Nestes dias está particular viva na Igreja e no mundo a memória do Servo de Deus João Paulo II, no primeiro aniversário de sua morte.
Com a vigília mariana de ontem à noite pudemos reviver o momento exato em que, há um ano, teve lugar seu piedoso trânsito, enquanto hoje nos encontramos nesta mesma Praça de São Pedro para oferecer o Sacrifício eucarístico em sufrágio de sua alma eleita. (…)
Ofereceu sua existência a Deus e à Igreja
Na primeira Leitura, tirada do Livro da Sabedoria, foi-nos recordado qual é o destino final dos justos: um destino de imensa felicidade, que compensa incomensuravelmente os sofrimentos e as provações enfrentadas ao longo da vida.
“Deus provou-os – afirma o autor sagrado – e achou-os dignos de Si. Ele provou-os como ouro no crisol e aceitou-os como um holocausto” (3, 5-6).
O termo “holocausto” faz referência ao sacrifício em que a vítima era inteiramente queimada, consumida pelo fogo; era sinal de uma oferenda total a Deus.
Esta expressão bíblica faz-nos pensar na missão de João Paulo II, que ofereceu sua existência a Deus e à Igreja, vivendo a dimensão sacrifical do seu sacerdócio especialmente na celebração da Eucaristia.
Entre as invocações que lhe eram queridas, havia uma tirada da Ladainha de Jesus Cristo Sacerdote e Vítima, que ele desejou inserir no fim do seu livro Dom e Mistério, publicado por ocasião do 50º aniversário do seu Sacerdócio: “Jesus, Pontífice que Te entregaste a Ti mesmo a Deus como oferenda e vítima, tem piedade de nós”.
Quantas vezes ele repetiu esta invocação! Ela expressa bem o caráter intimamente sacerdotal de toda a sua vida.
Ele nunca ocultou o seu desejo de se tornar cada vez mais um só em Cristo Sacerdote, mediante o Sacrifício eucarístico, fonte de incansável dedicação apostólica. Naturalmente, na base dessa oferta total de si estava a fé.
Uma fé convicta, forte e autêntica
Na segunda Leitura que acabamos de ouvir, também São Pedro recorre à imagem do ouro provado com o fogo, e aplica-a à fé (cf. I Pd 1, 7).
Com efeito, nas dificuldades da vida é sobretudo a qualidade da fé de cada um que é provada e verificada: sua solidez, sua pureza e sua coerência com a vida.
Pois bem, o saudoso Pontífice, que Deus tinha dotado de múltiplos dons humanos e espirituais, passando através da purificação das fadigas apostólicas e da enfermidade, manifestou-se cada vez mais como uma “rocha” na fé.
Quem teve a oportunidade de conhecê-lo de perto, pôde como que tocar com a mão aquela sua fé genuína e sólida que, se impressionou o círculo dos seus colaboradores, não deixou de difundir durante o seu longo Pontificado a sua influência benéfica em toda a Igreja, num crescendo que alcançou o ápice nos últimos meses e dias de sua vida.
Uma fé convicta, forte e autêntica, livre de temores e compromissos, que contagiou o coração de muitas pessoas também graças às numerosas peregrinações apostólicas a todas as regiões do mundo, e especialmente graças a esta última “viagem”, que foi sua agonia e sua morte.
Também ele desejou receber Maria em sua casa
A página do Evangelho que foi proclamada ajuda-nos a compreender mais um aspecto da sua personalidade humana e religiosa.
Poderíamos dizer que ele, Sucessor de Pedro, imitou de modo singular, no meio dos Apóstolos, João, o “discípulo amado” que permaneceu aos pés da Cruz ao lado de Maria na hora do abandono e da morte do Redentor.
Vendo-os ali perto – narra o Evangelista – Jesus confiou-os um ao outro: “Mulher, eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” (Jo 19, 26-27). Estas palavras do Senhor moribundo eram particularmente queridas a João Paulo II.
Como o Apóstolo-Evangelista, também ele desejou receber Maria em sua casa: Et ex illa hora accepiteam discipulus in sua (Jo 19, 27).
A expressão accepit eam in sua é particularmente densa: indica a decisão de João, de tornar Maria partícipe de sua própria vida, de maneira a experimentar que quem abre o próprio coração a Maria, na realidade é por Ela acolhido e se torna seu.
O lema presente no brasão do Pontificado do Papa João Paulo II, Totus tuus, resume bem essa experiência espiritual e mística, numa vida orientada com pletamente para Cristo, por meio de Maria: Ad Iesum per Mariam.
Estimados irmãos e irmãs, esta tarde nosso pensamento volta com emoção ao momento da morte do amado Pontífice, mas ao mesmo tempo o coração é como que impelido a olhar para frente.
Sentimos ressoar em nossa alma seus reiterados convites a progredir sem medo no caminho da fidelidade ao Evangelho, para sermos anunciadores e testemunhas de Cristo no terceiro milênio.
Vêm-nos de novo à mente suas incessantes exortações a cooperar generosamente para a realização de uma humanidade mais justa e solidária, a ser artífices de paz e construtores de esperança. (…)
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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