AE: O Brasil no qual o Pe. Eustáquio trabalhou, há cerca de 70 anos, era bem diferente do Brasil atual. Conhecido como um evangelizador fogoso, um verdadeiro batalhador, como agiria ele se hoje fosse, por exemplo, pároco em Vitória?

O Pe. Eustáquio seria, aqui em Vitória, aquele mesmo homem de Deus, muito simples, homem de fé, caridoso e atencioso com os pobres e aflitos, abençoando-os, transmitindo-lhes confiança no amor de Deus, levando uma vida de reparação e adoração, profundamente obediente ao Arcebispo e aos seus superiores da Congregação.

Como foi um pároco muito simples e obediente, acredito que teria aqui o mesmo senso da Igreja, amando o Bispo e o Papa. Assumiria no silêncio todo tipo de ofensas e continuaria dando sua vida pela Igreja.

O desejo dele seria o anúncio e testemunho do Amor, buscando o quanto possível ser semelhante ao Coração de Jesus unido ao Coração Imaculado da Virgem Maria.

AE: O anúncio e testemunho do Amor, nas condições do Brasil de hoje, enfrenta muitos desafios. Quais são as principais dificuldades de um missionário em 2006?

Um grande desafio é o da inculturação. Não é fácil para o missionário deixar-se impregnar dos valores dos destinatários de seu apostolado. Outro desafio é caminhar com o destinatário de seu apostolado respeitando o tempo certo para que ele possa acolher plenamente a mensagem.

O Brasil tem um povo maravilhoso, mas precisa de aprofundamento na vivência da fé, muita formação doutrinária e espiritual. Não basta anunciar o Evangelho.

É preciso ajudar os irmãos a realizar o verdadeiro encontro com Jesus Cristo vivo e ressuscitado. O missionário precisa, antes de tudo, ser santo para falar com autoridade.

AE: O Pe. Eustáquio teve a dor de ver-se incompreendido até por parte de alguns dos quais esperaria apoio. Isso deve ter influenciado seu apostolado e sua vida.

O Pe. Eustáquio viveu intensamente uma frase profética do Pe. Pierre Coudrin, fundador de nossa Congregação: “Os filhos dos Sagrados Corações serão sempre os filhos da Cruz”.

Incompreensões, cansaços, críticas, ordens severas de seus superiores, sentimento de abandono, angústia pelo desejo de continuar servindo aos pobres e aflitos e sendo proibido de abençoar os aflitos e sofredores: tudo isso foi vivido por ele no silêncio orante, unido ao Crucificado cujo Coração fora perfurado pela lança do soldado, fortalecido pela Virgem Imaculada cujo Coração, traspassado pela espada de dor.

Era-lhe alento, força e alegria espiritual, porque Deus o queria junto à Cruz redentora, reparando os pecados de tanta gente ingrata e insensível ao sangue do Justo derramado na Cruz.

Na contemplação da Cruz, ele viveu o seu calvário, descobriu e viveu em profundidade o mistério da obediência da Vítima, sendo com Ele vítima de amor.

AE: Vossa Excelência mencionou o fundador da Congregação dos Sagrados Corações, o Pe. Pierre Coudrin. É interessante lembrar que ele exerceu seu ministério, como sacerdote “fora da lei”, durante o período mais perigoso da Revolução Francesa. E conseguiu escapar da prisão e da guilhotina…

Pierre Coudrin foi um padre extraordinário pela sua fé, sua coragem e grande amor à Eucaristia. Desde sua primeira Missa, em Poitiers, ele foi pressionado pelas autoridades do governo revolucionário da França para fazer um juramento que o separaria totalmente do Papa.

Com coragem, dizia que ele e sua família jamais fariam o tal juramento. A partir desta atitude corajosa de fidelidade e amor à Igreja, ele teve de se ocultar para não ser preso. Ficou seis meses escondido num galinheiro!... orando e estudando a História da Igreja.

Quando lia a vida de São Caprásio, envergonhou-se de sua situação e saiu do esconderijo, disposto, se necessário fosse, a morrer em defesa de sua Fé. Visitava os doentes, celebrava para o povo fiel em horários menos perigosos.

Disfarçava-se de verdureiro, de carroceiro, e até chegou a assumir o nome de um defunto quando a polícia procurava por ele num hospital: não tendo como fugir, deitou-se na cama, pôs o nome de um andarilho e ficou imóvel, como morto. Os policiais passaram e ele não foi notado.

Continuou assim, disfarçando-se como podia, e permaneceu na França, atendendo os fiéis nas prisões e nas casas. Não foi preso nem guilhotinado, embora tenha acompanhado muitos condenados até o último momento.

AE: Numa autêntica obra de evangelização, o alicerce é o desapego de si mesmo, e um ardente amor a Deus e ao próximo. Isso nos leva à encíclica “Deus caritas est”. Quais as perspectivas que ela abre para a Igreja?

Com essa Encíclica, o Santo Padre começa chamando o homem e a mulher de nosso tempo para uma questão essencial em nossa vida: Deus! Ele nos fala primeiramente de Deus. Para muita gente “Deus” é um problema. Pois bem, ele enfrenta o problema e o anuncia como Amor.

Quer pregação mais atual e séria do que esta para nosso tempo? Quando Deus deixar de ser um problema, mas passar a ser uma solução e uma pista para a realização humana, nosso mundo será diferente. Espero que muita gente reflita sobre essa proposta do Santo Padre: Deus é amor.

Uma vez experimentado como amor, nossa Igreja será mais autêntica e nosso Brasil mais justo. A experiência de Deus-amor nos lança na experiência de profunda liberdade, e não menos de profunda caridade e alegria.

Tenho para mim que a Nova Evangelização terá uma bela pista no aprofundamento da Deus caritas est.