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“Overdose” digital e amor a Deus
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 23/07/2020
 
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Grande número de estudiosos afirma que a tecnologia é nossa nova droga. Vivemos com a “cabeça baixa” diante da tela. Urge encontrar um meio de nos desconectarmos, se realmente queremos construir uma sociedade melhor.

Redação (19/07/2020 11:36, Gaudium Press) Na segunda metade do século passado, assistimos a um fenômeno inédito na História. O salão principal da casa, outrora destinado à conversa, passou a ser presidido por uma máquina: o aparelho de televisão. E a ditadura exercida por este engenho técnico era tal que chegou a ser chamado de “rei da família”. Sua presença desbancou o personagem em torno do qual se organizava o convívio nos lares: o pai, o patriarca, ou, muitas vezes também, a matriarca.

Recebido inicialmente com alegria, o novo “rei” causou sérias preocupações ao se perceber que ele criava dependência. Constatou-se, por exemplo, que um menino podia passar mais de seis horas diárias embasbacado frente à tela. Para falar só das crianças…

Buscando a “desintoxicação digital”

Em nossos dias, o progresso da tecnologia apequenou as telas, e estas não permanecem mais na sala principal da casa ou em outros cômodos. Estão em nossas mãos! E os programas de TV deram passagem a uma realidade ainda mais invasiva e absorvente: a internet.

O correio eletrônico, as mensagens, as redes sociais se transformaram numa autêntica rede que nos enreda. Sentimo-nos obrigados a estar permanentemente conectados, até quando estamos nos recolhendo para descansar. É preciso opinar, é preciso responder aquele comentário, é preciso mostrar que fazemos parte daquela comunidade virtual, composta inclusive por desconhecidos.

Em documentado artigo intitulado Apologia da desconexão, o escritor Federico Kukso nos alerta contra o grave problema da dependência digital, recorrendo a citações de estudiosos contemporâneos, como o filósofo coreano Byung-Chul Han, o qual afirma: “O ‘gostei’ é o amém digital. […] A hipercomunicação digital destrói o silêncio necessário à alma para refletir e ser ela mesma”.

O artigo menciona também alguns dos muitos movimentos que hoje lutam pela “desconexão”. Entre eles está a ONG Reboot (Reinício), que promove uma “desintoxicação digital parcial” através do “dia da abstinência digital”, a ser realizado uma vez por ano. Nesse dia, milhares de pessoas do mundo inteiro se comprometem a desligar seu celular e seu computador durante vinte e quatro horas e “conectar-se com seus entes queridos, passear ao ar livre e desfrutar do silêncio”.

Outro movimento, The Digital Detox Manifesto (Manifesto de desintoxicação digital), nos adverte: “Estamos globalmente mais conectados do que nunca, mas a vida da era digital está longe de ser ideal. A pressão cultural para a todo momento verificar as mensagens e ler as notícias amiúde nos oprime e decepciona, sem dar-nos tempo para respirar. As coisas devem mudar”.

A tecnologia é a nossa nova droga

Segundo preocupantes dados estatísticos, no Reino Unido a metade dos adultos admitem estar “completamente enganchados” em seus telefones “inteligentes”, e oitenta por cento reconhecem que verificar as mensagens recebidas é a primeira atividade do dia. O problema, portanto, não é estar conectado com o mundo, mas voltar a conectar-se consigo mesmo, a fim de abrir um espaço para Deus e nossos seres queridos.

Importantes psicoterapeutas alertam que estamos em presença de um novo vício. Federico Kukso destaca, a este propósito, a opinião de Nancy Colier, autora da obra O poder do desconectado: modo consciente de permanecer sadio num mundo virtual. Afirma ela com contundência: “A tecnologia é nossa nova droga. Estamos digitalmente bêbados”.

Kukso informa também o resultado de um estudo realizado pelo Centro Internacional de Meios de Comunicação e Assuntos Públicos, em conjunto com a Academia de Salzburgo: a maioria de mil universitários consultados em dez países “considera que os celulares se converteram literalmente em parte de seus corpos”. Para eles, portanto, ficar privado do celular seria como perder parte de si mesmo.

Fabrizio Piciarelli, outro periodista, nos faz uma expressiva advertência: “Muitos de nós passamos mais tempo com a mente voltada para o smartphone do que com os olhos voltados para o céu ou mirando outros olhos. […] Se não prestarmos atenção, correremos o risco de cair na cilada da dependência do celular e da overdose digital”.

Internet não é a solução para os nossos problemas

Manfred Spitzer, catedrático de Psiquiatria, especialista em Neurociência e autor do livro Demência digital, crê que os consumidores das novas tecnologias se tornarão incapazes de reter dados na memória, perderão a capacidade básica de reflexão e a habilidade de comunicar-se face a face. Em entrevista ao diário madrileno ABC, ele exorta os usuários da nova tecnologia a não permitir que os dispositivos eletrônicos substituam o trabalho cerebral. “Como o cérebro é preguiçoso e prefere o interativo ao papel, a pessoa começa a clicar mais do que a ler. Ler é bom, clicar não. Ler supõe esforço, clicar não”, explica ele.

Albert Domènech, do periódico La Vanguardia, de Barcelona, nos informa que psicólogos e sociólogos “dão luz verde” a estudos recentes segundo os quais aumenta cada vez mais o número de pessoas que sofrem de esgotamento virtual e que decidiram desprender-se das redes sociais “para recuperar benefícios emocionais”. E acrescenta a opinião de um especialista, Enric Puig, autor do livro A grande dependência, que reflete a desconfiança de não poucas pessoas: “Cada vez mais gente se dá conta de que a internet não é a solução para seus problemas, ao contrário, em muitos casos é um problema a mais. As redes sociais não são ferramentas neutras, mas sim uma plataforma carregada ideologicamente e que gera dependência”.

Os norte-americanos batizaram de phubbing o ato de usar o smartphone enquanto se conversa com outra pessoa. Palavra sintomaticamente formada da união das letras iniciais de phone e das letras finais da fórmula verbal snubbing (desdenhando). Edith Cortelezzi, autora do livro Boas maneiras, bons negócios, denomina “síndrome da cabeça baixa” esta demonstração de falta de educação existente em todos os países do Ocidente, e comenta: “A tecnologia nos fez esquecer regras básicas de cortesia, como a de fitar os olhos da pessoa com a qual falamos”.

* * *

Ut mentes nostras ad cælestia desideria erigas – Elevai nossas mentes ao desejo dos bens celestes”: com esta breve prece, a Santa Igreja nos convida a enfrentar com eficácia esta “ameaça das telas”, que interfere poderosamente na nossa relação com Deus nosso Senhor e com o próximo.

Pensemos nos Novíssimos, elevemos nossas cogitações às coisas celestiais, e veremos quão fácil resulta fitarmos os nossos interlocutores com amor cristão. Pois, como dizia uma virtuosa dama brasileira, Lucilia Corrêa de Oliveira, “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”. Se evitarmos abaixar as nossas cabeças diante das telas, levantarmos o olhar para conviver com os outros e nos quisermos bem, teremos feito algo de muito importante em favor da nossa tão tresmalhada sociedade.

Pe. Fernando Néstor Gioia Otero, EP

Texto extraído da revista Arautos do Evangelho.  Setembro 2017

 
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