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Comentários ao Evangelho


A arte de fazer amizades para o Céu
 
AUTOR: MONS. JOÃO SCOGNAMIGLIO CLÁ DIAS, EP
 
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Por meio de uma parábola perplexitante, Nosso Senhor nos ensina o modo mais sapiencial de lidar com os bens que a Providência pôs sob a nossa administração nesta vida.


Naquele tempo, 1 Jesus dizia aos discípulos: “Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens. 2 Ele o chamou e lhe disse: ‘Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar meus bens’. 3 O administrador então começou a refletir: ‘O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. 4 Ah! Já sei o que fazer, para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração’. 5 Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu patrão?’ 6 Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!’ 7 Depois ele perguntou a outro: ‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. O administrador disse: ‘Pega tua conta e escreve oitenta’. 8 E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz. 9 E Eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas. 10 Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes. 11 Por isso, se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12 E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso? 13 Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16, 1-13).

Mons João Clá Dias EPI – O bom exemplo de um mau administrador

O Evangelho deste domingo centra-se na conhecida parábola do administrador infiel, a qual sempre chamou a atenção de Padres da Igreja, Doutores e comentaristas pela grande dificuldade que apresenta sua interpretação. Não faltaram autores de peso, inclusive, que julgaram não só embaraçoso, mas até impossível alcançar seu sentido. Ela é, de fato, completamente sui generis pois, ao propor como exemplo o negócio fraudulento realizado por um feitor, à primeira vista parece sugerir que Nosso Senhor elogia essa má conduta.

Entretanto, sua compreensão, bem diversa dessa impressão superficial, não é ­complexa quando meditada a partir de uma perspectiva adequada. Esta nos é oferecida com muita sabedoria pela Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum, cuja Oração do Dia diz: “Ó Pai, que resumistes toda a Lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna”.1 Toda a Lei se sintetiza nesses dois pontos, os quais nos obtêm a bem-­aventurança. Pelo contrário, tal felicidade nos escapará se cedermos à terrível tendência existente em nossa natureza de querer para nós não só o que pertence a Deus, mas também o que é dos outros.

O entrechoque do egoísmo humano com o verdadeiro amor a Deus, presente na face da Terra desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, estabeleceu uma luta que durará até o fim do mundo. Eis a prova pela qual devem passar todos os homens concebidos no pecado original, matéria trazida à tona pelo Evangelho desta Liturgia.

O perigo de acomodar-se numa responsabilidade

Naquele tempo, 1 Jesus dizia aos discípulos: “Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens. 2 Ele o chamou e lhe disse: ‘Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua ­administração, pois já não podes mais administrar meus bens'”.

Desde os primórdios da humanidade até o término da História sempre houve e haverá negócios no mundo e, ligados a eles, o delírio da ganância, a tendência para a posse desmedida e a tentação de apropriar-se daquilo que pertence a outro… males de todas as épocas, fruto do pecado original. Já no primeiro versículo deste Evangelho, Nosso Senhor nos introduz com sua divina didática numa cena muito viva, na qual este problema universal se torna manifesto.

Ao gerir os bens de um homem rico, certo feitor andava mal, dilapidando a fortuna alheia posta em suas mãos. É de se supor que, tendo sido preguiçoso a vida inteira e não sendo cobrado no seu serviço, cumpria-o com relaxamento e esbanjava de modo inconsciente o dinheiro de seu senhor. Confiante que nada lhe aconteceria, acomodara-se no cargo sem imaginar que o vulto das consequências de seus atos poderia levá-lo a ser posto fora. De fato, quando alguém se estabelece sem responsabilidade numa função acaba conduzindo-a de acordo com os próprios caprichos.

O dono dos bens fora advertido da situação, talvez por alguém movido por ódio ou inveja daquele mau administrador. Diante da gravidade das acusações e na perspectiva de ver-se arruinado, o senhor alarmou-se e decidiu tomar medidas, ordenando que o feitor não mais cuidasse do seu patrimônio, mas lhe entregasse tudo e fosse embora.

O preguiçoso ergue-se como um leão

3 “O administrador então começou a refletir: ‘O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. 4 Ah! Já sei o que fazer, para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração'”.

O administrador injusto, despedido de antemão sem direito a recurso, percebeu que seria privado de todas as regalias inerentes à sua condição. Já era tarde e restava-lhe apenas prestar contas. Entretanto, como todo preguiçoso cujas veleidades são postas em xeque, ele se converteu em um leão para defender-se. Com efeito, quem possui o vício da preguiça pratica-o em relação a Deus e às próprias obrigações, não, porém, no que se refere a seus interesses, porque, ao tirar o Senhor do centro, põe a si mesmo em seu lugar, como um outro deus.

Tendo-se consumado a perda da gestão, o feitor não sabia o que lhe aconteceria. Por ter certa idade, ou quiçá por indolência, faltavam-lhe as forças necessárias para trabalhar com os próprios braços, o que lhe dificultaria ser aceito por outro como empregado em cargo semelhante. Enfim, seguindo as vias normais ele cairia na miséria, na contingência de pedir esmolas, o que não aceitaria por causa de seu orgulho. Estava, portanto, necessitado do amparo de alguém que dele se condoesse e o sustentasse. Para isso, o que haveria de fazer? Precisava ter amigos que lhe retribuíssem por eventuais benefícios antes recebidos…

A solução: fazer amigos

5 “Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu patrão?’ 6 Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!’ 7 Depois ele perguntou a outro: ‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. O administrador disse: ‘Pega tua conta e escreve oitenta'”.

A administração financeira naquele tempo dava grande liberdade ao feitor, que se tornava, por assim dizer, proprietário do dinheiro, do qual só prestava contas mais tarde, devolvendo-o com os lucros a seu legítimo dono. Portanto, o protagonista da parábola podia dispor do dinheiro como quisesse.

Quando esse sujeito péssimo viu-se na iminência de cair na mendicância, tendo ainda nas mãos o governo daqueles bens, aproveitou para tomar uma atitude que o favorecesse, embora fosse injusta, uma vez que o patrão sairia lesado. Espertíssimo, travou amizades valendo-se do dinheiro do dono: ao fazer os cálculos com os devedores, pois tudo estava escriturado, abateu consideravelmente as dívidas destes.

No fundo, praticava um roubo e uma fraude, dilapidando de novo a fortuna do senhor. Mas como ele era o administrador, os ­devedores nem suspeitavam do prejuízo que estava ocasionando e, naturalmente, ficavam muito amigos!

O cambista e sua esposa, por Marinus van Reymerswale - Museu do Prado, Madri.jpg
O cambista e sua esposa, por Marinus van Reymerswale
Museu do Prado, Madri

Podemos imaginar quanto Nosso Senhor, ao descrever o procedimento do feitor, prendia a atenção dos filhos do povo eleito que O escutavam, pois naquela época eles haviam caído numa grande obsessão pelos assuntos de finanças. Sem dúvida, só de se colocarem no lugar do patrão ou do administrador deviam experimentar, simultaneamente, um verdadeiro espanto pelo enorme prejuízo do primeiro e uma inconfessada admiração pela habilidade financeira do segundo. Qual seria a intenção do Mestre com aquela peculiar narração?

Elogio não à fraude, mas à esperteza

8 “E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”.

São as palavras deste versículo que criaram tantas dificuldades para os intérpretes da parábola ao longo dos séculos. Dir-se-ia, à primeira vista, que Nosso Senhor elogia um pecado. Isto não é real, pois Ele nunca poderia exaltar uma ofensa contra sua divina Lei. O elogio proferido pelos seus lábios sagrados não se dirige nem à fraude, nem ao roubo, nem à desonestidade cometida pelo mau administrador.

Quando toma conhecimento das manobras do feitor, o senhor o elogia, apesar de seu procedimento ilegítimo. Então roubar é prudência? Não. O dono viu bem que ele executou um excelente ato de diplomacia ao usar as dívidas para encontrar um posto digno na hora em que era posto fora do emprego. Ou seja, ao sacudir a preguiça, ele moveu-se como não fizera até aquele momento; não por amor a Deus, é verdade, mas por amor à própria pele. Seu objetivo não foi obter dinheiro para si, mas angariar amizades, o que conseguiu com inegável sucesso. Foi esta habilidade que o senhor elogiou, indicando colateralmente, aliás, o quanto a arte da diplomacia está acima dos artifícios do mundo das finanças…

Nosso Senhor Jesus Cristo criou essa situação para mostrar, no administrador injusto mas esperto, que soube usar o dinheiro a fim de fazer amizades para o futuro, o quanto são ágeis os filhos das trevas em seus interesses, e daí tirar as consequências que veremos a seguir.

De fato, os filhos das trevas sabem aplicar regras inteligentes, próprias a conseguir o que desejam, pois têm uma capacidade incomum para acertar seus negócios. Sublinhemos que Nosso Senhor não elogia os atos que eles praticam, mas sim a sua sagacidade. Nós que somos filhos da luz numa sociedade tantas vezes hostil deveríamos suplantar estas qualidades do mal, dentro da observância da Lei de Deus, pois não pode ser que os filhos das trevas superem em qualquer campo os verdadeiros seguidores de Jesus Cristo. Assim, empreguemos a argúcia do feitor no trato e convívio com os outros e, sobretudo, para acertar o nosso grande negócio, chamado salvação eterna; procuremos conquistar os melhores lugares no Céu a fim de estarmos mais próximos de Deus, unidos com Ele e postos na sua perpétua adoração.

Em suma, o anseio manifestado por ­Nosso Senhor nesta ocasião é de que o bem tenha a capacidade de difusão que, por desgraça, o mal apresentou ao longo de toda a História. Essa é a filosofia do Evangelho de hoje!

II – Perigos e vantagens do “dinheiro injusto”

Após o importantíssimo ensinamento a respeito da sagacidade que devem ter os filhos da luz, o Divino Mestre, em continuidade com o tema da parábola, passa a tratar sobre um dos problemas centrais da vida espiritual: o uso dos bens recebidos da Providência, e mais especificamente daquele que se encontra entre os que mais afastam as pessoas das vias de Deus, o dinheiro.

9 “E Eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”.

Nosso Senhor emprega neste versículo uma expressão que fere não só os ouvidos contemporâneos, como os de todos os tempos: “dinheiro injusto”. Merecerão esse adjetivo de forma absoluta os recursos pecuniários? Que tinha Ele em mente quando assim falava? Consideremos essa faceta de sua infinita sabedoria sob dois aspectos.

Em primeiro lugar, Jesus toma essa figura para simbolizar todos os recursos que nós recebemos da Divina Providência para cuidar. Não apenas o dinheiro, mas também as demais dádivas: bens sobrenaturais, como a graça, as virtudes e os dons infundidos no Batismo; bens espirituais como são as potências de nossa alma, inteligência, vontade, imaginação, memória, sensibilidade; bens de cultura, nosso corpo, nossa saúde, bens materiais, o tempo e tantos outros! Como o feitor da parábola, fomos também chamados a administrá-los por um Senhor possuidor de riquezas infinitas, o próprio Deus. Ora, como o justo peca sete vezes ao dia (cf. Pr 24, 16), acabamos usando-os de forma injusta. Quando isto acontece?

Na realidade tudo nos é dado por Deus, pois todos os seres vêm d’Ele, são criaturas suas e, portanto, Lhe pertencem. A tal ponto que, se cochilasse um segundo, a obra da criação desapareceria, porque é Ele quem constantemente a sustenta. De maneira que nós não podemos utilizar esses bens como coisa própria, mas, sim, aplicando-os a seu serviço.

Ora, a partir do momento que nos julgamos donos absolutos de qualquer destas mercês e as usamos não para o benefício de Deus e do próximo, mas com o intuito de satisfazer nosso interesse e egoísmo, elas passam a ser símbolo perfeito daquilo que Nosso Senhor chama nesta parábola de “dinheiro injusto”!

Também o dinheiro pertence a Deus

Além deste significado alegórico, Nosso Senhor Se refere ao dinheiro em si. Este, por incrível que pareça, também pertence a Deus. ­Está, porém, entre as coisas a que o homem mais facilmente se apega e assenhoreia, julgando-o um deus, o que não é legítimo. Desde um pobre mendigo até o maior dos nababos, se não é virtuoso, ao receber uma moeda dela se apropriará. Quem assim age rouba a Deus e, por isso, o dinheiro é qualificado pelo Salvador com o título de injusto. Era justo quando saiu das mãos de Deus e continuaria a sê-lo se usado como Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora o faziam… ou seja, se posto nas mãos de um Santo.

O dinheiro nos é dado apenas para administrá-lo. Enquanto criaturas e à semelhança de feitores fiéis, devemos utilizá-lo para a glória do Criador, que é o seu dono. Portanto, todo uso que não seja para o benefício das almas, a difusão do Reino de Deus ou a própria sustentação, mas em função d’Ele, torna-o injusto.

Fazer amizades que rendam juros eternos

A seguir, Nosso Senhor conclui a parábola mostrando a necessidade de “fazer amigos” com esse mesmo “dinheiro injusto”. Isto supõe uma belíssima aplicação da sagacidade dos filhos das trevas, antes mencionada, no campo do bem e da virtude. Como entender esta recomendação do Salvador? Todos os bens acima referidos, entre eles o dinheiro, não servem para serem entesourados… Pelo contrário, nós devemos ter a esperteza de “aplicá-los” de tal forma que beneficiemos os outros e, com isso, angariemos boas amizades. Quem são tais amigos?

O negócio de que fala Nosso Senhor é extratemporal… Em primeiro lugar, teve Ele o intuito de que compreendêssemos a importância de “conquistar” a amizade do próprio Deus. Mas não só: também a de todos aqueles que nos podem ajudar a alcançar nossa finalidade última, a eterna bem-aventurança.

O feitor ganhou a afeição daqueles a quem perdoara parte da dívida e até a admiração do dono da fortuna. Também as atitudes que tomamos em benefício do próximo por amor a Deus, utilizando os dons que a Providência nos deu ou mesmo o “dinheiro injusto”, Nosso Senhor as computa e levará em consideração. Igualmente, os Anjos da Guarda das pessoas favorecidas e os demais Anjos e Bem-aventurados que se encontram na visão beatífica, se comprazem com esse procedimento e nos olham com simpatia e benevolência. Cria-se uma amizade forte, que muito nos auxiliará na hora em que compareçamos ante o Divino Juiz, ou seja, “quando acabar” nosso dinheiro, pois ao morrer não mais teremos meio de usá-lo, sequer para o bem. Eles, entretanto, podem nos devolver o “dinheiro” investido, com bons juros!

Cabe considerar um bonito princípio dado por Nosso Senhor ao dizer: “Eles vos receberão nas moradas eternas”. Isto significa que as amizades celestes irão pleitear junto a Deus a salvação de quem assim empregou o dinheiro injusto. Há, portanto, uma mediação de afeto no Céu pois, segundo afirma São Tomás de Aquino,2 a proximidade d’Aquele que tudo tem confere uma maior possibilidade de intercessão, tal como, em um reino, quanto mais perto do rei está o intermediário, com mais facilidade obtém aquilo que precisa para os seus protegidos.

Terá valido a pena, em consequência, fazer essa plêiade de amigos oferecendo-lhes durante a vida “barris de azeite” e “sacas de trigo”, pois eles nos devolverão com acréscimos o empenho que tivemos pelo bem nesta Terra. É esse exatamente o sentido do provérbio: “Quem se apieda do pobre empresta ao Senhor” (Pr 19, 17).

É preciso tomar os bens deste mundo e agir com a diplomacia do administrador, sem nunca, é claro, afastar-se do caminho da moral. Dedicando-nos ao apostolado que nos granjeia amigos no Céu, na hora em que precisarmos teremos lá quem nos auxilie, interceda por nós e nos consiga graças especiais. Logo, é vantajoso fazer bom negócio no campo sobrenatural, estreitando esse tipo de amizade!

Pelo contrário, quão terrível é a situação daquele que não procede assim… No dia em que morrer de nada adiantará ter no banco qualquer valor acumulado apenas para seu próprio interesse. Se ele apresentar-se diante do juízo de Deus em pecado mortal, esse dinheiro estará queimando à espera de sua alma, que será condenada por todo o sempre.

O dia a dia prepara as grandes ocasiões

10 “Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes. 11 Por isso, se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem?”

Quais são as pequenas coisas a que alude Nosso Senhor neste versículo? São aquelas que nós temos nas mãos aqui na Terra, desde os dons mais elevados até o que é meramente material, e que já consideramos ao analisar a expressão “dinheiro injusto”. A tudo isso somos passíveis de apego e devemos tratá-los tendo em vista o verdadeiro bem: o estado de graça, a vigilância contra as tentações, a santidade e o mundo sobrenatural. As coisas desta vida nada são se comparadas com estas que nos conduzem à visão beatífica, ao eterno convívio com Deus.

Se nós formos fiéis na administração do pouco, observando no seu uso a Lei de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, o seremos também nos grandes momentos. Em sentido oposto, se formos infiéis, não teremos qualidade de alma para administrar as graças de maior vulto. É preciso haver inteira paridade entre ambas as gestões.

12 “E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso?”

Para concluir este importante pensamento, Nosso Senhor sublinha que, por amor a Ele, devemos amar os outros como amamos a nós mesmos. Na realidade, tudo o que existe é de Deus e é do próximo, no sentido de que deve concorrer para o seu bem. Ora, se não agimos assim, como haveremos de receber aquilo que nos compete no fim da nossa existência terrena?
O Deus verdadeiro e o deus dinheiro

13 “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

O último versículo deste Evangelho contém o fundo do ensinamento que Nosso Senhor quis transmitir. Existem dois deuses antagônicos: o Deus verdadeiro com “D” maiúsculo, e outro “deus” com “d” minúsculo, o dinheiro, símbolo e ponto de concentração de um ídolo, que é a própria pessoa, e da religião chamada egolatria.

De fato, só há duas leis na face da Terra:3 a lei do amor a Deus levado até o esquecimento de si mesmo, e a lei do egoísmo levado até o esquecimento de Deus. Não existe uma terceira. E também não é possível cair na idolatria a si e depois querer adorar o Deus verdadeiro. Está-se de um lado ou de outro, como Nosso Senhor diz taxativamente: “Ninguém pode”!

Isto porque temos uma capacidade limitada de amar. Quando esta é aplicada com apego a qualquer criatura, dificilmente lhe daremos apenas uma parcela de nosso amor, mas acabaremos deitando nela o amor inteiro, como um pretexto para adorarmos a nós mesmos. Nada sobrará para amar a Deus… Quando muito, restará um pseudoamor feito de interesse.

Ora, entre esses dois amores possui maior dinamismo o amor-próprio, ao passo que tal atributo raríssimamente adorna o amor a Deus. Assim, Nosso Senhor nos convida no Evangelho de hoje a reverter esta triste constante da História e assumir análogo dinamismo. Para isso, Ele nos dá como exemplo nada menos que a virulência do mal.

III – Negócios sobrenaturais!

Sabemos que os negócios da Terra, quando bem feitos, rendem juros e benefícios. Mas estes, na melhor das hipóteses, podem ser de utilidade meramente material e apenas até a hora da morte. Já os negócios sobrenaturais produzem lucro fixo por toda a eternidade, e não estão sujeitos às flutuações das operações financeiras daqui de baixo.

Eis o melhor negócio: entesourar no Céu, não se preocupando com os bens desta vida, a não ser para aplicá-los em favor do rico Senhor que no-los deu para administrar.

Na hora do nosso juízo, quando forem colocadas sobre um prato da balança todas as nossas misérias e temamos uma sentença de condenação, teremos quem venha em nosso auxílio dizendo a Nosso Senhor: “Este é nosso amigo! Ele fez amizade conosco com o ‘dinheiro injusto’, pois o aplicou constantemente para vossa maior glória”. É bom negócio, portanto, entregar-se por inteiro ao serviço de Deus, no empenho de louvá-Lo, santificar nossas almas e salvar os outros. Saibamos fazer negócios sobrenaturais! (Revista Aarautos do Evangelho, Setembro/2016, n. 177, pp. 8 à 15)

1 XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.369.
2 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.83, a.11.
3 Cf. SANTO AGOSTINHO. De ­Civitate Dei. L.XIV, c.28. In:
Obras. Madrid: BAC, 1958,
v.XVI-XVII, p.984.

 
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