Certa vez, escrevi que no artista se reflete a imagem do Criador.[1]

Hoje, repito estas palavras […] para recordar a todos os artistas aqui presentes que este reflexo de Deus implica uma grande responsabilidade.

Em primeiro lugar, responsabilidade por si mesmo e pelo seu próprio talento. O talento artístico é um dom de Deus, e quem o descobre em si mesmo sente, ao mesmo tempo, uma certa obrigação: sabe que não pode desperdiçar este talento, mas deve desenvolvê-lo.

Dá-se também conta de que não o desenvolve por auto-satisfação mas para servir o próximo e a sociedade, na qual lhe é concedido viver. Esta é a segunda dimensão da responsabilidade de um artista: o empenho em plasmar o espírito das sociedades e dos povos.

É nesta perspectiva que se revela a terceira dimensão da responsabilidade, a qual o filósofo grego Platão encerrou numa só frase: “O poder do Bem refugiou-se na natureza do Belo”.[2]

Quando se fala da criatividade, pensa-se espontaneamente no Belo. Todavia, este só pode começar a existir, se na sua natureza se refugiar o poder do Bem.

Por conseguinte, o artista é responsável não apenas pela dimensão estética do mundo e da vida, mas inclusive pela sua dimensão moral. Se na criatividade não se deixa guiar pelo Bem ou, pior ainda, se orienta para o mal, não é digno do título de artista.

 

Discurso a um grupo de artistas da Polônia, 25/01/04.

[1] Carta aos Artistas, 1.
[2]  (Filebo, 65).