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Voz dos Papas


“Minhas palavras não passarão”
 
AUTOR: REDAÇÃO
 
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Só a Igreja une o que está dividido, reordena o que está confuso, modera as desigualdades, elimina as imperfeições. Ninguém pode governar bem as coisas terrenas se não aprendeu a cuidar das divinas.

Apraz-nos certamente, Veneráveis Irmãos, a recordação desse grande e incomparável varão, o Pontífice Gregório, primeiro a adotar este nome, de cuja morte vamos celebrar o décimo terceiro centenário. Não sem um especial desígnio de Deus, que “dá a morte e a vida, […] que humilha e exalta” (I Sm 2, 6-7), voltaremos os olhos para este santo e ilustre Predecessor nosso, glória e ornamento da Igreja. […]

Sabemos que o Santo Pontífice, cheio de humildade, não atribuía a méritos próprios sua perícia para resolver os problemas, sua habilidade para conduzir a bom termo os empreendimentos, sua admirável prudência nas decisões, sua diligente vigilância e seu constante zelo.

Beau Dieu – Catedral de Notre-Dame d’Amiens (França)

É também evidente que não cobiçou a força e o poder, como os reis deste mundo, aquele que, elevado à sublime dignidade pontifical, foi o primeiro a se denominar “Servo dos servos de Deus”. Nem procurou desempenhar seus encargos servindo-se apenas da ciência profana ou das persuasivas palavras da humana sabedoria (cf. I Cor 2, 4), nem guiou sua prudência por considerações políticas, nem se esforçou em estudar detidamente os meios de melhorar a sociedade, para em seguida pô-los em prática. Nem sequer – e isto é surpreendente – procurou se propor um vasto programa de ação apostólica para ser gradualmente executado […].

Sendo fraco e delicado de corpo, acossado por longas enfermidades que às vezes o levaram à beira da morte, tinha, entretanto, uma incrível força de espírito, constantemente renovada por sua viva fé na palavra infalível e nas divinas promessas de Cristo. Tinha também plena confiança no divino poder recebido pela Igreja para cumprir bem seu ministério na terra.

Nunca faltou à Igreja a força divina

A meta única de toda a sua vida, tal como nos revelam seus atos e palavras, foi a de fomentar em seu próprio coração, e suscitar nos outros, essa fé e essa confiança. E até o último dia de sua existência procurou fazer todo o bem que as circunstâncias lhe permitiam.

Donde a firme decisão desse homem de Deus de pôr a serviço da salvação de todos os superabundantes recursos dos dons divinos com os quais o Senhor enriqueceu sua Igreja: a certíssima verdade da doutrina revelada; sua eficaz pregação pelo mundo inteiro; os Sacramentos, que têm o poder de produzir ou de aumentar em nós a vida da alma; por fim, a graça da oração em nome de Cristo, seguro penhor da proteção celeste.

Muito nos reconforta a recordação de tudo isto, Veneráveis Irmãos. Pois, quando dos altos muros do Vaticano nosso olhar percorre o mundo, não podemos evitar um temor semelhante ao de Gregório, ou talvez maior, tantas são as tempestades que nos assediam, tantos os exércitos inimigos que nos pressionam, de tal maneira estamos desprovidos de socorro humano, que não temos meios de reprimi-los nem de resistir a seus ataques.

Entretanto, considerando o solo firme da Sé Pontifícia, nós nos sentimos em plena segurança na cidadela da Santa Igreja. Com efeito – escreveu Gregório a Eulógio, Bispo de Alexandria –, quem não sabe que a Santa Igreja está firmemente estabelecida sobre o sólido fundamento do Príncipe dos Apóstolos, cujo nome indica a tenacidade de sua alma, pois é da comparação com a pedra que ele recebeu o nome de Pedro?

Nunca, na sucessão das eras, faltou à Igreja a força divina! Jamais as promessas de Cristo traíram sua expectativa; elas permanecem tais como eram quando fortaleciam a coragem de Gregório; elas nos parecem mais consolidadas ainda, pela provação de tantos séculos, vicissitudes e acontecimentos.

“Passarão o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão”

Os impérios e os reinos desmoronaram; desapareceram povos célebres pela glória de sua civilização; vemos se desagregarem nações, como que esgotadas pela velhice. A Igreja, porém, fiel à sua própria natureza, sem romper jamais o laço que a une a seu celestial Esposo, vive até hoje como uma flor de perene juventude, sustentada pela força que provém do Coração transpassado de Cristo morto na Cruz.

Contra ela se ergueram os potentados da terra, mas eles se evaporaram, ela permanece! Inflados de orgulho, os mestres da sabedoria imaginaram uma variedade infinita de sistemas que deviam, julgavam eles, abalar o ensino da Igreja, destruir os dogmas de sua Fé, demonstrar o absurdo de seu Magistério… Mas a História nos mostra esses sistemas relegados ao esquecimento, em total ruína, enquanto, do alto da cidadela de Pedro, a verdadeira luz brilha com todo o esplendor que Cristo lhe comunicou desde sua origem e alimenta segundo esta divina sentença: “Passarão o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão” (Mt 24, 35).

Pela força dessa Fé solidamente estabelecida sobre a rocha de Pedro, abarcamos com o olhar de nossa alma, de um lado, os pesados encargos do Sumo Pontificado, de outro, o poder divino que nos sustém, e esperamos tranquilamente extinguirem-se as vozes daqueles que blasonam que a Igreja Católica está ultrapassada, que suas doutrinas se colapsaram, que logo ela será obrigada a se conformar aos dados de uma ciência e de uma civilização sem Deus ou a sair da sociedade humana.

Somente a Igreja reordena o que está confuso

Enquanto aguardamos, temos o dever de recordar a todos, grandes e pequenos – como procedeu outrora o Santo Pontífice Gregório –, a necessidade absoluta de recorrer à Igreja para alcançar a eterna salvação, para obter a paz e até mesmo a prosperidade nesta vida terrena.

Portanto, como dizia aquele Santo Pontífice, orientai os passos de vossa alma, como fizestes desde o início, rumo à segurança dessa rocha sobre a qual, como sabeis, nosso Redentor fundou a Igreja no mundo inteiro, de maneira que os corações sinceros regulem por ela seus passos e não se desviem por caminhos equivocados.

Só a caridade da Igreja e a união com ela une o que está dividido, reordena o que está confuso, modera as desigualdades, elimina as imperfeições. Lembrem-se: ninguém pode governar bem as coisas terrenas se não aprendeu a cuidar das divinas; e a paz do Estado depende da paz da Igreja universal. Donde a extrema necessidade de uma perfeita concórdia entre a Igreja e o poder secular, pois, conforme à vontade da Divina Providência, devem prestar-se mútuo concurso.

Com efeito, provém do Céu a autoridade sobre todos os homens a fim de que sejam ajudados aqueles que procuram o bem, se alargue o caminho da glória celeste e o reino da terra sirva o Reino do Céu.

Destes princípios resultava para Gregório aquela invencível força que, com a ajuda de Deus, trataremos de imitar, propondo-nos defender a todo custo os direitos e prerrogativas dos quais o Pontificado Romano é guardião e reivindicador diante de Deus e dos homens. (Revista Arautos do Evangelho, Setembro/2019, n. 213, p. 06-07)

Excertos de: SÃO PIO X. Iucunda sane, 12/3/1904

 
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