A vida de Nosso Senhor Jesus Cristo nesta terra estabeleceu um antes e um depois na História, e influenciou a humanidade em todos os aspectos, inclusive em nosso vocabulário.

A prova disso é a parábola dos talentos, proclamada neste domingo. De tal maneira o ensinamento do Divino Mestre marcou a alma humana para todo o sempre que a palavra talento passou a ter um novo significado.

Nos tempos de Jesus o talento era, além de unidade de peso, uma medida monetária e possuía o valor de seis mil denários. Considerando que se pagava um denário por uma jornada de trabalho (cf. Mt 20, 1-2), e que um homem comum trabalhava cerca de trezentos dias num ano, um único talento equivalia a pouco mais de vinte anos de labor!

Portanto, a cena criada pelo Salvador retrata a benevolência e a dadivosidade d’Ele para com a humanidade, completamente gratuitas, imerecidas e desproporcionais.

Notória é, ademais, a desigualdade com que o Senhor entrega seus dons. O mundo hodierno apregoa o igualitarismo completo, doutrinando sucessivas gerações na ojeriza à hierarquia, na utopia do subtrair de quem tem mais para entregar ao que tem menos, e no intuito de nivelar por baixo todos os homens. O Homem-Deus pensa muito diferente!…

Na parábola, o patrão dá verdadeiras fortunas aos três servos, inclusive àquele que recebe menos, entregando “a cada qual de acordo com sua capacidade” (Mt 25, 15).

À semelhança de alguém que preenche distintos recipientes com um precioso líquido, Deus também outorga plenamente seus dons a todos, segundo a medida que cada um pode conter.

Quem é melhor? Aquele que recebe mais, ou o que recebe menos? No caso concreto, o menos favorecido foi o mais perverso… porque a bondade não está nos números nem nas quantias, mas sim na fidelidade ao senhor.

Isso se manifesta na atitude do primeiro servo: “O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles e lucrou outros cinco” (Mt 25, 16).

Ele atua com prestatividade e dedicação, empregando os talentos que ganhou para dar frutos a seu amo. E, “do mesmo modo, o que havia recebido dois [talentos] lucrou outros dois” (Mt 25, 17).

Já no alegado “medo” do terceiro servo encontramos o disfarce de um profundo egoísmo e um oculto espírito de revolta. Ele não só despreza o patrão ao enterrar o talento recebido, mas ainda busca inocular seu ressentimento nos demais, ­incriminando-o em público da culpa por sua própria maldade: “És um homem severo” (Mt 25, 24).

Segundo sua visualização distorcida, o senhor é o culpado por seus fracassos, e ele, a vítima dos dons recebidos.

Na parábola dos talentos, Jesus eternizou duas famílias de almas: a daqueles que, levados pela gratidão, empenham-se em retribuir a bondade divina por meio da dedicação e do serviço a seu Reino; e a dos igualitários, revoltados e insubmissos, ingratos à generosidade de Deus, que buscam culpá-Lo por seus próprios erros.

Aos primeiros será dado mais e terão em abundância, mas para os últimos “haverá choro e ranger de dentes” (Mt 25, 30).