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Contos Infantis


Um sino à meia-noite!
 
AUTOR: IR. MARY TERESA MAC ISAAC, EP
 
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Yves mal conseguia respirar e oferecia a Jesus sua vida para que a Religião pudesse voltar a ser praticada em sua pátria. Foi então que ocorreu o milagre…

Corria o ano de 1793. Acampados numa clareira da floresta, os soldados da brigada republicana aqueciam-se em torno da fogueira naquela noite de inverno. Apesar do frio intenso estavam satisfeitos, pois no dia anterior, 23 de dezembro, em Savenay, próxima do rio Loire, haviam derrotado o exército dos insurgentes: os camponeses das regiões da Vandeia e da Bretanha. As autoridades de Paris, as mesmas que faziam funcionar a guilhotina nas praças das principais cidades, decretaram a supressão dos ditos revoltosos e na batalha de Savenay tal objetivo parecia ter sido alcançado.

Por isso as tropas vencedoras entregavam-se a festejos, regados com abundante aguardente. Se apanhavam algum inimigo remanescente, aproveitavam para desforrar-se dele com desumano requinte de maldade. Mas eis que um prisioneiro inesperado foi apresentado ao comandante

— Capitão, capturamos um combatente do exército da Vandeia! Ele diz ser ajudante de campo de Henri de la Rochejaquelein, generalíssimo das hostes adversárias.

Sem deixar de aquecer as mãos junto ao fogo, o oficial levantou os olhos, nos quais luziu rapidamente um fulgor sinistro:

— Trazei-o aqui! – exclamou.

O militar teve que disfarçar a surpresa. Não esperava uma resposta
tão convicta e ufana dos lábios de um campônio

Os dois soldados se afastaram para logo voltar trazendo aos empurrões um camponês coberto de farrapos, com as roupas manchadas de barro e sangue, tendo as mãos atadas com uma corda. Sobre sua camisa destacava-se uma efígie do Sagrado Coração de Jesus. Ao ver aquele prisioneiro, tão jovem que parecia uma criança, o capitão soltou uma sonora gargalhada…

— Como te chamas, pirralho? – indagou com desprezo.

— Yves – respondeu o menino sem se intimidar.

— E quantos anos tens?

— Catorze!

— Então, conta-me! O que fazias junto ao bando de revoltosos? E por que não ficaste em casa com tua mãe?

— Há quase um ano que os sinos de minha paróquia não soam mais o Angelus, há muitos meses que o nosso pároco se viu forçado a desaparecer para não ser morto! Não temos mais Missas em nossa aldeia, nossa igreja está fechada, as imagens quebradas, os altares vazios, a Religião proibida… Somos obrigados a nos esconder para recitar o Rosário ou cantar um Salmo! Achais que tenho poucas razões para lutar? Foi isso – tão só isso! – o que me moveu a abandonar minha mãe e meus irmãozinhos, meu lar e minha horta, para servir junto a meu senhor, Henri de la Rochejaquelein. Eu ajudo a cuidar de seu cavalo, sua sela e seus arreios. Também o auxilio na limpeza das armas, e disto me sinto muito orgulhoso!… 

O militar teve que disfarçar a surpresa. Não esperava uma resposta tão convicta e ufana dos lábios de um campônio. Um tanto abalado, quase comovido diante de tanta firmeza, disse em tom mais suave: 

— Vamos, tu és muito novo ainda! Não percas teu tempo! Tens um belo futuro pela frente! Se fosses mais velho, mandaria fuzilar-te de imediato. Porém, em atenção à tua pouca idade, te deixarei em liberdade, desde que jures não mais tornar à guerra e voltar para casa! 

— É inútil! Aceitar vossa proposta seria para mim o mesmo que renegar minha Fé! Só voltarei para junto de minha família quando nos devolverdes nossa igreja e nossos bons padres, e nos permitirdes rezar em paz! 

— Sabes que tenho poder para te matar agora? 

— Minha vida já está oferecida a Jesus há muito tempo! De que me adiantaria viver se não for para servi-Lo? 

Em meio à escuridão, sob o vento gélido que sacudia as árvores ressequidas, o rapazinho se afastou em direção ao alegre repicar

Desta vez, o capitão ficou visivelmente embaraçado: o olhar límpido daquele inocente o incomodava. Não porque suplicasse clemência, senão porque parecia censurar o crime que ele maquinava cometer. 

Ao mesmo tempo, sucessivas recordações avolumavam-se em sua memória: viu-se criança aprendendo a rezar a Ave-Maria; reviveu o dia de sua Primeira Comunhão e as inúmeras experiências como coroinha em sua longínqua paróquia do sul da França! Quantos momentos de felicidade que só a prática da Religião pode proporcionar!… Tal felicidade o pequeno Yves, embora algemado como um vil cativo, a possuía. 

Estava prestes a ceder… Entretanto, encontrou os olhares de seus subalternos que o fitavam com insistência. Se fraquejasse, decerto seria por eles denunciado aos superiores por ter deixado escapar um inimigo da pátria! 

O medo, o apego à carreira apenas iniciada e o respeito humano gritaram mais alto em seu coração endurecido pelo orgulho. Era preciso executar o jovem e tornava-se imperioso fazê-lo de forma exemplar, para evitar que a tropa duvidasse de sua fidelidade à causa revolucionária. Enraivecido contra si mesmo, sentenciou com voz cortante: 

— Enforcai-o e acendei uma fogueira debaixo de seus pés!

Um murmúrio percorreu as fileiras dos milicianos. Eles, sempre tão cruéis, não esperavam tal veredicto contra alguém que era quase um menino! Contudo, o efetuaram com prontidão. 

Em poucos instantes Yves balançava-se no ar, respirando com dificuldade e encolhendo as pernas sob o ardor das chamas que já começavam a queimá-lo! 

— Meu Jesus! – exclamou num sussurro – Divino Filho de Maria, tende piedade de mim e dai-me forças! Possa meu sangue ser-Vos agradável! Tudo eu Vos ofereço para que a Religião volte a ser praticada… 

A voz já lhe falhava e ele continuava:

— Que os sinos novamente repiquem no alto das torres… 

Foi então que ocorreu o milagre: ao longe, mas nítido e cristalino, ouviu-se o bimbalhar de um sino! Era meia-noite de 24 para 25 de dezembro e na aldeia próxima um punhado de fiéis, desafiando as férreas proibições revolucionárias, celebrava o Natal… Apesar do perigo, arriscavam a tocar aquele som argênteo que recordava uma verdade imortal: Jesus nasceu em Belém para redimir os homens! Todos se entreolharam… Não podendo mais resistir, o capitão bradou com voz comovida: 

— Soltai o menino! 

Os guardas se apressaram em obedecer e o oficial disse a Yves:

— Corre! Vai-te embora depressa! Não podes perder a Missa do Galo! 

Em meio à escuridão, sob o vento gélido que sacudia as árvores ressequidas, o rapazinho se afastou em direção ao alegre repicar. Seu testemunho de fé e de amor, todavia, deixara uma marca indelével nos corações daqueles rudes militares, como semente fecunda de eterna salvação.

 
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