Arautos do Evangelho: Em seus livros e palestras, Vossa Excelência dedica largo espaço aos assuntos familiares. Por quê?
Dom Rafael Llano Cifuentes: São duas grandes motivações. Primeira, a família é a célula básica da sociedade. João Paulo II nos diz que o futuro da humanidade passa pela família. Se nós cuidamos dessa célula básica, cuidamos da sociedade toda. A família é, por assim dizer, a fonte da qual emergem todos os valores sociais.
Então, isso me levou a pensar no caráter fundamental da família. O segundo é um motivo muito pessoal. Eu nasci numa família cristã e devo minha vocação, em grande parte, aos meus pais. Aprendi na família o sentido cristão da vida, aprendi o sentido da solidariedade, tão necessário para a sociedade em que vivemos.
Então, se eu assimilei na minha família o sentido cristão da solidariedade, será através da família que nós vamos levar esse espírito de justiça e de paz à humanidade inteira.
AE: Isso conduz a outra questão: qual a importância da religião na família, na educação dos filhos?
Dom Rafael: Veja, a família é a sede da primeira catequese. Eu diria até que a paróquia tem um caráter subsidiário. Antigamente as catequeses eram muito mais breves porque quase tudo se aprendia na família. Quer dizer, quando numa família não há o sentido religioso, as crianças crescem sem uma base.
Um homem sem religião é um homem para o qual a vida não tem sentido. Essa angústia que grassa no mundo moderno, provocada pela consciência larvada de que a pessoa nasce para morrer, é o que provoca muitas vezes essas crises existenciais que são o grande mal do nosso século.
Assim como as grandes epidemias dizimaram a Europa na Idade Média, hoje as crises existenciais dizimam o mundo.
AE: Especialmente a juventude?
Dom Rafael: Às vezes nos perguntamos: “Por que esses jovens se entregam à bebida ou à droga? É porque são maus?” Não. É porque são simplesmente carentes.
São pessoas que não têm um sentido para a vida, não têm um sentido para a morte, não têm um sentido para a dor, e então fogem, buscando uma solução nos mundos imaginários, fictícios, da bebida ou da droga. Mas depois, quando entram novamente neste mundo real, sentem muito mais forte a angústia.
Por isso têm que repetir a dose da droga e às vezes morrem de overdose. Nós aprendemos no Cristianismo o sentido do viver, do morrer e do sofrer. E isso só se pode encontrar na família que é, como dizia antes, a fonte de onde emergem todos os valores.
AE: Qual a principal causa de tantas crises conjugais?
Dom Rafael: Eu penso que o principal motivo das crises conjugais é, sem dúvida, a falta desse sentido cristão da vida do qual acabei de falar. Porque sem um sentido cristão da vida não se aprende realmente o espírito de doação.
E por isso as pessoas se casam, disfarçadamente, por egoísmo. As pessoas querem encontrar no cônjuge um complemento da própria personalidade.
AE: Na “Cidade de Deus”, Santo Agostinho diz que no mundo só há o amor a Deus ou o amor a si mesmo, não há um terceiro. É isso o que ocorre com essas pessoas?
Dom Rafael: Exatamente. Aliás, eu escrevi isso num livro intitulado Egoísmo e Amor. Então, muitos se casam para encontrar no seu cônjuge um complemento de sua própria personalidade. Na realidade, cada um ama o outro em função de si próprio.
“Embaixo da bandeira do amor, navegam muitas fragatas de egoísmo”, afirmou Von Gebsatel, um dos maiores pensadores alemães do nosso tempo. De trás do disfarce do amor, escreve também o Papa João Paulo II, na Carta às Famílias, também cresce o egoísmo.
Assim, acontece que quando um cônjuge não encontra no outro um complemento para sua personalidade e pensa que com outra pessoa ele vai ser mais feliz, ele larga o cônjuge legítimo e se junta com outro. Não existe o sentido do compromisso.
O amor imaturo diz: “Eu te amo porque me tornas feliz”. O amor maduro diz: “Eu sou feliz porque te amo, porque me entrego a ti, porque me dou”. São coisas completamente diferentes.
AE: E a importância de cada cônjuge procurar a santificação do outro?
Dom Rafael: Bem, aí já é outro problema. Onde não há sentido cristão do Matrimônio, não pode haver esse empenho em santificar-se. O Matrimônio é um estado próprio para santificar-se.
O Papa João Paulo II na Familiaris Consortio diz que os cônjuges têm que encontrar santidade no Matrimônio e através das realidades próprias da existência conjugal e familiar.
Então, como se vai encontrar santidade no Matrimônio se este é considerado como um veículo para se autorrealizar, para, por assim dizer, acrescentar um círculo a mais na auréola do próprio narcisismo? O Matrimônio é uma vocação de santidade!
AE: Qual é, nisso, o papel da paciência?
Dom Rafael: Quem não sabe amar verdadeiramente, não tem paciência. Se a pessoa considera o outro apenas um objeto para sua própria realização, quando o outro o inquieta, ou o perturba, ou não entra dentro de sua órbita, então ela fica impaciente, fica irrequieta.
O verdadeiro amor é paciente. São Paulo diz na Primeira Epístola aos Coríntios: “O amor é paciente”. Todos nós sabemos que temos defeitos, temos limitações. E a paciência nos leva precisamente a amar os outros com seus defeitos e suas limitações.
AE: No seu livro “Insegurança, Medo e Coragem”, o senhor afirma que a insegurança, na maioria das vezes, é fruto da falta de fé. Como é isso?
Dom Rafael: Vou explicar isso de uma maneira muito simples. Como podemos estar seguros se julgamos que nossa vida está entregue nas mãos de um destino cego? O homem sem fé pensa:
Não sei quantos anos vou viver, não sei que doenças vou ter, não sei se as pessoas queridas vão viver tantos anos... Então, estou vivendo mergulhado num mundo de incógnitas! Incógnitas que insuflam em mim a insegurança: que será de mim amanhã? Que acontecerá depois da minha morte?…
Ao contrário, quem tem fé diz:
Deus é meu Pai. Ele me ama, me protege! Que paz, que segurança dá sentir que sou filho de um Pai que tudo sabe e tudo pode! Estou nas mãos de Deus, e Ele é infinitamente sábio, e poderoso. Sendo assim, não posso perder a tranquilidade, a paz e a segurança.
É por isso que eu penso que a falta de segurança decorre da falta de fé e que a paz e o otimismo são frutos saborosos de uma fé profunda.
AE: Dom Rafael, como no mundo de hoje se pode levar aos universitários a Boa Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo?
Dom Rafael: Eu diria que, no dia a dia, os universitários em geral estão muito alheios ao pensamento de Deus. Então, a maneira mais fácil de levar os homens, especialmente os universitários, para Deus é vivermos pessoalmente com uma fé viva e atuante.
É ser um testemunho exemplar, sobretudo das virtudes que eles podem entender. E quais são essas virtudes? Em primeiro lugar, é a alegria. Uma pessoa alegre atrai! Atrai o budista, atrai o maometano, atrai o protestante, atrai o ateu. Porque todo mundo quer ser feliz.
A alegria e a felicidade são um pólo de atração. Quando alguém vê a alegria estampada no rosto de um jovem colega, diz: “Eu gostaria de ser como ele!” E depois, investigando o que há por trás dessa alegria, descobrirá que ele é alegre porque tem uma autêntica Fé.
AE: O senhor foi secretário de São Josemaría Escrivá. Poderia contar algum fato marcante no seu contato com ele?
Dom Rafael: É muito difícil, porque são muitos fatos. São Josemaría Escrivá era um homem de extraordinária fé. Quando tinha 26 anos e já era sacerdote, sem nada, sem experiência da vida, ele estava fazendo um retiro e de repente viu o Opus Dei. Ele nunca disse que fundou o Opus Dei. Ele viu e aceitou.
No primeiro círculo de estudos que fez para universitários, ele convidou muitos estudantes, mas só compareceram três. E ele conta ao dar a bênção com o Santíssimo Sacramento: “vi não apenas três; vi trezentos, trezentos mil, três milhões, de todas as raças, de todas as cores”.
E não disse isso de forma figurada. Foi o que ele viu mesmo! Contou-me o primeiro membro indiano do Opus Dei: “Quando São Josemaría Escrivá me viu pela primeira vez, disse-me: ‘Eu já te conhecia!’”
Quer dizer, é um homem diferente, que tinha graças muito especiais. Penso eu que ele deve ter enxergado esse jovem indiano no meio daqueles três mil, trezentos mil… É a graça do Fundador!
Novembro de 2026, nº 299
Outubro de 2026, nº 298
Setembro de 2026, nº 297
Quem são os Arautos do Evangelho?
Auxílio dos Cristãos
Músicas Natalinas