Isaac casou-se com Rebeca; entretanto, ela era estéril. “Deus quis provar a fé de Isaac e de Rebeca, como havia provado a de Abraão e de Sara”.

Isaac pediu a Deus que lhe desse um filho e, passados vinte anos, o Senhor ouviu sua súplica: Rebeca concebeu.

Mas, sentindo que havia no interior de seu ventre uma verdadeira luta, Rebeca recorreu ao Altíssimo, que lhe disse: “Duas nações trazes no ventre, em tuas entranhas dois povos se dividirão. Um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais novo” (Gn 25, 23).

Transcorrido o tempo normal da gestação, Rebeca deu à luz gêmeos. O primeiro era todo coberto de pelos e recebeu o nome de Esaú; o segundo nasceu segurando com a mão o calcanhar do irmão e foi chamado Jacó.

Quando cresceram, Esaú tornou-se um caçador bastante rude, ao passo que Jacó morava em tendas, junto de seus pais (cf. Gn 25, 27).

Por um prato de lentilhas…

Certo dia, Jacó preparou uma sopa de lentilhas. De repente, chegou Esaú, que vinha do campo, e, com sua costumeira rudeza, disse ao irmão: “Dá-me de comer desse negócio vermelho, pois estou exausto” (Gn 25, 30).

Jacó respondeu-lhe que lhe daria o alimento, desde que Esaú lhe transmitisse, sob juramento, o direito de primogenitura. Esaú renunciou a esse direito, fez o juramento e comeu as lentilhas.

Esse fato é muito simbólico. Há pessoas, hoje, que vendem o tesouro da fé pelas “lentilhas” da sensualidade, da corrupção, do prazer ilícito, da ambição etc.

Isaac dedicou-se à agricultura, e “o Senhor o abençoou. Foi enriquecendo sempre mais, até tornar-se um homem muito rico” (Gn 26, 12-13).

Esaú casou-se com duas mulheres pagãs, razão pela qual São Paulo o chama de “profano” (Hb 12, 16). Essas mulheres “causaram muitos aborrecimentos a Isaac e Rebeca” (Gn 26, 35).

Jacó recebe a bênção solene

Quando Isaac ficou velho, perdeu a visão.

Certo dia, chamou Esaú e pediu-lhe que fosse ao campo caçar e preparasse um assado para seu pai, pois lhe daria “a bênção antes de morrer” (Gn 27, 4).

Esaú saiu para caçar. Rebeca, que ouvira as palavras de Isaac, transmitiu-as a seu filho preferido, Jacó, e mandou-lhe que fosse ao rebanho buscar dois cabritos gordos, pois ela mesma os prepararia conforme o gosto de Isaac.

Jacó trouxe os cabritos, e Rebeca preparou um saboroso assado. Em seguida, cobriu Jacó com algumas vestes usadas por Esaú, revestiu-lhe as mãos e o pescoço com as peles dos cabritos e pediu-lhe que levasse o alimento ao pai.

Obedecendo fielmente à mãe, Jacó serviu o assado a Isaac, que, ao final, deu a bênção solene, na qual, entre outras coisas, declarou: “Diante de ti, inclinem-se os filhos de tua mãe. Maldito seja quem te amaldiçoar, e bendito quem te abençoar” (Gn 27, 29).

Assim que Jacó se retirou, chegou Esaú, trazendo o guisado que preparara com a caça. Isaac, porém, disse-lhe que a bênção já havia sido dada a Jacó.

Esaú “pôs-se a gritar e chorar amargamente” (Gn 27, 34) e perguntou se o pai não tinha outra bênção.

“Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos que facilmente conciliam Deus com o mundo”.

Comovido pelos gritos, Isaac deu-lhe uma bênção, mas sujeitou-o ao irmão.

Esaú concebeu tamanho ódio contra Jacó que chegou a planejar matá-lo. Sabendo disso, Rebeca chamou Jacó e recomendou-lhe que fugisse para a Mesopotâmia e se abrigasse na casa de seu irmão.

Réprobos e eleitos de Deus

São Luís Maria Grignion de Montfort mostra o significado simbólico dos fatos acima narrados.

“Conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó é figura de Jesus Cristo e dos predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos”. Rebeca, por sua vez, simboliza Nossa Senhora.

Esaú não dava importância a Rebeca e estava cheio de inveja e de ódio contra seu irmão Jacó, como Caim contra Abel. Do mesmo modo, os réprobos não se preocupam com a devoção à Santíssima Virgem, simbolizada por Rebeca, e trocam seu direito de primogenitura, ou seja, o Céu, pelos prazeres da terra.

Por um instante de prazer, vendem “a graça batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança”. Invejam, odeiam e perseguem os predestinados.

Jacó levava uma vida temperante, amava e honrava sua mãe e lhe obedecia prontamente em tudo; não era invejoso. Os predestinados, por sua vez, não se deixam arrastar pelas paixões desordenadas, veneram Nossa Senhora e procuram cumprir amorosamente a vontade d’Ela.

Embora perseguidos pelos réprobos, são felizes neste mundo, na hora da morte e por toda a eternidade.

Roguemos a Maria Santíssima a graça de aumentarmos nossa devoção para com Ela, obedecendo com grande amor aos desejos da Mãe de Deus, como fez Jacó em relação a Rebeca.