Santo Irineu escreve: “Onde está a Igreja, ali também está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e todas as graças; porque o Espírito Santo é verdade”.[1]
Por conseguinte, existe um íntimo vínculo entre o Espírito Santo e a Igreja. O Espírito Santo constrói a Igreja e confere-lhe a verdade, infunde, como diz São Paulo, o amor nos corações dos crentes (cf. Rm 5, 5).
“Não é possível a comunhão com quem se afastou da doutrina da salvação”
Depois há um segundo aspecto.
Esse vínculo profundo com o Espírito não anula nossa humanidade com toda a sua debilidade, e assim a comunidade dos discípulos conhece desde o início não só a alegria do Espírito Santo, a graça da verdade e do amor, mas também a provação, constituída sobretudo pelos contrastes acerca das verdades de Fé, com as consequentes dilacerações da comunhão.
Como a comunhão do amor existe desde o início e existirá até o fim (cf. I Jo 1, 1ss.), infelizmente também desde o início existe a divisão. Não nos devemos admirar que ela persista também hoje.
Diz a primeira Epístola de São João: “Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isto se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos” (2, 19).
Por conseguinte, há sempre o perigo de, nas vicissitudes do mundo e também nas debilidades da Igreja, perder a fé, e assim perder também o amor e a fraternidade.
Portanto, é um dever precioso de quem crê na Igreja do amor e deseja viver nela, reconhecer também esse perigo e aceitar que não é possível a comunhão com quem se afastou da doutrina da salvação (cf. II Jo 9-11).
Que a Igreja nascente estivesse muito consciente dessas tensões possíveis na experiência da comunhão, demonstra-o bem a primeira Carta de João: não há voz no Novo Testamento que se eleve com mais vigor para evidenciar a realidade e o dever do amor fraterno entre os cristãos; mas a mesma voz dirige-se com severidade drástica aos adversários que foram membros da comunidade e agora já não o são.
A Igreja do amor é também a Igreja da verdade, entendida antes de mais como fidelidade ao Evangelho confiado pelo Senhor aos seus.
A caridade é inseparável da verdade
A fraternidade cristã nasce do fato de sermos constituídos filhos do mesmo Pai pelo Espírito de verdade: “De fato, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus” (Rm 8, 14).
Mas a família dos filhos de Deus, para viver na unidade e na paz, tem necessidade de quem a mantenha na verdade e a guie com discernimento sábio e competente: é isto que o ministério dos Apóstolos está chamado a fazer.
E agora chegamos a um ponto importante. A Igreja é toda do Espírito, mas tem uma estrutura, a sucessão apostólica, à qual compete a responsabilidade de garantir a permanência da Igreja na verdade doada por Cristo, da qual deriva também a capacidade do amor. (…)
Os Apóstolos e os seus sucessores são, portanto, os guardas e as testemunhas competentes do depósito da verdade entregue à Igreja, e são também os ministros da caridade: dois aspectos que caminham juntos.
Eles devem pensar sempre na inseparabilidade deste duplo serviço, que na realidade é um só: verdade e caridade, reveladas e doadas pelo Senhor Jesus.
Neste sentido, o seu serviço é, antes de tudo, um serviço de amor: a caridade que eles devem viver e promover é inseparável da verdade que guardam e transmitem. (…)
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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