Se há alguma coisa de que podemos ter certeza nesta vida é que Deus não abandona os seus eleitos.

Sua Divina Providência jamais deixa a Santa Igreja desamparada. Por mais tempestuosa que seja a época, por mais fortes que sejam os ventos que se levantem contra a sua Sagrada Nau, Deus suscita os homens de que ela necessita para cumprir sua missão.

Foi assim no século XVI. Enquanto a revolta de Lutero abalava a Cristandade e a Igreja atravessava uma das mais graves crises de sua história, a Providência suscitou numerosos Santos para a renovação da vida cristã.

Entre eles, brilhou de modo particular São Filipe Néri, o Apóstolo de Roma, cuja santidade, marcada pela alegria, pela caridade e pelo zelo pelas almas, haveria de exercer profunda influência na renovação da Igreja.

Época de acontecimentos

São Filipe Néri nasceu em 1515, apenas dois anos antes da eclosão pública da Reforma Protestante, iniciada na Alemanha com a atuação de Martinho Lutero.

O futuro Pe. Néri cresceria, portanto, em meio às profundas convulsões religiosas que agitavam a Cristandade: a ruptura de Lutero, a disseminação de suas doutrinas e a progressiva divisão de povos, cidades e reinos que acompanhou o nascimento das diversas comunidades protestantes.

Entre os pontos centrais da controvérsia estava a doutrina da justificação. Lutero afirmava que o homem é justificado pela fé e que as boas obras não são a causa da justificação, mas fruto dela. Essa concepção estava ligada à sua compreensão da graça, da natureza humana e da incapacidade do homem de alcançar por suas próprias forças a justiça diante de Deus.

É nesse contexto que se encontra também uma das expressões mais conhecidas de Lutero, escrita em uma carta a Filipe Melanchthon, em 1521: Pecca fortiter, sed crede fortius – “Peca corajosamente, mas crê ainda mais fortemente”.

A frase, tomada em seu contexto, não constitui um convite simplesmente a pecar, mas exprime de modo extremo a confiança que Lutero depositava na justificação pela fé e na misericórdia de Cristo.

Ao mesmo tempo, sua teologia da predestinação apresentava a salvação como dependente da eleição divina, e não dos méritos ou das obras do homem. Essas questões suscitariam graves controvérsias sobre a graça, a liberdade humana e a segurança da salvação.

No século seguinte, dentro do próprio mundo católico, surgiria outra corrente marcada por uma compreensão rigorista da graça e da predestinação: o jansenismo.

Cornélio Jansênio nasceu em 1585, muito depois do início da Reforma, e morreu em 1638. Sua principal obra, o Augustinus, publicada somente depois de sua morte, em 1640, procurava apresentar sua interpretação da doutrina de Santo Agostinho sobre a graça e a predestinação. O movimento que se desenvolveu a partir de suas ideias alcançaria particular importância na França e nos Países Baixos.

O jansenismo acentuou de tal modo a necessidade da graça e a dificuldade da condição humana depois do pecado que sua espiritualidade assumiu, em determinados ambientes, um caráter de grande rigorismo moral e ascético.

Entre a presunção e o desespero, entre a confiança deformada e o rigor que podia esmagar a alma, a Igreja continuava a anunciar uma verdade diferente: a graça de Deus não destrói a liberdade humana, mas a cura e a eleva; e a vida cristã não é vivida sob o signo do medo, mas da esperança.

É nesse ambiente que a figura de São Filipe Néri ganha todo o seu relevo.

Peça-chave na resposta de Deus

Nosso Senhor, que jamais abandona a sua Igreja, suscitou ao longo dos séculos Santos que combateram os erros doutrinários e contribuíram para a renovação da vida cristã.

No século XVI, destacou-se entre eles Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, cuja obra teve papel importante na Reforma Católica.

A espiritualidade inaciana procurava unir a confiança absoluta na graça divina ao empenho concreto na vida cristã.

Nesse sentido, ressoa o ensinamento de São Tiago: “A fé sem obras é morta” (Tg 2, 26). A vida de fé não comporta nem a presunção de quem julga dispensáveis as boas obras, nem o desespero de quem perde a esperança na misericórdia de Deus.

Mas a renovação da Igreja não se faria apenas pela refutação dos erros doutrinários. O homem não é movido somente pelas ideias: também sua sensibilidade precisa ser educada e elevada pela graça. E, nesse campo, a Providência fez brilhar uma figura singular: São Filipe Néri, conhecido como o Apóstolo de Roma.

Antes mesmo de receber a ordenação sacerdotal, Filipe já se dedicava intensamente à oração, à caridade e à formação espiritual das pessoas que encontrava. Entre suas iniciativas mais conhecidas esteve a promoção das peregrinações às Sete Igrejas de Roma, nas quais reunia grupos de fiéis para visitar os grandes santuários da Cristandade romana.

Nessas caminhadas, a piedade não excluía a alegria. Filipe sabia aproximar-se dos jovens com histórias, brincadeiras e um humor capaz de desfazer tensões e conquistar os corações. Sua alegria, porém, não significava indiferença diante do pecado. Ao contrário, procurava conduzir as pessoas a Deus sem confundir santidade com sisudez.

Por isso, quando alguns se escandalizavam com a animação dos jovens que o acompanhavam, respondia, segundo a tradição biográfica: “Deixai-os, contanto que não pequem; não estão fazendo nada de errado!”

Em outra ocasião, dois sacerdotes do Oratório se desentenderam gravemente e se recusavam a reconciliar-se. Filipe chamou-os e, em nome da obediência, mandou que cada um cantasse e dançasse uma música para o outro. A situação inusitada desarmou os ânimos e contribuiu para a reconciliação.

São Filipe Néri compreendia que a alegria cristã não é superficialidade, mas fruto de uma vida orientada para Deus. Sua maneira de agir mostrava que a virtude não precisa tornar o homem carrancudo nem a disciplina espiritual sufocar a verdadeira alegria.

Sua vida pode, assim, ser contraposta ao rigorismo religioso que se manifestaria posteriormente em determinados ambientes jansenistas. Não porque Filipe tivesse combatido historicamente o jansenismo – que surgiu depois de sua morte, em 1595 –, mas porque sua espiritualidade oferece um testemunho expressivo da alegria que nasce da confiança em Deus.

A observância dos Mandamentos não nos escraviza: ordena a liberdade para o bem. A graça não nos convida ao desespero, mas à esperança; não elimina a luta espiritual, mas nos dá forças para perseverar nela.

Que São Filipe Néri nos ajude a viver essa alegria, fundada não na ausência de dificuldades, mas na presença de Deus. Como exorta São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4, 4).