O que responder à seguinte dificuldade, proposta por uma excelente religiosa?
Se a natureza humana foi criada no estado de santidade e de justiça – e da mesma maneira o anjo decaído, criatura do Deus três vezes santo – o mal não existia nela.
Como, então, uma natureza santa, pura e justa, foi capaz de perverter-se, se ela não tinha em si mesma um princípio de mal?
E se foi ela própria que criou esse princípio nefasto, como terá ela sido santa, justa e correta em sua origem, uma vez que a santidade não admite o mal?”
Esta objeção pressupõe, no espírito da consulente, um conhecimento incompleto do mal, da justiça original e do pecado do homem e do anjo.
O mal não é um ente que precise de um princípio para existir: aquilo que não é uma criatura, não pode ter um princípio ou uma causa que o faça existir.
É um puro defeito, uma pura carência que não requer para se produzir nada mais do que a defectibilidade de quem o comete.
Não procuremos, pois, o princípio do mal como se fosse alguma coisa de positivo, procuremos somente se existia alguma defectibilidade naquele que o cometeu.
A justiça original estabeleceu no homem uma ordem perfeita em todas as suas faculdades; ela o unia ao soberano Bem e – deixando-lhe uma aptidão para amar todos os bens criados – regulava seus afetos de tal sorte que o amor do bem criado estava subordinado ao amor do Bem incriado, do Bem divino.
Mas essa santidade não colocou o homem na possessão desse Bem incriado; o homem não via Deus face a face, ele não O conhecia senão por suas manifestações exteriores.
Visto e possuído em Si mesmo, esse Bem supremo supre de tal forma as faculdades da criatura, e as atrai de modo tão irresistível, que lhe resulta impossível separar-se d’Ele.
Visto através das criaturas, e apesar de ser conhecido como o Bem soberano, Deus não apareceu em sua beleza e bondade infinitas nem mesmo aos anjos; Ele atrai a Si a criatura sem colocá-la na impossibilidade de trocá-Lo por qualquer bem criado.
A primeira santificação deixava subsistir, tanto na natureza humana quanto na angélica, a defectibilidade inerente a qualquer criatura.
Não possuindo o soberano Bem na plenitude de seu fim último, elas poderiam, por seu livre-arbítrio defectível, apegar se a qualquer criatura – e, em particular, à sua própria excelência – a ponto mesmo de esquecer-se do Bem supremo.
Foi o que fizeram os anjos, ao se elevarem em seus próprios pensamentos até pretenderem igualar-se a Deus e recusarem-Lhe sua submissão; e o homem, cedendo ao atrativo do fruto proibido, transgredindo a proibição divina.
Foi assim que o mal entrou no mundo, sem outra origem que a deficiência do anjo primeiramente, e do homem em seguida. Falíveis um e outro, eles caíram.
Esta é toda a explicação do mal.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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