contrário, Ele sempre me salvou. Como posso agora odiar a quem prestei culto, a quem considero bom, a quem sempre desejei que me favorecesse, a meu Imperador, meu Salvador, perseguidor dos maus e vingador dos justos?

Iluminado pelos preciosos ensinamentos de
Santo Inácio de Antioquia e alentado por seu
bom exemplo…
Santo Inácio de Antioquia sendo devorado pelas feras
Basílica de São Clemente, Roma

Após fazer mais algumas vãs tentativas, o procônsul ameaçou:

— Tenho feras terríveis às quais vou te arrojar e elas te despedaçarão, se não mudares de opinião.

— Pois então – respondeu o prelado – ceve-se em mim a sangrenta fúria dos leões. Gloriar-me-ei em meus sofrimentos e exultarei em minhas chagas. Quanto maiores forem os tormentos, mais esplêndido será o meu prêmio.

— Se com tal presunção continuas a desprezar os dentes das feras, serás queimado na fogueira.

Com inabalável firmeza, retrucou Policarpo:

— Ameaças-me com um fogo que arde durante uma hora e logo se apaga; ignoras os tormentos do fogo eterno, no qual arderão os ímpios. Mas, por que perder tempo com longos discursos? Faze comigo o que planejas ou submete-me a qualquer outro tipo de tormento que te ocorra.

Ateou-se o fogo, mas as chamas não o queimaram

Um resplendor da graça celeste inundava a fisionomia de Policarpo enquanto ele pronunciava estas palavras. O maravilhoso fato causou espanto até no procônsul, mas não o impediu de condenar o varão de Deus a ser queimado vivo.

Armou-se em pouco tempo a fogueira para o sacrifício final. Com a serenidade proporcionada pela boa consciência, São Policarpo desatou o cinto, tirou o manto e descalçou as sandálias. Quando quiseram os algozes amarrá-lo ao poste de ferro, conforme o costume e as prescrições legais, ele objetou:

— Deixai-me solto, pois Aquele que me deu a decisão dar-me-á também o poder de suportar o fogo ardente.

Limitaram-se, assim, a lhe atarem as mãos às costas. E o santo mártir, erguendo os olhos ao céu, fez em alta voz esta prece: “Deus dos Anjos, Deus dos Arcanjos, nossa ressurreição, perdão do pecado, reitor de todos os elementos e de toda habitação, protetor da linhagem dos justos que vivem em vossa presença: eu Vos bendigo por me terdes considerado digno de receber minha parte e coroa do martírio, princípio do cálice, por meio de Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo, a fim de que, concluído o sacrifício deste dia, receba as promessas de vossa verdade. Por isso Vos bendigo em todas as coisas e me glorio por meio de Jesus Cristo, Pontífice eterno e onipotente. Pelo qual a Vós, junto com Ele e o Espírito Santo, seja dada a glória agora e no futuro, pelos séculos dos séculos. Amém”.3

O carrasco ateou o fogo, elevaram- -se as labaredas e… ocorreu o milagre: as chamas formaram um arco curvado em seus lados, com as duas pontas um tanto dilatadas, à semelhança das velas de um navio, como que cobrindo com suave abraço o corpo do mártir. E esse corpo, como um gracioso pão sendo assado, ou como fundição de ouro e prata que brilha com formosa cor, deleitava a vista de todos. Além disso, um perfume como de incenso e mirra, ou de alguma outra essência preciosa, afastava todo mau odor do incêndio.

…pôde São Policarpo progredir continuamente nas
vias da santidade e, por fim, coroar com o martírio
seus quase cinquenta anos de ministério episcopal
Coliseu Romano, local onde aconteceram
numerosos martírios

Os fiéis celebram sua entrada no Céu

À vista de tamanho prodígio, os pagãos chegaram à conclusão de que aquele corpo era incombustível e ordenaram ao carrasco cravar nele o punhal. Feito isto, saiu do corpo do mártir uma pomba junto com a onda de sangue que jorrava, e o sangue apagou o incêndio.

Consumou-se assim, em 23 de fevereiro do ano 155, o martírio de São Policarpo. Por entre alas de incontáveis espíritos angélicos, elevou-se sua alma ao Paraíso para, aos pés da Rainha dos Mártires, receber a recompensa demasiadamente grande (cf. Gn 15, 1).

Por sua vez, os cristãos ali presentes começaram a se movimentar para retirar da arena o corpo do mártir, preciosíssima relíquia. Logo os agentes do demônio trataram de impedir a realização de tão legítimo desejo. À vista da acirrada disputa entre uns e outros, decidiu o centurião mandar queimar o corpo. E o relato do martírio conclui com esta tão singela quanto surpreendente informação dos fiéis da Igreja de Esmirna: “Recolhemos então seus ossos, como se fossem ouro e pérolas preciosas, e lhes demos sepultura. Em seguida, fizemos alegremente nossa reunião, como mandou o Senhor, para celebrar o dia natalício de seu mártir”.4

Zelo pela salvação das almas e horror à heresia

Como viveu esse varão de Deus que teve tão heroica e gloriosa morte?

Já dissemos acima que nasceu por volta do ano 69 da Era Cristã e foi discípulo do Apóstolo São João. Herdou de tão excelente mestre o zelo pela salvação das almas, o horror às doutrinas heréticas e o desejo de dar tudo pela Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Mestre dos mestres. E, por sua vez, formou numerosos discípulos que não lhe poupavam manifestações de veneração.

O mais famoso destes, Santo Irineu, Bispo de Lyon, demonstra como Policarpo aproveitou bem as lições do Apóstolo Virgem. Quando Florino, o qual fora também instruído na Fé pelo Bispo de Esmirna, apostatou e começou a propagar certas heresias, Santo Irineu lhe escreveu: “Essas opiniões não nos foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam e que conviveram com os Apóstolos. […] Posso dizer até o lugar onde se sentava o Bem-aventurado Policarpo para falar, como ele entrava e saía, seu modo de viver, seu aspecto físico, as preleções à multidão, como referia suas relações com João e com os outros que haviam visto o Senhor, como relembrava suas palavras e o que ouvira dizer a respeito do Senhor […]. E posso atestar diante de Deus que, se aquele presbítero bem- -aventurado e apostólico tivesse ouvido algo de semelhante [ao que dizes], teria exclamado e, tapando os ouvidos, proferido como costumava: ‘Ó Deus de bondade, para que tempo me reservaste, a fim de ter de suportar tais coisas?’ E teria fugido do lugar em que, sentado ou de pé, tivesse ouvido tais palavras”.5

E Santo Irineu não exagerava, pois São Policarpo não transigia quando se tratava da salvação das almas e da integridade doutrinária. Narra-se que, andando certo dia pelas ruas de Roma, ele topou inesperadamente com Marcião, cuja heresia causava nessa época grande mal à Igreja, e seguiu adiante como se não tivesse sequer visto o herege; este então, sentindo-se muito ferido em seu amor-próprio, o interpelou:

— O quê! Não me conheces?

— Sim, conheço, tu és o primogênito de satanás – retrucou Policarpo.

Sempre ensinou o que dos Apóstolos aprendera

Em sua famosa obra Contra as heresias, Santo Irineu relembra o quanto São João Evangelista detestava a companhia dos propagadores de doutrinas heréticas: algumas pessoas, narra ele, ouviram São Policarpo contar que São João entrou certo dia nas termas de Éfeso e lá encontrou o heresiarca Cerinto, um dos líderes do antigo gnosticismo. Saltou então imediatamente para fora do estabelecimento, dizendo: “Fujamos, de medo que o edifício desabe sobre nós, pois dentro dele está Cerinto, o inimigo da verdade!”6

Discípulo de São João, herdou o zelo pela
salvação das almas, o horror às doutrinas
heréticas e o desejo de dar tudo pela Igreja
São João Evangelista e São Policarpo
Museu Nacional do Hermitage,
São Petersburgo (Rússia)

Após acentuar o fato de que seu mestre, além de ter sido instruído pelos Apóstolos, conviveu com numerosos contemporâneos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Santo Irineu dá de São Policarpo este valioso testemunho: “Eu o vi na minha primeira juventude. […] Ora, ele sempre ensinou o que aprendera dos Apóstolos, esta doutrina que também a Igreja transmite e que é a única verdadeira. Este fato, todas as Igrejas da Ásia e todos os sucessores de Policarpo o atestam. Esse homem é um testemunho da verdade muito mais seguro e digno de fé do que Valentino, Marcião e todos os seus símiles”.7

Alentado pelo exemplo de Santo Inácio de Antioquia

Segundo consta, São Policarpo assumiu a sé episcopal de Esmirna por volta do ano 100. Certamente isso se deu antes de ele completar quarenta anos de idade, pois já era o Bispo da cidade quando por lá passou no ano 107 outro ilustre mártir dos Tempos Apostólicos, Santo Inácio de Antioquia. Policarpo foi um dos muitos que, transidos de veneração, oscularam as cadeias desse grandioso varão que só almejava uma coisa: ser o trigo de Cristo, ser triturado pelos dentes das feras como o trigo é triturado no moinho para se tornar o pão que na Ceia Eucarística se transubstancia no Corpo de Cristo.

O venerável ancião começa com um grande elogio sua carta ao então jovem epíscopo: “Tendo provas de teu espírito piedoso, fundado sobre rocha inabalável, elevo grandes louvores por ter sido digno de ver teu santo rosto”.8 E prossegue dando-lhe sábios conselhos que, muito provavelmente, lhe foram solicitados por São Policarpo.

Iluminado assim pelos preciosos ensinamentos de Santo Inácio de Antioquia e alentado por seu bom exemplo, pôde São Policarpo progredir continuamente nas vias da santidade e, por fim, coroar com o martírio seus quase cinquenta anos de ministério episcopal. (Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2019, n. 206, p. 32-35)

1 SÃO JUSTINO. Diálogo com Trifão, 110, apud RUIZ BUENO, Daniel (Ed.). Actas de los mártires. 5.ed. Madrid: BAC, 2003, p.264. 2 MARTÍRIO DE SÃO POLICARPO. Versão antiga latina, n.1. In: RUIZ BUENO, op. cit., p.265. 3 Idem, n.12, p.275. 4 Idem, n.14, p.277. 5 SANTO IRINEU DE LYON. Carta a Florino, apud EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. L.V, c.20, n.4; 6-7. São Paulo: Paulus, 2014, p.159-160. 6 SANTO IRINEU DE LYON. Contra as heresias. L.III, c.3, n.4: PG 7, 853. 7 Idem, n.4, 852. 8 SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA. Carta a Policarpo. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave-Maria, 2000, v.III, p.510.

 
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