Toda beleza criada é uma participação na beleza infinita do ser de Deus. Se isso é verdadeiro, precisamos ir adiante e dizer que o Verbo, fazendo-Se carne, por assim dizer “encarnou” a bondade e o amor, a verdade e a beleza infinitas de Deus.
Cristo é “o mais belo dos filhos do homem” não por causa de suas qualidades estéticas particulares, mas porque é a beleza encarnada de Deus. Todo o seu ser é amor e verdade, bondade e beleza.
Assim, se é verdade que Cristo pode dizer de Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, pode com toda a razão dizer “Eu sou a Beleza”. Cristo pode dizer de Si próprio o que só Deus pode dizer: “Eu sou”.
O Ser, a Verdade e o Bem são, segundo o termo escolástico, “convertíveis”. Se Cristo é a Verdade e a Bondade, é também aquilo que é seu esplendor, a Beleza: Splendor Veritatis, Splendor Boni!
As sementes de beleza que Cristo semeia crescem e dão fruto
Ouso vos exprimir uma convicção que é uma intuição a qual creio, verifica-se de mil modos: “Ali onde está Cristo, ali está a beleza”.
Onde os corações, os espíritos, as vidas se abrem a Cristo, ali as comportas da beleza se abrem e se derramam como torrentes vivificantes sobre um mundo aviltado pelo pecado, desfigurado pela feiura do mal.
Há dois mil anos que isso se verifica, e acho que todo o sentido de nosso simpósio preparatório para o encontro de Pentecostes consiste no seguinte: olhar como as sementes de beleza que Cristo semeia crescem e dão fruto.
Beleza e arte sagrada
Paro por aqui, com duas questões que me deixam inquieto. Primeira: Por que tanta arte sagrada em nossos dias é tão feia? O Museu do Vaticano, no tocante à arte sagrada moderna, deixa-me perplexo e até estupefato.
Que aconteceu para que a arte sacra esteja tão longe das grandes expressões do passado? Será o resultado da crise geral da arte, da cultura de nosso tempo?
Será necessário reaprender a encontrar as expressões do Mistério de Cristo em artistas que podem parecer distantes da Fé? Haverá sinais de uma retomada autêntica da arte inspirada pelo Mistério de Cristo?
Segunda: Por que a liturgia perdeu tanto o senso da beleza? Por que tanto mau gosto em tudo o que cerca a celebração do Mistério da Fé? Não deveria ela dar origem à mais bela das belezas?
De onde vem esse “pauperismo”, esse “miserabilismo” em tantas de nossas expressões litúrgicas? É a perda do senso do sagrado? Ou é, mais profundamente, um enfraquecimento da presença, da percepção do Mistério de Cristo?
Falta-nos o enraizamento em Cristo, fonte da Beleza, e a própria Beleza?
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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