Longe estava, porém, este grande Santo de contentar-se com uma mera obra social limitada à prestação de ajuda material a crianças e adolescentes “em situação de risco”, como se diz em nossos dias. Seu objetivo era muito mais elevado: dar sólida formação cristã a esses jovens, obstruir-lhes as aliciantes vias do pecado e fazer brilhar ante seus olhos, pela pregação e pelo exemplo, as virtudes que nos tornam felizes nesta Terra e nos conduzem ao Céu. Em outras palavras: conquistar almas para Deus e para a Igreja.
Não sem motivo, pois, ele tomou por lema esta famosa frase que a Família Salesiana ostenta em seu brasão: “Da mihi animas, cætera tolle – Dai-me almas, Senhor, e levai o resto”. Somente à luz desta divisa se pode compreender a imensa obra de apostolado levada a cabo por São João Bosco.
Seu esforço para incentivar os jovens à prática das virtudes, em neles incutir, para isso, a necessidade da oração e da frequência aos Sacramentos, as horas e horas despendidas no atendimento de Confissões, dão eloquente testemunho de quanto ele tomava a sério seu lema. O texto transcrito a seguir, de sua autoria, é um de centenas de exemplos nesta matéria.
Não estás no mundo apenas para gozar
Considera, meu filho, que Deus te criou à sua imagem, deu-te um corpo e uma alma, sem mérito algum de tua parte. Depois, pelo santo Batismo, fez-te seu filho, amou-te e te ama com ternura de pai. Foste criado com o fim único de amá-Lo e servi-Lo nesta vida e ser eternamente feliz com Ele, no Paraíso.
Portanto, não estás no mundo apenas para gozar, nem para ficar rico, nem para comer, beber e dormir como os animais; tens uma finalidade muito mais nobre e sublime: amar e servir a Deus, e salvar tua alma.
Se fizeres isto, quantas consolações sentirás na hora da morte! Mas se não te esforçares para servir a Deus, quantos remorsos te assaltarão no fim da vida! As riquezas e os prazeres tão procurados servirão apenas para amargurar teu coração, pois então verás os danos que eles causaram à tua alma.
Muito cuidado, meu filho, para não seres daqueles que só pensam em satisfazer o corpo com más ações, palavras e diversões, pois na última hora eles se verão em grande risco de serem lançados no inferno. Um secretário do rei da Inglaterra disse ao morrer: “Ai de mim! Gastei tanto papel escrevendo as cartas do meu rei e nunca usei uma folha sequer para anotar meus pecados e fazer uma boa Confissão!”.
Maior importância terá a teus olhos esta finalidade se considerares que dela depende tua eterna salvação ou perdição. Se salvares tua alma, tudo estará bem, serás sempre feliz; se não a salvares, perderás a alma e o corpo, Deus e o Paraíso, e estarás condenado por toda a eternidade.
Odeia e abandona já o pecado
Não imites os infelizes que se iludem, dizendo: “Cometerei este pecado, mas logo me confessarei”… Não te enganes assim a ti mesmo, pois Deus amaldiçoa quem, para poder pecar, se apoia na esperança do perdão: Maledictus homo qui peccat in spe. Todos aqueles que estão no inferno tinham esperança de se converter mais tarde… e lá estão perdidos para sempre.
Como podes saber se terás mesmo tempo de confessar? Quem te garante que não morrerás logo após o pecado e tua alma não será, assim, precipitada no inferno? Além disso, haveria loucura maior do que alguém abrir em seu corpo uma chaga, com a esperança de depois encontrar um médico para curá-la? Rejeita, pois, a falaciosa ilusão de converter-se mais tarde; odeia e abandona já o pecado, que é o sumo mal e que, afastando-te de teu fim último, te priva de todos os bens.
|
|
| São João Bosco distribuindo pães aos seus “birichini” - Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo |
Se perder a alma, perderei tudo!
Tu, porém, ó jovem católico que lês esta consideração, não te deixes enganar assim pelo demônio.
Promete agora ao Senhor que doravante tudo quanto pensares, disseres ou fizeres será para a salvação de tua alma. Pois cometerias a maior loucura ocupando-te tanto daquilo que logo passa e tão pouco da eternidade. São Luís podia usufruir todos os prazeres, riquezas e honras, mas renunciou a tudo, dizendo: “Quid hoc ad æternitatem? – De que me serve isto para a vida eterna?”.
Tira também tu esta conclusão: “Tenho uma alma. Se perdê-la, perderei tudo! Que me aproveita ganhar o mundo inteiro, mas perder minha alma (cf. Lc 9, 25)? Se chegar a ser um potentado, um milionário, se conquistar a fama de sábio em todas as ciências e artes, mas perder minha alma, de que me servirá tudo isso?”.
Nada vale para ti toda a sabedoria de Salomão se te condenares. Faze, portanto, este raciocínio: “Fui criado por Deus para salvar minha alma e quero salvá-la a qualquer custo; quero que de futuro o único escopo de minhas ações seja o de amar a Deus e salvar minha alma. Trata-se de ser sempre feliz ou sempre infeliz. Nada me interessa, portanto, a não ser minha salvação!”. E esta oração: “Perdoai, ó Deus, meus pecados e fazei que nunca mais me aconteça a desgraça de Vos ofender. Ajudai-me, com vossa santa graça, a Vos amar e servir fielmente de ora em diante. Maria, minha esperança, rogai por mim”.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 296, Agosto 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 295, Julho 2026
Quem são os Arautos do Evangelho?
Auxílio dos Cristãos
Músicas Natalinas
