Uma coisa é dizer uma ­verdade; outra, proclamá-la com elegância. Uma coisa é praticar uma boa ação; outra, realizá-la com dedicação. Nesses casos, a elegância e a dedicação constituem notas distintivas do belo – pulchrum –, pois quando a verdade e a bondade unem-se com certo esplendor, a beleza resplandece.

Não por acaso ficou consagrada na tradição tomista a expressão: o belo é o esplendor do bem e o esplendor do verdadeiro – splendor boni, splendor veri. Com efeito, o verdadeiro, o bem e o belo estão intimamente relacionados.

O bem é belo e verdadeiro, e conduz ao Sumo Bem; a verdade é boa e bela, e leva à Suma Verdade; a beleza é verdadeira e boa, e encaminha à Suma Beleza. Bem, Verdade, Beleza: Deus, o Ser por essência, de quem ­decorre, por participação, todo bem, toda verdade, toda beleza.

Mas o que têm o ­verdadeiro, o bem e o belo para serem tão especiais? Eles são “modos do ente” (De veritate, q.1, a.1) ou transcendentais do ente. E o que isso quer dizer? Conforme a Filosofia perene, denomina-se transcendental a uma propriedade fundamental do ente, que o acompanha pelo simples fato de ser.

Pertence, portanto, a todos os entes – anjos, homens, animais etc. – e não a alguma categoria particular deles. Aristóteles foi o primeiro a tratar sobre essas noções, ­posteriormente explicitadas por Filipe, o Chanceler (c. 1160-1236), e sublimadas por São Tomás de Aquino.

Partindo dos postulados do Estagirita, o Doutor Angélico conferiu a essas propriedades do ente uma formulação singular, graças à profundidade de sua metafísica.

Desde então se tornou mais claro que o uno, o verdadeiro e o bem são, antes de mais nada, atributos do Ser subsistente por si mesmo – Deus –, medida de tudo o que possui unidade, verdade e bondade por participação d’Ele (cf. De veritate, q. 1, a. 1; q. 21, a. 1; 3; De potentia Dei, q. 7, a. 2, ad 9; q. 9, a. 7, ad 6).

O Aquinate não inclui explicitamente o pulchrum entre os transcendentais do ser. Tampouco nos deixou um tratado específico sobre o belo, nem dedicou a esse tema a mesma atenção que concedeu ao verdadeiro e ao bem.

Ainda assim, a partir de passagens dispersas de sua obra, é possível reconstruir uma genuína teoria da beleza, pela qual se pode afirmar que o pulchrum é uma propriedade transcendental do ser, diferente das demais.

São Tomás afirma que são belas todas aquelas coisas que ao serem vistas agradam (cf. Suma Teoló­gi­ca. I, q. 5, a. 4, ad 1). Segundo alguns, ele mostra certa tendência a considerar a beleza como uma propriedade física: o esplendor da forma, que toca os sentidos (cf. ibid., I-II, q.27, a.1, ad 3).

Essa interpretação, porém, é insuficiente, pois o Angélico afirma explicitamente existir uma beleza espiritual, na qual o homem tem comportamento e atividade bem equilibrados pelo esplendor espiritual da razão (cf. ibid., II-II, q. 145, a. 2).

Desse modo, Deus pode ser denominado “pulcrífico”, aquele que produz beleza, porque é causa da beleza em todas as coisas, transmitindo-lhes luz e esplendor (cf. Super De divinis nominibus, c. IV, lect. 5, n. 340). De fato, toda beleza que possa haver nas criaturas é participação da Beleza Absoluta (cf. ibid., n. 346).