Um bebê em prantos simboliza a oração do necessitado. Algo lhe está faltando. A mãe solícita interpreta logo os anseios da criança: terá sede ou talvez um pouco de frio, padecerá de fome ou quiçá de uma pueril solidão…

De maneira análoga, entre Deus e nós acontece o mesmo: somos crianças plangentes que Lhe dirigem algumas súplicas e invocações.

Porém, estará Ele atento aos nossos rogos?

Parece que não são necessárias nossas orações

Dir-se-ia, segundo ensina São Tomás de Aquino (Cf. Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 2), que a oração não pertence propriamente às coisas humanas, mas às divinas, pois rezar é elevar a mente a Deus.

E, para sustentar essa posição, o Aquinate se apoia nas palavras do Profeta Malaquias: “Dissestes que é inútil quem serve a Deus” (Ml 3, 14).

Ora, se sou inútil até mesmo para prestar culto a Deus, quanto mais o serei ao dirigir-Lhe uma prece terrena e imperfeita… Minha oração, por conseguinte, não poderia influenciar em nada o curso dos acontecimentos, assemelhando-se a um solitário grão de areia que se perde na imensidão do oceano.

Parece, portanto, que não seria necessário rezar.

E, corroborando essa ideia, acrescenta São Mateus: “O vosso Pai sabe daquilo de que careceis” (Mt 6, 8).

Se Deus já sabe de tudo aquilo de que necessitamos, de que adiantaria dirigir-Lhe uma oração? Ele tudo vê, tudo perscruta, tudo discerne e nada Lhe escapa. Em tese, portanto, já teria disposto todas as coisas de tal maneira que nada deveria faltar em nossa vida.

Enigma: rezar ou não rezar?

Porém, é o próprio São Tomás que, valendo-se das palavras de São Lucas, apresenta um argumento que parece contradizer tudo quanto foi dito anteriormente: “É necessário orar sempre sem jamais desanimar” (Lc 18, 1).

Temos, agora, a imperiosa advertência de nunca abandonar a oração.

Como desvendar esse aparente enigma? A resposta é simples e remonta ao início deste artigo.

Quando uma criancinha não reclama nem chora, sua mãe logo se enche de inquietação: “Estará meu bebê adoentado? Não me pede leite, não reage a nada que lhe digo ou faço… Melhor será chamar um médico”.

De modo semelhante, quando pedimos a Deus alguma graça ou favor, Ele, em sua infinita liberalidade, quer que a oração seja o meio pelo qual nos concede aquilo que, desde toda a eternidade, dispôs conceder-nos em seus desígnios providenciais.

Ensina São Gregório Magno: “Pedindo, os homens merecem receber aquilo que Deus onipotente determinou conceder-lhes desde a eternidade”.

Logo, embora Deus conheça perfeitamente nossas insuficiências e carências, quer que Lhe apresentemos nossas súplicas. É como uma mãe que se compraz em ouvir a criança que chora: não porque ignore sua necessidade, mas porque deseja que ela recorra a seus cuidados. Assim também Deus acolhe nossas súplicas e, por meio delas, quer conceder-nos os dons de que necessitamos, inclusive os manjares celestiais.

É de Santo Afonso Maria de Ligório a célebre frase: “Quem reza se salva, quem não reza se condena”. Assim sendo, rezemos muito.

No entanto, alguém pode objetar: “Está muito bem, eu rezo. Porém, devo rezar muito ou pouco? Não tenho muito tempo disponível.”

Respondemos: “Meu caro, reze. Reze como puder, reze na medida em que suas possibilidades lhe permitirem. Reze bastante, mas reze! Não foi em vão que o próprio Jesus nos ensinou: ‘Pai Nosso, que estais no Céu…’”